Saúde

Afinal, o que é a quimioterapia preventiva que pode salvar a vida de Kate Middleton?

A NiT falou com uma médica oncologista que desmistificou este tratamento.
A princesa foi diagnosticada com cancro.

Depois de semanas de especulação e de rumores, Kate Middleton voltou a aparecer para largar uma bomba: um diagnóstico de cancro. Na revelação feita na sexta-feira, 22 de março, a princesa de Gales explicou que em janeiro foi submetida a uma cirurgia abdominal. A operação foi bem-sucedida, só que exames posteriores detetaram a presença de cancro e, por isso mesmo, Kate tem sido sujeita a “uma quimioterapia preventiva”, explicou a própria. 

Mas o que será isto da quimioterapia preventiva? Em oncologia, o termo mais correto é “quimioterapia adjuvante”, que é realizada após uma cirurgia de remoção de um tumor. “Na fase inicial do cancro, o tratamento mais eficaz é a cirurgia para remover o tumor. A quimioterapia após a cirurgia tem o intuito de eliminar células malignas ou lesões microscópicas que não conseguimos ver na cirurgia nem nos exames de imagem, mas que podem estar em circulação”, explica à NiT Catarina Ribeiro, médica oncologista fundadora da AIM Cancer Center. 

O principal objetivo desta quimioterapia preventiva é o de “eliminar células malignas residuais”. “Este tipo de tratamento aumenta a sobrevivência e reduz a taxa de probabilidade de a doença reaparecer. É um tratamento com intuito curativo.”

Esta quimioterapia adjuvante é aplicada em quase todos os tipos de cancro, mas tudo depende da fase em que a doença se encontra. “Habitualmente é feita quando o cancro está no estadio dois ou três e isso depende do tipo de cancro, do tamanho do tumor e da sua localização, bem como do índice de replicação e das alterações genéticas das células, mas, por exemplo, todos os cancros na zona abdominal podem beneficiar deste tratamento.”

Tendo em conta que a cirurgia abdominal feita por Kate Middleton antes de ser diagnosticada, os cancros mais habituais nesta área do corpo são os gastrointestinais, de estômago, intestino, cólon, reto, bem como os tumores ginecológicos, no útero ou nos ovários, na bexiga ou nos rins.

“A cirurgia pode ter sido feita com vários intuitos: remover o tumor com o objetivo curativo quando este já é conhecido, ou para diagnóstico — ocorre quando existe uma alteração e não sabemos do que se trata, até podemos assumir que é algo benigno, mas depois na cirurgia acabamos por perceber que existe um tumor maligno”, esclarece. “Também pode acontecer uma pessoa ser operada a uma lesão, por exemplo, uma infeção, e depois na análise ao tecido removido serem encontradas células malignas”, acrescenta.

A duração da quimioterapia preventiva varia muito consoante o tipo de cancro, o sítio do tumor primário e do subtipo de células. “Normalmente dura alguns meses, a rondar os seis”, refere a médica. Existem vários tipos de quimioterapias adjuvantes, por isso os sintomas também variam. Os mais comuns são as náuseas, vómitos, diarreias, inflamação das mucosas, baixas das defesas e ainda a queda de cabelo.

“Se a quimioterapia preventiva for bem sucedida, passamos para o período de vigilância com exames de imagem, normalmente de três em três meses. Correndo tudo pelo melhor, a doença não voltará”, afirma.

O estilo de vida de um doente com cancro

Catarina Ribeiro adianta que “mais de metade dos cancros estão associados ao estilo de vida”. Por isso é fundamental que desde o dia em que são diagnosticados, as pessoas alterem as suas rotinas, mesmo antes dos tratamentos — isto é, a pré-habilitação. “Os resultados vão ser melhores: têm mais longevidade, melhor qualidade de vida e menos probabilidade de aparecerem efeitos secundários graves.”

Um dos fatores-chave é a nutrição. “O tipo de alimentação depende de cada pessoa e do seu contexto clínico, do tipo de cancro e dos efeitos secundários dos tratamentos que podem exigir ajuste no plano, como as náuseas, vómitos e diarreia. Portanto, o padrão alimentar não é igual para todos e daí ser tão importante o acompanhamento profissional especializado”, alerta.

Ainda assim, o mais saudável na maioria dos casos é apostar em legumes variados, frutas, carne, peixe e ovos. Apesar de não existirem alimentos proibidos, a médica recomenda que os doentes oncológicos evitem farinhas e óleos refinados, alimentos ultraprocessados, bolachas, bolos, refeições pré-preparadas ou congeladas, refrigerantes e o fast food.

“É mais benéfico preparar as refeições em casa, incluindo uma grande variedade de legumes, de diferentes tipos e cores, gorduras saudáveis como o azeite e oleaginosas e também assegurar boas fontes de proteína tanto animal como vegetal. Apesar de haver alguns mitos sobre a proteína animal, ela é importante nos tratamentos destes doentes, porque ajuda a suportar a massa muscular, ajudando a evitar a sarcopenia e caquexia”, garante a médica. Os macronutrientes, como a proteína e a fibra, e os micronutrientes, como as vitaminas e minerais, também são importantes.

O exercício físico é outro dos elementos cruciais que deve ser integrado como parte do tratamento na vida das pessoas com cancro. “Ao contrário do que se possa pensar, as pessoas não devem ficar sentadas no sofá. Pelo contrário, porque quanto mais massa muscular conseguirem manter, menos efeitos adversos, melhores resultados e mais tempo poderão viver”, assegura.

A médica oncologista recomenda treinos de força para estimular o aumento de massa muscular. “No fundo, os habituais exercícios de musculação que vemos nos ginásios, tendo em atenção que a carga tem de ser progressiva. Mais do que nunca, durante a quimioterapia, o treino deve ser acompanhado por fisiologistas de exercício com formação e experiência em oncologia, integrados nas equipas multidisciplinares.” A especialista considera que o treino de força pode ser conjugado com outros exercícios, como caminhadas, dança ou ioga. 

“Importa desmistificar que as caminhadas, pilates ou hidroginástica, se forem feitos por si só, apesar de serem os mais recomendados pelos clínicos, não são suficientes para os melhores resultados. Um exemplo no qual estes tipos de exercício são insuficientes é a osteoporose, que também pode aparecer como efeito secundário dos tratamentos oncológicos”, diz.

Na verdade, qualquer exercício é melhor do que nenhum. Ainda assim, a fundadora da AIM Cancer Center aconselha combinar treinos de força entre duas a quatro vezes por semana com outras modalidades. O exercício cardiovascular também tem benefícios e, tal como no treino de força, a sua intensidade e prescrição deve ser ajustada a cada fase dos tratamentos.

Por essa razão, a especialista diz que todos os treinos devem ser feitos com o acompanhamento de um profissional com experiência. Em Portugal existe o Pulsar — Programa de Atividade Física para Doentes Oncológicos, criado pela Câmara Municipal de Braga, para ajudar os doentes oncológicos a combater a “fadiga e a solidão” causadas pela doença (pode conhecer melhor o projeto neste artigo da NiT).

A saúde mental também é um fator essencial para estes doentes. “Devem procurar ajuda o mais cedo possível, idealmente mesmo antes de serem diagnosticados com depressão ou ansiedade. Assim que recebem o diagnóstico de cancro, se tiverem possibilidade, deveriam procurar apoio, seja ele acompanhamento de psicologia ou psicoterapia ou de outras estratégias como meditação, mindfulness ou ioga, o mais cedo possível.” O apoio em grupo também é importante.

A regulação do sono, a exposição às luzes, a boa saúde oral e o microbioma, assim como a vacinação contra vírus, como o HPV, e evitar o tabaco e o álcool, também são elementos que devem ser tidos em conta na prevenção. Após o cancro, “é essencial adotar um estilo de vida saudável desde o primeiro dia após o diagnóstico para preparar o corpo e tolerar os medicamentos”, avisa.

A pensar na saúde dos doentes com cancro, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, entre os dias 10 a 12 de maio, vai decorrer o “primeiro congresso que combina a oncologia e o estilo de vida” que vai reunir profissionais de várias áreas (medicina, enfermagem, fisioterapia, nutrição, exercício, psicologia, farmácia), doentes e cuidadores. Durante os três dias vai haver dezenas de palestras, workshops, aulas de ioga, skincare e maquilhagem para doentes oncológicos. As inscrições podem ser feitas online e têm o custo de 127€ (o preço sobe para 147€ a partir do dia 1 de abril).

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