Saúde

Alinhadores comprados na internet são baratos mas saem caros. “Acreditam em tudo”

Há quem opte pelos preços baixos em vez de serviços de qualidade, uma escolha que pode ter consequências irreversíveis.
É um problema cada vez mais comum.

Um sorriso bonito e com dentes brancos e direitos é o sonho de muitos. Mas até que ponto estão dispostos a ir para o conseguir? Uns optam por rumar à Turquia, em busca de tratamentos a preço de saldo. Outros vasculham até “aos confins da Internet” em busca de aparelhos dentários estilo “faça você mesmo”, sem qualquer supervisão médica. Sim, é uma escolha tão problemática como parece.

“A questão dos alinhadores invisíveis está na ordem do dia. Já não são apenas utilizados por questões de saúde, mas por motivos estéticos. Este tratamento é feito desde 1998, nos Estados Unidos, e em Portugal começou a ser utilizado por volta de 2004. Desde então, já surgiram marcas de diferentes tipos e qualidade”, começa por referir Pedro Ferreira Lopes, médico dentista da Prime Dental Clinic.

Atualmente, estes alinhadores estão a ser utilizados sem qualquer acompanhamento médico, uma vez que existem diversas clínicas e fábricas que os vendem diretamente às pessoas que os vão utilizar.

“A maioria são comprados pela Internet. O fenómeno começou nos Estados Unidos, mas cá também já se verifica — e está a crescer. O que acontece é que as empresas vendem diretamente aos consumidores, e são eles que fazem os moldes com a pasta enviada. Por aqui, vê-se logo que aquilo tem tudo para não correr bem, não é suposto ser assim o processo. Cada vez que eu faço o estudo de um novo paciente existe um diagnóstico, um plano que demora várias horas a ser elaborado, mas que tem em conta todas as suas especificidades.”

Assim que são feitos os moldes, a pessoa devolve a embalagem à empresa, para depois receber os alinhadores finais. Normalmente o processo é sempre feito pelo correio. Os riscos deste tipo de tratamentos são vários, desde ter dores muito fortes, a ter problemas de mastigação, ou até partir, ou perder completamente os dentes, devido à pressão excessiva em determinadas áreas. Outro dos riscos que podem surgir é o aparecimento de cáries ou um agravamento das já existentes, uma vez que depois não existem as regras de higiene e de limpeza necessárias.

“Os alinhadores são considerados dispositivos médicos, como tal, têm que ser prescritos por médicos e com a sua supervisão, pois caso não seja, esta situação é ilegal. Estas situações acontecem porque, como são vendas online, é muito difícil de rastrear a origem destes produtos que, muitas vezes, nem sei se são vendidos por empresas portuguesas ou mesmo europeias e, como tal, e não sendo possível o tal rastreamento, estas empresas mantém-se impunes e assim continuam com o seu negócio.”

O caso mais grave com que o médico se deparou foi o de uma rapariga de 30 anos, em que os dentes perderam completamente o seu suporte ósseo e como tal tinham uma mobilidade severa que levava a que ela nem conseguisse comer. Por isso, os dentes tiveram que ser extraídos e foi efetuada uma reabilitação total com implantes.

Outro dos pacientes que anteriormente acompanhava e que já tinha consultado algumas vezes, esteve mais de um ano sem aparecer no seu consultório. Só quando partiu um dente é que lá voltou, entretanto, já lhe tinham caído outros dois e estava na eminência de perder um terceiro. Quando o médico lhe questionou o porquê, disse que tinha feito um destes tratamentos porque era mais barato, mas sem ter feito qualquer tipo de exame prévio.

Muitas vezes, as consequências do uso destes alinhadores são irreparáveis, mas há muita vergonha em pedir ajuda médica. “As pessoas chegam aqui a chorar, a dizer que desgraçaram a vida. Sentem-se enganadas e, portanto, só o facto de virem já é um grande passo.”

Pedro Ferreira Lopes defende que se trata de um problema de saúde pública que está a crescer a olhos vistos em Portugal — e afeta todas as faixas etárias. “As pessoas acabam por ser aliciadas para estes tratamentos por influenciadores pagos para dizer que aquilo é incrível quando, na verdade, nunca experimentaram.” Os problemas começam quando tentam reverter os efeitos nefastos destes alinhadores: por vezes, ainda há solução, mas muitos já não têm disponibilidade financeira para fazer os tratamentos necessários para corrigir os danos provocados.

“Toda a gente se habituou a comprar tudo pela Internet, mas a saúde, seja ela de que tipo for, mas aqui neste caso a oral, nunca pode ser encomendada e recebida em casa. Uma vez que não existe regulamentação, as pessoas deviam pensar se estes tratamentos de DIY (Do It Yourself) valem mesmo a pena. Tudo na vida tem um custo e, portanto, devemos sempre suspeitar e investigar aquilo que parece demasiado bom para ser verdade”, acrescentou o dentista.

Os valores baixos podem ser atrativos, uma vez que a diferença é muito significativa. O preço de um tratamento com alinhadores invisíveis num consultório pode custar entre 4000€ a 6000€, enquanto a versão comprada na Internet ronda os 1000€.

“No fundo, quem sofre depois são os próprios e, em última instância, os culpados são eles. Quanto se trata de uma questão de bem-estar, tem de existir uma maior preocupação. A maior parte acredita em tudo e, por uma brincadeira estética, — pela qual não quer pagar o custo justo para o fazer corretamente — acaba por estragar a boca toda. Estes alinhadores estão a destruir a saúde das pessoas” concluiu.

A Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) tem recebido várias queixas relativas a este problema, embora não as quantifique, e diz que é necessária uma maior regulamentação do procedimento e uma maior literacia por parte dos clientes.

“Todo e qualquer tratamento ortodôntico exige um diagnóstico e acompanhamento rigorosos por parte de um médico dentista qualificado. Todas as etapas devem ser presenciais, para uma avaliação permanente da evolução do tratamento, mitigando efeitos colaterais indesejáveis”, refere no seu comunicado, divulgado a 7 de fevereiro.

 

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