Saúde

Mortes não Covid: “As pessoas subestimaram os sintomas, não quiseram expor-se ao contágio”

Especialista alerta à NiT que é preciso manter a atenção a sintomas de doenças cardíacas para prevenir a mortalidade a longo prazo.
Muita atenção.

Desde março de 2020 que a nossa vida mudou. A máscara tornou-se indispensável no dia a dia e o álcool em gel faz parte da lista de coisas que levamos connosco sempre que precisamos de sair de casa. Passámos a estar atentos a sinais como febres, dores de garganta, tosse, perda de olfato e paladar ou dificuldades respiratórias. Ainda assim, parece que deixámos de prestar tanta atenção a outros detalhes da nossa saúde.

Com exceção dos casos de Covid-19, as urgências passaram a atender muito menos doentes com outros tipos de queixas e os médicos de outras especialidades são muito menos procurados. Em parte, isto acontece pelo medo de contrair o vírus, pelo facto de as pessoas tentarem resguardar-se mais e por desvalorizarem um pouco alguns sinais de alerta para outras doenças.

Quando olhamos para os dados ligados às doenças cardíacas, por exemplo, o número de enfartes do miocárdio diminuiu bastante. Isto não quer dizer que tenham sido menos recorrentes.

“As pessoas subestimaram os sintomas, não quiseram expor-se ao contágio ou pensaram que a situação se poderia resolver de forma natural. O resultado foi que os doentes não tiveram acesso aos cuidados médicos adequados, no tempo certo. O impacto está ainda por contabilizar. Mas significou seguramente um acréscimo de mortalidade e, a médio-longo prazo, um agravamento do prognóstico futuro”, explica à NiT Pedro Matos, cardiologista do Hospital CUF Tejo.

Isto leva a uma necessidade de conciliar os cuidados com a pandemia aos cuidados que devemos ter também com as doenças ligadas ao coração. Se no caso da Covid-19 os idosos são uma faixa da população com risco mais elevado, o mesmo acontece para as doenças cardiovasculares, que muitas vezes nem têm sintomas.

“Mais importante que isso, alguns desses sintomas, como o cansaço e a dispneia (falta de ar), podem ser idênticos e devidos à infeção pelo vírus. Recorrer ao seu médico assistente ajudará a clarificar a situação, com possível recurso aos exames complementares de diagnóstico mais apropriados”.

A indicação, em caso de pertencer a um grupo de risco ou de ter notado recentemente algumas queixas, é mesmo para consultar o seu médico. Ele saberá avaliar da melhor forma o caso para perceber que exames devem ser feitos e que possibilidades há de que seja uma doença cardiovascular.

“Os dados mostram que o número de enfartes do miocárdio diminuiu bastante. Isto não quer dizer que tenham sido menos recorrentes”

Além da idade e do sexo — pessoas mais velhas ou idosas e sobretudo homens —, há outros fatores de risco para a doença cardíaca oculta, como “diabetes, doença renal crónica, doença polivascular” ou outros. Por isso é tão importante fazer essa investigação caso a caso.

Apesar da necessidade de recolhimento nesta altura de pandemia — e de confinamento —, há cuidados que devemos manter, a bem da nossa saúde geral e cardíaca em especial. Não deve descurar a alimentação saudável, o controlo do peso, a prática regular de exercício nem a medição frequente da tensão arterial.

“Para todos em geral, e em especial para os que têm fatores de risco cardiovascular ou já têm doença cardíaca diagnosticada, é essencial manter o estilo de vida mais adequado, dentro das limitações necessárias. Os cuidados a ter para evitar a infecção por Covid-19 (distanciamento, proteção individual, recolhimento) não são incompatíveis com a manutenção da prevenção cardiovascular”, lembra o médico.

Tem sido comum nos últimos meses os doentes ficarem em dúvida sobre se os sintomas que apresentam são de origem cardíaca ou se estarão infetados com Covid-19. A questão torna-se ainda mais pertinente nos casos em que há um histórico de problemas cardíacos.

“De uma forma simplista, se já tiver tido um enfarte do miocárdio ou um acidente vascular cerebral, se tiver feito uma intervenção coronária ou sido operado com um bypass, deve estar atento a queixas como dor torácica ou dispneia ou se achar que existe um agravamento do cansaço ou dos sintomas descritos. Também o aparecimento de arritmias pode ser um indicador de que se justifica consultar o seu médico.”

Caso não tenha tido uma doença cardíaca anteriormente, os sintomas a procurar devem ser realmente agudos, como “dor retrosternal forte e persistente, perda de consciência inexplicada, dispneia súbita e prolongada”. Se isso acontecer, então sim deve procurar ir a uma urgência para perceber o que se passa.

Por outro lado, caso os sintomas de que se queixe sejam febre, tosse seca, diarreias ou perda de olfato, “então a probabilidade de serem devidas a patologia cardíaca é menor” e por isso deve recorrer à linha SNS24.

As pessoas mais velhas, mais vulneráveis e com histórico de doenças cardíacas devem então proteger-se e não se expor a riscos de contágio por Covid-19. Ainda assim, não devem esquecer os cuidados necessários à sua condição cardiológica. Devem continuar a fazer o acompanhamento médico necessário — seja ele presencial ou por telefone — para assim identificar a tempo possíveis complicações ou despistar preocupações que surjam.

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