Saúde

Aos 4 anos, Diogo poderia “nunca aprender a ler”. Agora, vai estudar Direito

Sofre de paralisia cerebral e os médicos temeram o pior. Os pais estão “orgulhosos”, mas “preocupados” com a nova fase.
Diogo tem 21 anos.

“Quando o meu filho nasceu, diziam-me que tinha de viver um dia de cada vez. Não me atrevia a sonhar assim”, começa por sublinhar Susana Marques à NiT. Diogo nasceu prematuro e ficou com uma paralisia cerebral. Os médicos disseram-lhe que o filho nunca iria conseguir ler ou escrever e tentaram até passar-lhe um atestado que o impossibilitaria de continuar a estudar. Porém, Diogo, agora com 21 anos, provou que “não há limites” — é um dos caloiros do curso de Direito da Universidade de Coimbra.

Susana Marques estava apenas com 29 semanas de gestação, quando entrou em trabalho de parto. “Tive um descolamento da placenta e o Diogo nasceu prematuro, com apenas 1,260 quilos”, explica à NiT.

Como o parto aconteceu numa fase precoce da gravidez, os pulmões ainda não estavam bem desenvolvidos, o que “teve impacto na oxigenação do cérebro”. “Os poucos minutos que demoraram a entubá-lo foram suficientes para o meu filho ficar com uma lesão, que lhe causou uma paralisia cerebral”, recorda a mãe.

Diogo foi diagnosticado, segundo Susana Marques, com uma leucomalacia, um tipo lesão cerebral caracterizada pela necrose das células. Geralmente, as pessoas afetadas com esta condição apresentam problemas no sistema motor ou outros atrasos de desenvolvimento, como foi o caso do jovem natural de Coimbra. Mas não implica, necessariamente, um atraso cognitivo.

A doença afetou os primeiros anos de vida de Diogo. “Começou a andar e a falar mais tarde do que os outros meninos da mesma idade”, lembra. No entanto, foi aos quatro, quando entrou para o jardim de infância, que os médicos alertaram os pais que o filho poderia nunca conseguir “ler e escrever”.

O percurso escolar

“Só queríamos que fosse feliz, mas tentámos ajudá-lo sempre a passar os obstáculos e Diogo mostrou que seria possível”, conta a mãe. Aos seis anos entrou para a escola primária, ainda em Coimbra, e fez o percurso normal dos outros miúdos. Mas até ao terceiro ano escolar não mostrou qualquer evolução na leitura ou escrita.

“Na atura pedimos à professora que não o passasse de ano, porque ele não tinha conhecimento para tal. O pedido foi acedido, mas acabaram também por colocá-lo com um estatuto especial, o Curriculo Específico Individual (CEI), uma medida educativa que prevê alterações significativas no currículo comum. Isto indicava que o meu filho não teria faculdades para continuar o ciclo de estudos.”

Susana pediu para reverter a situação e conseguiu. Na altura mudaram-se para a zona de Condeixa-a-Nova e Diogo passou a estudar na Escola Básica N.°1 de Condeixa-a-Nova, conhecida na região como “escola azul”. “Entrou novamente para o ensino regular e acabou por começar a aprender a ler. Em casa, sempre o tentámos ajudar e estimular porque ele sempre manifestou essa vontade”, explica.

Do quinto ao nono ano de escolaridade, Diogo continuou o percurso escolar regular, e acabou por integrar quadro de mérito no sexto e sétimo ano. “A única diferença relativamente aos colegas, era o facto de ditar as respostas testes em vez de as escrever e tinha um tempo extra de 30 minutos. A matéria e as avaliações eram iguais”, refere Susana Marques.

A adaptação de Diogo só foi possível porque tem vários atestados médicos que confirmam a sua condição e necessidades especiais. “O meu filho tem um atestado multiusos que indica que tinha 75,4 por cento de incapacidade, tem outro documento que comprova que de olho só conseguia, com correção, ver apenas 10 por cento.”

Esforço e dedicação

Durante os anos seguintes o miúdo continuou a mostrar diariamente que “não havia limites” e que o cenário que lhe haviam desenhado na infância, tinha ficado no passado. “No secundário, Diogo escolheu a área de Humanidades, porque se sentia mais à vontade com disciplinas ligadas às letras. Tinha de ser algo que o motivasse e não o frustrasse, como acontecia com os números.

Os pais continuaram a ajudá-lo diariamente com os trabalhos de casa, mas foi a vontade de Diogo Peixeiro que fez a diferença- “Ele estuda três ou quatro vezes mais que os colegas, porque tem de decorar e conseguir explicar por palavras dele. Mas isso nunca o revoltou. Ele tinha as terapias e depois chegava a casa e estudava. ”, diz a mãe.

Cumpriu o percurso normal, sem nunca reprovar, e fez os exames nacionais, como qualquer outro aluno da escola. “No final do 12.º ano [numa escala de 0 a 20] conseguiu tirar 11 a Português e 11 a Filosofia nos exames nacionais. Nesta última disciplina acabou por ter a terceira melhor nota da escola”.

E no final do ano, chegou a recompensa e o cumprir de um sonho que ninguém se atreveria a sonhar. “No domingo, 27 de agosto, recebemos um e-mail com a notícia mais maravilhosa que algumas tivemos. O Diogo tinha entrado no curso de Direito, da Faculdade de Coimbra. Ficou muito entusiasmado e nós orgulhosos”, descreve a mãe.

Depois da felicidade veio a preocupação. O lado direito do jovem de Coimbra está paralisado, por isso, precisa do acompanhamento de um assistente, para ajudá-lo com as idas à casa de banho e com as refeições. “Ele consegue comer tudo coma mãe esquerda, mas precisa de ajuda para cortar os alimentos”, explica Susana Marques. Por isso já fez um pedido ao projeto de MAVI, criado em 2021, para ajudar pessoas com deficiência nas tarefas que não conseguem.

“Neste momento ainda não sei como será esta etapa. Já pedi uma reunião e enviei todos os relatórios, para perceber como se processarão todas as avaliações. Mas o Diogo está muito tranquilo e confiante. Diz que vai estudar para ser um ótimo advogado”, sublinha.

Carregue na galeria para ficar a conhecer melhor Diogo, o jovem com paralisia cerebral que provou “que não há limites”.

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