Saúde

Apanhou Covid há mais de 2 anos. Continua a ter dificuldade em comer, falar e andar

Natacha Gray tinha uma vida ativa, mas a doença tirou-lhe a capacidade de fazer várias coisas. Atualmente trabalha em casa.
Fotografia: Christopher Thomond/The Guardian

Subitamente, Natacha Gray deixou de conseguir falar, rir, dormir, comer, tocar instrumentos e andar. Tudo isto devido à Covid prolongada, uma condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde que afeta pessoas que sofrem de sintomas persistentes por pelo menos dois meses após a infeção.

A questão é que já passaram quase três anos desde que a britânica contraiu Covid-19, aos 27 anos, durante o Natal de 2021. Apesar de ter passado por um período difícil, sentiu uma melhoria significativa após ultrapassar a fase mais complicada.

Ao regressar ao emprego na área do atendimento ao cliente, começou a desenvolver sintomas preocupantes, como dificuldades respiratórias ou cansaço extremo, apesar de dormir bem. Após um episódio de desorientação no trabalho, decidiu procurar ajuda médica.

“Uma manhã, sentei-me na minha cadeira e fiquei a olhar para um ecrã preto cerca meia hora, sem pensar em nada. Depois, houve alguém que veio ter comigo e me perguntou se estava bem ou precisava ir para casa. Disse que sim, e essa foi a última vez que estive naquele escritório”, conta ao “The Guardian”.

O médico de família diagnosticou-a com Covid longa e recomendou-lhe alguns vídeos sobre gestão da fadiga, bem como sessões de fisioterapia. O objetivo era ajudá-la a lidar melhor com a doença e a recuperar a sua qualidade de vida.

“Começámos por fazer caminhadas de 30 segundos, mas eu ficava esgotada. É difícil descrever de forma simples o que se sente, mas é de partir o coração. Não conseguia trabalhar, pensar, nem sequer mexer. O meu único exercício que fazia era deslocar-me até ao sofá de manhã, ir à casa de banho durante o dia e voltar para a cama à noite. No meio de tudo isto, por estranho que pareça, desmaiava muitas vezes e alguém tinha que me levantar do chão. Também não chorei durante meses, porque chorar deixava-me exausta. Imaginem o que é estar chateada com alguma coisa, começar a soluçar e acabar por cair.

Nessa altura, mudou-se de Bolton, a sua cidade natal, com o noivo Tom, para casa do pai e da madrasta. Tinham a intenção de lá ficar apenas algumas semanas, enquanto procuravam um espaço para viver, mas continuam por lá.

Tom trabalha no andar de cima e, sempre que pode, desce para verificar se Natacha está bem. Nas paredes de todas as salas existem fotografias de uma jovem aventureira, que gostava de todo o tipo de desportos, da escalada ao mergulho — e que já não existe.

Atualmente passa o dia sentada no sofá a contemplar o piano que já não consegue tocar, algo de que gostava imenso. “Perdi a capacidade de andar, de sair para me encontrar com amigos e de ir trabalhar. Mas deixar de ser capaz de tocar foi drástico. Compunha muitas canções e agora não consigo, porque o meu cérebro não funciona como antes. Na realidade, agora escrevo versos porque são breves e consigo fazê-los durante pequenos momentos de energia.”

Atualmente passa o dia sentada no sofá a olhar para o piano que já não consegue tocar, coisa que adorava fazer. “Perdi a capacidade de andar, de ver os amigos e de ir trabalhar. Mas deixar de ser capaz de fazer isto foi drástico. Compunha muitas canções e agora não consigo porque o meu cérebro não funciona normalmente. Na verdade, agora escrevo poemas porque são curtos e consigo fazê-lo durante pequenos surtos de energia.” Ainda assim, afirma que esses momentos são raros, embora estejam a aumentar.

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Natacha Gray (@poetrywheels)

No início da doença, lembra-se de uma situação em que teve que ser levada para o hospital porque estava com dificuldade em falar e virar a cabeça. “Recordo-me de estar na sala de espera, a ver pessoas a entrar e sair. Apesar de estarem mal, pensava que todos estavam melhores que eu, capazes de fazer coisas que para mim eram impossíveis. Lembro-me de ver uma senhora idosa a assoar o nariz e parecia estar cheia de energia.”

Por sua vez, o namorado, Tom, recorda que Natacha costumava ficar com sede durante uma hora sem conseguir pedir ajuda. Acabou por se tornar seu cuidador, aprendendo a interpretar os sinais e entender as necessidades da sua companheira.

“No outro dia, estávamos na rua e senti frio, mas não disse nada. Ele simplesmente tirou um cachecol, luvas e chapéu para me dar, como se não fosse nada. Comecei a chorar porque ele demonstra preocupação de tantas maneiras que me emociono. Além disso, tive de aceitar que é frustrante e cansativo para ele. Antes era uma mulher independente, agora sou como uma miúda.”

Natacha enfrenta desafios diários devido aos seus problemas de mobilidade, no entanto, tem conseguido realizar algumas atividades fora de casa. Uma das primeiras coisas que fez foi uma visita Chester Zoo. Sabia sabiam que disponibilizavam cadeiras de rodas gratuitas e a experiência foi tão boa que acabaram por comprar uma para que pudesse utilizar no dia a dia.

Inicialmente só circulava pelo jardim, mas recentemente já conseguiu percorrer um quilómetro de uma assentada. “Foi o mais lento que alguém já andou, mas consegui. Utilizei a cadeira de rodas como andarilho e dizia ao Tom que era mais alta que toda a gente. Estar tanto tempo de pé foi estranho, porque nos últimos dois anos sempre estive mais baixa, por estar sentada.”

Sempre que sai de casa tem de levar a cadeira de rodas, porque a qualquer momento pode não ser capaz de aguentar mais o esforço. Além disso, nunca mais voltou ao antigo emprego — agora trabalha a partir do seu sofá.

Apesar das dificuldades, Natacha manteve-se otimista e até se casou com o namorado. A cerimónia foi simples, apenas com quatro amigos como testemunhas, num hotel no Lake District. Levantava-se para tirar algumas fotos, depois sentava-me na cadeira de rodas novamente. Ainda assim, foi o máximo que fiquei em pé durante dois anos. A felicidade que sentia deu-me energia para conseguir, foi maravilhoso.”

Atualmente, o casal está a planear ter uma casa própria. “Não consigo imaginar como as pessoas conseguem sobreviver quando estão sozinhas ou têm filhos pequenos”, questiona. Natacha reconhece a importância do apoio e da segurança que teve ao seu redor durante este período difícil. Mesmo nos momentos mais sombrios, agora consegue vislumbrar um futuro mais promissor e menos marcado pela depressão.

“Sentia-me como se estivesse a arruinar a vida de Tom. Havia muita culpa, mas tudo mudou”, sublinha.

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Natacha Gray (@poetrywheels)

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT