Saúde

Afinal há uma razão para as mulheres terem mais probabilidade de desenvolverem Alzheimer

Dois terços dos 6,5 milhões de norte-americanos que vivem atualmente com a doença cerebral são do sexo feminino.
Uma descoberta importante.

As mulheres são mais diagnosticados com Alzheimer que os homens — e agora já se sabe porquê. Dois grupos de investigadores descobriram que existe uma relação entre um gene chamado MGMT e o maior risco da doença em pessoas do sexo feminino.

O gene  em causa — o O6-metilguanina-DNA (ADN) metiltransferase, conhecido por MGMT — desempenha um papel importante na forma como o organismo desenvolve mecanismos de reparação dpo ADN tanto em homens como em mulheres. Porém, os investigadores não encontraram uma associação entre o MGMT e o diagnóstico de Alzheimer nos homens.

Segundo os dados da Associação Alzheimer (nos EUA), dois terços dos 6,5 milhões de norte-americanos que vivem atualmente com a doença são mulheres, uma tendência que se verifica em todo o mundo.

Um novo estudo publicado no passado dia 30 de junho na revista “Alzheimer’s Disease & Dementia: The Journal of the Alzheimer’s Association”, concluiu que as mulheres, devido a fatores de risco genéticos únicos — como a conjugação de dois genes e a súbita redução do estrogénio durante a transição para a menopausa —, podem apresentar uma probabilidade mais direta e rápida de contrair a doença. Nos homens esta transição é mais gradual, o que pode justificar a disparidade dos números. 

A descoberta da existência do gene MGMT foi realizada por dois grupos distintos de investigadores. Uma equipa da Universidade de Chicago descobriu-o ao analisar a composição genética de um pequeno grupo de mulheres da Irmandade Hutteriana (Anabatistas) que vivem em comunidades na zona rural de Montana e Dakota do Sul. Em média, quinze famílias vivem e trabalham numa típica colónia Hutterite, onde cultivam, criam gado e produzem manualmente tudo o que precisam para sobreviver. Como são uma comunidade religiosa fechada cujos membros se casam entre si e mantêm extensos registos genealógicos, são uma população excelente para a investigação genética.

Por sua vez, a Faculdade de Medicina da Universidade de Boston estudava a relação de um gene específico e a sua relação com a doença quando percebeu a importência do papel do MGMT. Lindsay Farrer, chefe de genética biomédica da faculdade explicou a importância dos resultados: “É uma descoberta que diz respeito especificamente às mulheres — talvez uma das associações mais fortes a um fator de risco genético que indicia, nas mulheres, a possibilidade de contraírem a doença de Alzheimer”.

Dois estudos, o mesmo gene e a mesma doença

Quando surgiu a possibilidade de estabelecer esta nova ligação da doença ao gene MGMT, Ober contactou Farrer para saber se poderia colaborar na confirmação da sua descoberta.

“Disse-lhe que tínhamos encontrado exatamente o mesmo gene na nossa pesquisa”, confirmou Farrer. “Dois estudos diferentes, que começaram de forma independentemente um do outro, encontraram, por serendipidade, o mesmo gene.”

Os investigadores compararam os resultados da descoberta com tecido cerebral masculino obtido em autópsia, e não encontraram qualquer associação entre este gene e a doença de Alzheimer nos homens.

Quando examinaram o gene MGMT via epigenética — ou seja, o que acontece quando um gene é ativado ou desativado devido a determinados comportamentos e fatores ambientais —, os investigadores descobriram que a sua expressão nas mulheres estava significativamente associada ao desenvolvimento de beta amilóide e tau, duas proteínas que são traços distintivos da doença de Alzheimer.

A ligação entre o gene MGMT e placas amilóides e emaranhados de tau foi “mais pronunciada nas mulheres que não têm o gene APOE ε4”, acrescentaram.

Considerada como uma proteína essencial, uma das funções primárias do gene APOE é “mover o colesterol no corpo. Sem ele, o organismo pode ficar comprometido”, explicou a investigadora de Boston. E continuou: “existem muitas vias que levam à doença de Alzheimer. Pode ter origem nos lípidos ou no colesterol, cujas ligações à doença de Alzheimer estão agora bem comprovadas, e o APOE ε4 é uma delas”.

“E há também a via inflamatória, que é comum a todas as doenças crónicas. Com o MGMT, podemos estar perante uma via adicional em que, de alguma forma, decorre o mecanismo de reparação do ADN. Ou talvez o gene participe numa destas outras vias propícias à doença e ainda ninguém saiba como”, acrescentou Farrer.

Os especialistas afirmam que as mulheres em risco devem ser aconselhadas pelos seus médicos em relação ao caminho que devem seguir. As opções podem incluir a supervisão da tensão arterial, dos níveis de colesterol e de açúcar no sangue em grupos saudáveis. E, em simultâneo “considerar a aplicação de terapia de reposição hormonal quando indicada, e optar por um estilo de vida saudável, que inclui hábitos de exercício regular, uma alimentação saudável e equilibrada, sono adequado e técnicas de redução do stress”, concluem.

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