Saúde

Afinal, porque é que acontecem tantos afogamentos em Portugal?

O País registou um número recorde destes incidentes trágicos em praias e rios. É a segunda causa de morte de miúdos até aos 5 anos.
É a segunda causa de morte de crianças.

Ir à praia e não entrar no mar para dar umas braçadas é impensável para alguns. Normalmente, associamos estas zonas balneares a momentos divertidos, mergulhos nas ondas e muitas gargalhadas. Porém, para muitas famílias, tornaram-se motivo da maior tristeza que alguém pode sentir. Nos primeiros sete meses deste ano morreram 88 pessoas afogadas em praias, barragens, piscinas e poços.

O verão ainda não acabou e este número já fez com que 2022 batesse o recorde dos últimos cinco anos. Segundo a Federação Portuguesa de Nadadores-Salvadores (FEPONS), 35 mortes ocorreram no mar e 31 em rios, havendo ainda oito óbitos em poços, seis em barragens e três em piscinas privadas. No mesmo relatório, a entidade refere que se verificou um aumento de mortes nas idades mais jovens, até aos 24 anos, e que a maioria das vítimas estava a tomar banho (26,5 por cento). No entanto, adianta também que 5,9 por cento encontravam-se a passear junto à água ou a pescar.

A NiT procurou saber juntou da Autoridade Nacional Marítima (ANM) quais as causas destes números dramáticos. Este ano, na jurisdição desta entidade registaram-se, como adiantam: “18 acidentes mortais diretamente relacionados com a prática balnear em praias marítimas, fluviais ou lacustres e noutras zonas marítimas”.  Deste total, pelo menos 10 foram afogamentos. A maior parte ocorreram em praias não vigiadas, sendo essa uma das causas apontadas pela ANM para estes desfechos trágicos.

Quais são as principais causas de afogamento?

Num País com mais de 900 quilómetros de zona costeira continental (uma extensão que quase duplica se contarmos com os arquipélagos da Madeira e dos Açores) ainda existem muitas pessoas que não sabem nadar. Porém, por incrível que pareça, esta não é a principal causa dos afogamentos. Segundo Alexandre Tadeia, responsável da Federação de Nadadores Salvadores, aqui citado pelo “Expresso”, “no mar, as correntes e agueiros são responsáveis por quase 90 por cento das mortes, porque a maioria dos banhistas não sabem o que fazer”. Nas zonas do interior do País, em barragens e rios, que noutros anos registam o maior número de afogamentos, “o maior perigo é o excesso de confiança das pessoas”, refere.

Nas zonas balneares fluviais as pessoas acabam por arriscam muito mais do que no mar, julgando que é mais seguro, quando não é. “Sentem que é mais fácil nadar alguns metros, afastando-se bastante da margem e quando dão conta estão demasiado cansados para regressarem”, explica Alexandre Tadeia em entrevista ao jornal. A isto junta-se ainda uma característica da água dos rios, que é menos densa que a do mar e, por isso, é mais difícil flutuar.

É nas piscinas privadas que acontecem o maior número de afogamentos de crianças. Esta é, aliás, a segunda causa de morte mais comum em miúdos até aos 5 anos. Isto acontece, segundo a Federação de Nadadores Salvadores, porque se aproximam da piscina para brincar e acabam por cair lá dentro. E quando não sabem nadar, nem como rodar sobre eles próprios, acontece “uma morte silenciosa e muito rápida”.

O curso que ajuda a salvar bebés do afogamento

“Basta um segundo para um miúdo cair na água, se afogar ou ficar com lesões permanentes”, começa por explicar Estela Florindo à NiT. Atualmente especialista em técnicas de sobrevivência aquática, em 2008, o filho mais velho não se afogou “por segundos e uma reação rápida”. Tinha quatro anos quando caiu, todo vestido, à piscina dos avós paternos. Apesar de não estar presente, o acontecimento mexeu com ela. Tanto que decidiu procurar soluções e encontrou um vídeo de Infant Swimming Resource (ISR).

Trata-se de “uma técnica que permite aos bebés, a partir dos seis meses, adquirirem habilidades que lhes permitam superar situações de perigo na água, proporcionando-lhes confiança e segurança”, refere Estela Florindo. Não hesitou e voou para Miami (nos EUA) para se formar como instrutora de ISR. Após 10 semanas intensas regressou a Portugal com o diploma e tornou-se a primeira creditada na técnica no País e na Europa.

Quando voltou, a também diretora técnica e comercial de uma empresa de construção de túneis criou um curso baseado nesta técnica de sobrevivência, onde os miúdos não aprendem apenas a nadar. “Diferente de outros programas mais comuns, a ISR, que já existe desde 1966 na Flórida, combina aulas seguras de natação com técnicas de autossalvamento para bebés e miúdos, estimulando-os e contribuindo para o seu desenvolvimento pessoal”, destaca.

A duração do curso que Estela leciona é de aproximadamente 4 a 8 semanas. A instrutora passa cerca de 10 minutos por dia dentro de água com o miúdo, para que possa, ao seu ritmo, desenvolver capacidades para, caso se encontre numa situação de risco em alguma piscina, lago, rio ou mar, consiga virar-se e flutuar.

As vagas para o curso estão sempre praticamente esgotadas, isto, porque como nos explica “existe cada vez mais procura”. Se isto acontece porque os pais não sabem nadar e querem assegurar que os filhos conseguem desenrascar-se dentro de água, ou se porque simplesmente estão cada vez mais alerta para o risco de afogamento, Estela não nos sabe dizer. Mas a verdade é que durante o curso ouve muitos pais surpreendidos a comentarem que os miúdos sabem boiar melhor que eles.

Perguntamos à especialista em ISR qual o maior conselho que podia dar aos pais, além da aprendizagem destas técnicas. A resposta não tardou e foi bem clara: “não utilizem boias e braçadeiras. Quando os miúdos usam estes apoios ficam habituados à posição vertical e se um dia não as tiverem e caírem à piscina, por exemplo, não sabem boiar na horizontal”.

Para minimizar o número de acidentes durante a época balnear a AMN recomenda que se vigiem permanentemente os miúdos; a frequência de praias permanentemente vigiadas; a utilização de calçado adequado nos acessos à praia e na utilização de apoios balneares e a respeitar a sinalização das praias.

A autoridade marítima recomenda ainda que os banhistas se mantenham hidratados e façam refeições ligeiras; evitem as horas de maior exposição solar (entre as 11 e as 17 horas); usem protetor solar e não devem aproximar-se de arribas instáveis. Respeitar as indicações dos nadadores-salvadores, dos agentes da autoridade e dos elementos que reforçam a vigilância nas praias é outro dos conselhos.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT