Saúde

A aplicação que me ensinou a meditar — e a dar cabo da ansiedade

Pode um pragmático deixar-se cair na cantiga do mindfulness? Perguntem à app do momento, a Headspace.
Não custa experimentar

A primeira vez pode ser assustadora. A náusea, os sonos curtos e atribulados, a vontade de querer fazer tudo e, ao mesmo tempo, não querer fazer nada. Ao fim de algum tempo, os sinais tornam-se familiares e conseguimos perceber quando é que a ansiedade e o stress começam a tomar conta de grande parte da nossa vida.

“Relativiza”, “relaxa”, “tira um tempo para ti”. Os conselhos são fáceis de dar, mas são mais difíceis de seguir. Nem sempre é possível fazer uma pausa no meio de uma semana de trabalho, pegar no carro e conduzir uma hora para nos refugiarmos na natureza — ou em qualquer outro sítio que ajude a contrariar os sintomas. Facto: levamos os problemas na nossa mente e, assim, não há recanto que nos salve.

Foi no meio de um desses turbilhões nervosos que dei por mim à procura de ajuda nas Páginas Amarelas modernas: a loja de aplicações do smartphone. A Headspace prometia ajudar quem quisesse ser ajudado, a ensinar-nos as ferramentas para conseguirmos domar o inconsciente.

Isto é tudo muito bonito, mas o inconsciente também dizia que dificilmente haveria app capaz de convencer este pragmático que tudo se poderia resolver com um par de vídeos, musiquinhas zen e um argumento vomitado com voz de ursinho fofinho por um life coach.

Eis que Andy Puddicombe entra na minha vida, o britânico de falinhas mansas que criou a aplicação de meditação — ele próprio um monge budista. A história do homem que dá voz a todas as lições e cuja identidade se confunde com a empresa é, também ela, inspiradora.

Tinha 22 anos quando estava com um grupo de amigos à entrada de um pub londrino. Um carro desgovernado, conduzido por um condutor embriagado, varreu o passeio e matou duas pessoas.

Nos meses que se seguiram, Puddicombe viu morrer a meia-irmã num acidente de bicicleta e a ex-namorada durante uma cirurgia. O luto e a tristeza levaram-no a questionar toda a sua vida. Deixou o curso, pegou na mochila e foi para os Himalaias, onde viveu durante
10 anos como um monge budista.

Puddicombe é um monge empreendedor

Regressou para tentar explicar-nos os benefícios da meditação. Uma tarefa dura. O que é que nos vem à cabeça quando pensamos em meditação? Ficar horas de pernas cruzadas e olhos fechados a murmurar e a pensar no vazio? Quem é que tem tempo ou paciência para isso?

A verdade é que a abordagem de Puddicombe mudou toda a forma como percebemos a meditação. Desde logo, não somos obrigados a ir para lado nenhum — muito menos para um templo budista no meio do nada —, podemos fazer tudo no meio da sala. No carro. No metro.

O melhor é antecipar desde já a conclusão do texto: a app funciona. Funciona mesmo. E é tudo tão simples como um pequeno jogo. A primeira vez que experimentei a Headspace, Puddicombe conduzia-nos através de pequenas lições introdutórias.

Primeiro, aprendíamos a controlar a respiração. Respirar sabemos todos, certo? Bem, talvez não desta maneira. Ao prendermos a atenção na inspiração e expiração, estamos a desviar a mente de todos os problemas que nos incomodam naquele preciso momento.

Depois, Puddicombe, no seu tom monocórdico e vagaroso cheio de intencionalidade, ensina-nos a fechar os olhos, a sentir o corpo de uma ponta à outra, a ouvir os pequenos sons que nos rodeiam. A primeira lição é sempre estranha: sentimo-nos autómatos a seguir ordens de uma voz num telemóvel.

Meditar não exige que estejamos com a mente num vazio — quem o tentou, já sabe que essa é uma tarefa quase impossível. Daí que as lições incidam precisamente numa meditação guiada, que nos vai ensinando como relaxar, como anestesiar a mente.

A Headspace agarra-nos de forma inteligente. Dá-nos pequenas lições que podemos adaptar ao dia: umas duram três minutos, outras cinco, outras 20. Precisamos de um tempo para nós antes de sair de casa para ir trabalhar? Cinco minutos, um sofá e uns fones são suficientes. Dá para fazer no trabalho, no carro, no metro.

Não é por acaso que a app tem, hoje, mais de 60 milhões de utilizadores — e nem sequer é a aplicação de meditação mais popular. Um género que viu disparar a popularidade no último ano de pandemia.

Desde que a experimentei pela primeira vez, a aplicação agigantou-se — e, infelizmente, adotou um modelo de subscrição, quando antes fornecia gratuitamente muitos dos seus conteúdos. Hoje não nos ensina apenas a meditar. Criou uma secção onde oferece guias para acalmar a mente quando as preocupações do dia (e dos próximos dias) não nos deixam adormecer. Nasceu uma categoria de conteúdos para ajudar a manter o foco e até uma área mais virada para o exercício.

A aplicação tornou-se num sucesso mundial. Hoje, a voz de Puddicombe está em todo o lado, dos guias de corrida da Nike à Netflix, na qual a Headspace se prepara para lançar a sua segunda série, desta vez focada na indução do sono: “Guia Headspace para a Indução ao Sono”, que se segue ao “Guia Headspace para a Meditação”. Um aviso: só a versão inglesa conta, claro, com a voz do monge. 

Não é um método para todos. É, claro, como em tudo na vida, preciso estar predisposto a experimentar uma coisa nova. Mas nada será mais fácil do que aprender a meditar com Puddicombe — cuja app foi descrita como “ter um monge no bolso das calças”.

Todas as técnicas são ensinadas de forma faseada — como respirar, como bloquear as distrações — até mergulharmos em pleno no conceito do mindfulness. Há guias criados para quando estamos nervosos, assustados, irritados, cansados. É um SOS para qualquer hora e local do dia.

Não sabia nada disto quando, naquele primeiro dia, decidi experimentar um dos pequenos guias introdutórios. A verdade é que ao fim de 10 minutos, os problemas não desapareceram. Ainda tinha um dia de trabalho horrível pela frente, com tarefas para resolver que eram a última coisa que queria enfrentar.

O que tinha mudado era a forma como eu tinha preparado o dia. Durante aqueles dez minutos, o corpo relaxou. A cabeça também. E ao longo das lições, o que era estranho passou a tornar-se mais fácil.

A Headspace não é um comprimido mágico que resolve todos os problemas. Pode, no entanto, ser um dos caminhos que nos ajuda a finalmente ouvir e a conseguir aplicar todos aqueles conselhos que nos dão, mas que ninguém nos ensina como aplicar. E convenhamos, ouvir um “relaxa” e um “relativiza” da voz de Puddicombe é muito, muito melhor.

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