Saúde

Afinal era mentira: o musculado Liver King gasta milhares de euros por mês em esteroides

Fez fama com o seu estilo de vida "primitivo e ancestral". Agora, os seus quase dois milhões de seguidores descobriram o segredo.
Nesta foto, só as fotos são naturais

Em pouco mais de um ano, acumulou mais de 1,7 milhões de seguidores no Instagram. O truque? Fígados crus. Muitos fígados crus. Brian Johnson adotou o nome de Liver King, ou Rei do Fígado, e transformou-se influenciador graças a uma “dieta ancestral” que procurava replicar o estilo de vida dos nossos antepassados.

O resultado, pelo menos o que era visível nas fotografias, era impressionante. Aos 44 anos, Johnson é dono de uma musculatura definida e imponente. Só que, afinal, não era a dieta que estava na origem de toda essa força, mas sim os infames esteroides.

A denúncia partiu de um colega fisiculturista, que divulgou emails alegadamente enviados por Johnson. Sob o nome de Derek, exibiu as provas num vídeo partilhado no YouTube na terça-feira, 29 de novembro. A denúncia já foi vista por perto de três milhões de pessoas.

Ao longo de uma hora, o Liver King é acusado de tomar esteroides e terá gasto mais de dez mil euros para esculpir o físico de forma mais rápida — uma admissão que terá sido feita pelo próprio nas mensagens tornadas públicas. A acusação de que recorria àquele tipo de substâncias era recorrente, mas Johnson sempre negou que o fazia. “Vou ser honesto”, replicou ironicamente durante um podcast. “Tomo PED: Priorizo, executo e domino todas as manhãs.”

Confrontado com a denúncia, o influencer acabaria por se referir ao caso de forma enigmática. “Estou estranhamente grato pelos acontecimentos recentes, por abordarem este tópico realmente complexo”, respondeu à “Rolling Stone”, sem que confirmar nem negar a veracidade dos emails, o que é, por si só, uma resposta cabal.

A história de um influencer primitivo

Brian Johnson é conhecido como Liver King, ou o Rei do Fígado, alcunha com a qual se estreou nas redes sociais em agosto de 2021. Em apenas sete meses acumulou mais de 1,2 milhões de seguidores no Instagram e perto de dois milhões no TikTok. Começou por se apresentar numa espécie de trailer. “Quando percebes que as pessoas estão a sofrer e sabes que há uma solução simples e elegante: o regresso a um estilo de vida ancestral”, explica no vídeo.

O texano barbudo criou então uma lista de nove “princípios ancestrais”, nos quais assenta esse tal “estilo de vida saudável”: o sono, a alimentação, o movimento, o frio, o sol, a luta, a defesa, a ligação à terra e o vínculo. São estes fundamentos que aborda regularmente nos vídeos que partilha. Porém, foi através da bizarra alimentação que realmente se tornou famoso, ao devorar fígado cru em frente à câmara, , “tal como faziam os nossos antepassados”.

Não é só: também faz batidos com órgãos de animais, come testículos e medula, todos crus e temperados com uma pitada de sal. Apesar de viver numa mansão com a mulher — a quem chama a Rainha do Fígado — e os seus dois filhos — os Selvagens Rapazes do Fígado —, ninguém se livra de experimentar estas iguarias. Num vídeo, Johnson, a família e os amigos brindam com copos cheios de sangue animal — ou pelo menos é isso que afirmam. Pela cara do filho mais novo, talvez seja verdade.

Não há dúvidas de que, mesmo que a vontade seja a de inspirar, a entrada de rompante nas redes sociais foi feita com um propósito: promover a sua marca de “suplementos ancestrais” e proteína. Johnson arranjou a justificação ideal e envolve, claro, referências primitivas, mesmo quando fala sobre suplementos. “Sou um caçador evolutivo e, por isso, tenho alguns negócios. São todos iguais, usam a mesma marca e têm a mesma missão”, explicou ao BuzzFeed.

A ideia é a de que, se vivermos como viviam os nossos antepassados pré-históricos, seremos mais saudáveis, mais fortes e mais felizes. Um scroll pelo feed de Johnson é uma viagem ao estilo de vida que ele próprio dizia adotar. Para lá das refeições carnívoras — que incidem nos órgãos, “as primeiras partes que os caçadores comiam”, ao invés dos músculos, que serão menos nutritivos —, tem também regras estritas em relação a tudo o resto.

Dorme numa cama feita de madeira, apenas com um pequeno cobertor a acolchoar, de forma a “simular as ervas” que os antepassados usariam para tentar descansar de forma mais confortável. No quarto há também outra regra: os telemóveis têm que estar em modo avião ou desligados. As cortinas são especiais e bloqueiam radiação eletromagnética. “Se dormes com o telemóvel ao lado da pila e dos tomates, isso vai mudar a tua testosterona”, explicou um pouco eloquente Liver King em entrevista.

“Há uma coisa que acho que é uma loucura. Vivemos num mundo onde as pessoas que são musculadas e estão em forma, têm que o justificar. Nesse mesmo mundo, quem é obeso, demasiado magro ou metabolicamente desequilibrado, não têm que se justificar a ninguém”, disse.

Parte da rotina diária de Johnson envolve fazer longos banhos de gelo e, claro, acaba por também convencer o resto da família a acompanhá-lo. Quando não está a descansar e a nadar em águas geladas, está a treinar, seja a levantar quilos e quilos de pesos ou a fazer aquilo a que chama “caçadas simuladas”, isto é, treinos de cardio.

O resto dos vídeos são entretenimento puro, onde Johnson se diverte, normalmente com armas, a disparar uma caçadeira na direção de um Beyond Burger — os novos hambúrgueres à base de plantas que imitam carne — ou a usar uma metralhadora para destruir garrafas de óleo alimentar que considera ser “nocivo”.

Se treinar é bom para o corpo e dormir bem parece trazer vantagens incontestáveis, é às dicas de alimentação que os críticos apontam os dedos. A dieta eleita por Johnson é uma espécie de dieta paleo levada ao extremo. Muita carne vermelha, muitos órgãos, poucos vegetais e quase nenhuns hidratos.

Além de ser um regime alimentar bastante criticado pelos nutricionistas, também não dá garantias de que poderá conferir a um organismo a mesma percentagem de massa muscular ostentada por Johnson, isto para não falar da sustentabilidade deste tipo de alimentação.

O consumo de órgãos crus é, para uma nutricionista ouvida pelo BuzzFeed, “muito problematica”, devido às bactérias. “Os pesticidas e hormonas dados aos animais tendem a acumular-se no fígado”, explica. “E esta dieta poderá aumentar o risco de doença cardíaca, bem como vários tipos de cancro por causa do elevado teor em gordura saturada.”

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