Saúde

Bárbara Branco: “Faço terapia desde 2021. Estava com muitos complexos com o corpo”

A NiT falou com a atriz sobre a sua relação com a saúde mental. Procurou ajuda quando precisar tomar uma decisão importante.
A atriz tem 24 anos.

Aos 24 anos, Bárbara Branco é uma das caras mais conhecidas dos portugueses. Apesar de ser bastante jovem, a atriz acumula projetos com grande destaque nacional e conta com um currículo impressionante.

Tem também dado a cara por algumas causas e, esta terça-feira, 28 de maio, vai ser uma das oradoras convidadas da segunda edição do BUONDI Surf é Terapia. O evento acontece no Bar Irmão, na Praia do Castelo – Costa da Caparica, tem início pelas 17 horas e a entrada é gratuita. O foco será a saúde mental e a NiT falou com a atriz sobre o tema.

Quando é que começou este seu interesse sobre a saúde mental?
A verdade é que tem sido uma constante na minha vida. Desde 2021 que faço terapia, tenho consultas semanais. A partir daí comecei a dar uma maior importância ao meu bem-estar físico e mental. Ambos são muito importantes e precisam de ser bem cuidados, não podemos descurar nenhum dos dois.

Nessa altura, houve um motivo específico que a levou a pedir ajuda?
No meu trabalho há muita pressão relativamente ao aspeto físico e à maneira como nos apresentamos. Nesse ano [em 2021] tive de tomar uma decisão muito importante: se aceitava ou não o papel n’“O Crime do Padre Amaro”. Estava com muitos complexos com o meu corpo, sentia que tinha de ser mais magra e isso fez-me hesitar. Aí percebi que aquilo era uma red flag gigante: arriscava perder uma oportunidade importante por um motivo que não devia ser uma preocupação para uma miúda de 21 anos. Outro dos motivos tem a ver com a própria natureza da profissão: ser atriz faz com que tenha de sentir várias emoções diferentes em espaços de tempo muito curtos, o que não é nada fácil. Acaba por se ficar assoberbado e, portanto, decidi começar a fazer terapia para tentar ganhar algumas ferramentas que me permitissem lidar melhor com estes fatores que estão constantemente presentes na minha vida e carreira.

Antes disso, já tinha tido algum tipo de contacto com um profissional de saúde mental?
Já tinha, a minha mãe é terapeuta. Sempre estive muito rodeada por este tipo de pessoas e recursos. A primeira vez que me lembro de ir ao psicólogo tinha cerca de 9 anos. Os meus pais sempre tiveram muita abertura e perceberam que eu não estava muito bem, tiveram essa capacidade de reconhecimento.

Quando refere que não estava bem, o que levou uma miúda de nove anos a ser acompanhada?
A minha família é muito numerosa, com muita gente, e tinha muitos ciúmes dos meus irmãos. Sou a mais velha, fui a primeira a nascer e depois comecei a ter este tipo de sentimentos. Lembro-me também que tinha muita dificuldade em distinguir o que era o mundo dos mais novos e o dos adultos, achava que podia pertencer ao dos mais velhos. Então explicaram-me que existiam diferenças e de que grupo é que eu fazia parte.

E como tem corrido o processo? Já lida melhor com as adversidades?
É exatamente isso, um processo, diria que até um caminho. Não estou 100 por cento resolvida, mas estou muito melhor. A terapia fez-me muito bem. Fez-me perceber certas coisas e ajudou-me a definir o meu caminho com mais certezas, porque tinha sempre muitas dúvidas a pairar na minha cabeça. Claro que ter amigos e familiares com quem podemos desabafar é importante, mas sentia que isso era insuficiente. A realidade é que por melhor que seja a intenção, há certas coisas que ninguém nos consegue nem sabe dizer, respostas que nós precisávamos de ouvir. Sempre que possível aconselho a ajuda de profissionais. Infelizmente, é um luxo que não é acessível a toda a gente, mas caso tenham essa possibilidade é mesmo benéfico para a nossa saúde. Há dias em que estou a caminho das consultas e ainda nem sei sobre o que quero falar, mas arranjo sempre assunto. Há tanta coisa que temos mal resolvida e nem sabemos.

Tem outros hábitos no dia a dia que a ajudam a cuidar da sua saúde mental?
Vou ter que dar de resposta-cliché; comer bem e praticar desporto é muito importante. O que tem tornado as coisas mais fáceis é ter aprendido a ouvir o meu corpo e a dar-lhe o que ele precisa. Sou muito perfecionista, nunca me permiti grandes erros nem desculpas, mas agora tem sido muito saudável aceitar os momentos de procrastinação e de preguiça que tenho sentido. Por vezes, fazem falta e nem sempre me permitia tê-los.

Entre a correria do dia a dia, é possível arranjarmos tempo para cuidarmos de nós próprios?
No meu caso, passou a ser possível porque se tornou uma prioridade para mim. A partir do momento em que se ganha a consciência de que é tão importante cuidarmos de nós como fazer outra coisa qualquer, o tempo aparece. A gestão começa a ser feita de forma diferente. No fundo, até é a própria profissão que me obriga a ter mais contacto comigo própria. Obriga-me a colocar-me mais em causa e a saber mais sobre mim. Por exemplo, nas aulas de teatro faço sempre um aquecimento em que penso: “Como me sinto hoje de zero a cinco”? Depois, consoante isso, penso em como aplicar esse estado à minha personagem e ao espetáculo que estou a fazer.

A profissão de atriz é mais propícia a ter dificuldade em lidar com os problemas psicológicos do que outra qualquer?
No meu caso eu diria que é um misto. São as coisas normais da minha vida pessoal e os acontecimentos da profissão. Temos muitas sensações que temos de acionar em algumas personagens ou peças que podem ser mais pesadas. Por exemplo, um trabalho que fiz no ano passado, sobre migrações e crises de refugiados, claro que influencia a minha forma de estar na vida e vice-versa, a minha maneira de ser também acaba por estar nos personagens de certa forma.

De que forma é que esta edição do BUONDI Surf é Terapia pode ajudar quem precisa de cuidar da saúde mental?
A verdade é que eu não pratico surf, mas há uma coisa em que acredito muito: fazer as coisas que nos fazem bem é meio caminho andado para estarmos saudáveis e para muitas pessoas a atividade física acaba por ser um refúgio. Há libertação de endorfinas e de muitas hormonas que nos fazem sentir melhor. Além disso, ir à praia é fascinante para mim. Sentar-me a ver o mar ajuda-me muito a abstrair-me das questões do dia a dia, portanto, participar neste evento fazia todo o sentido para mim.

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