Saúde

Cancro da mama: “Aconteceu-me e agora não adianta de nada chorar”

Esta terça-feira, celebrou-se a Luta Contra o Cancro da Mama. A NiT conta-lhe a história de três mulheres que passaram por essa experiência mais do que uma vez.
Uma doença demasiado comum.

O cancro da mama é o mais frequente entre as mulheres e uma das principais causas de morte por cancro no sexo feminino. No caso português, de acordo com dados do Serviço Nacional de Saúde, são detetados seis mil novos casos de cancro da mama todos os anos. Ao mesmo tempo, 1500 mulheres morrem anualmente vítimas da doença.

Outubro marca o mês de prevenção do cancro da mama e esta terça-feira, 19 de outubro, assinalou-se em particular o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro da Mama. Poucos dias antes, a 13 de outubro, fora o Dia Mundial do Cancro da Mama Metastático. Falar de cancro da mama, na sua generalidade, já não é algo novo. O assunto é frequente. No entanto, o cancro metastático — quando vão aparecendo novos focos noutras partes do corpo tão variadas como os ossos, o fígado ou até o cérebro — nem sempre tem a atenção devida.

Neste mês de outubro, mais do que lembrar todos os sinais a que as mulheres — e os homens — devem estar atentas, importa conhecer as histórias de quem diariamente luta contra esta doença. Por isso mesmo, a NiT falou com três mulheres de diferentes gerações e com distintos contextos de vida.

O drama inesperado de Liliana

Liliana Azevedo vive em Vila Nova de Gaia, é técnica de compras e logística nas Águas do Douro e Paiva. Tem agora 40 anos mas foi em 2017 que a sua história oncológica começou. Tinha um filho com seis anos e outro com seis meses, quando começou a sentir um pequeno papo na mama enquanto amamentava o bebé.

Pensou que aquilo poderia ser uma mastite ou algo normal relacionado com toda a questão da amamentação, por isso esperou pela consulta do bebé para abordar o tema com a médica de família.

“Ela estava muito sensibilizada para a questão de haver cada vez mais casos em mulheres novas de cancro da mama e optou logo aí por mandar-me fazer uma ecografia mamária”, conta Liliana.

A ecografia deixava algumas dúvidas, especialmente tendo em conta que tinha sido mãe há pouco tempo. Por isso, seguiu para uma mamografia, cujo resultado recomendava uma biópsia. Marcou-a de imediato e o resultado foi o temido: “Na semana do Natal recebi o relatório a dizer que era um carcinoma maligno invasor”.

A forma que arranjou para lidar com tudo isto foi tentar não sofrer por antecipação. Assim, deixou de lado a opção de ser seguida no IPO e optou por um hospital mais geral. Ao mesmo tempo, tentou manter a calma e não fazer demasiadas pesquisas na Internet nem passar preocupação para a família.

“Pensei que se fosse para o IPO estava a assumir que tinha um cancro, se fosse para o Hospital de Gaia podia ter ou não.”

A recomendação de tratamento foi quimioterapia para tentar controlar a doença, seguida de mastectomia. Em todo o processo tentou manter-se o mais forte e positiva possível, embora admita ter sido complicado dar a notícia ao pai e ao irmão, sobretudo porque pouco tempo antes tinham perdido a mãe, vítima de um tumor na cabeça. Gerir a preocupação de deixar o marido com dois filhos pequenos que necessitavam de cuidados numa altura em que ela própria iria precisar de ajuda com os tratamentos e operação, também não foi fácil.

“A minha forma de lidar com isto é saber o que é que eu tenho. Sabendo o que tenho já não me surpreendo com certas coisas que possam aparecer.”

O outro lado da história, segundo Maria

A ideia parece fazer algum sentido, mas não para todos. A opinião de Maria Fernanda Leitão, de 75 anos, é um pouco diferente. É casada, tem três filhas e todos os dias ajudava o marido no café que têm, na Maia. Há vários anos, tantos que não sabe bem precisar, começou a ter comichão na zona do peito, onde depois lhe apareceu um pequeno caroço. Sem dar grande importância ao assunto, foi aplicando apenas o famoso creme da lata azul e parecia que o bulto estava a diminuir lentamente.

“Eu tinha uma vaga ideia do que me estava a acontecer, só que só a palavra em si horroriza-me, então dizer que tinha era muito pior. Calei-me e nunca disse nada a ninguém”.

O medo vem, em parte, pelo historial da família. Entre os oito irmãos da mãe, quase todos tiveram problemas do género, de uma ou de outra forma.

Todo o caso veio à tona por causa dos seus joelhos. Há algum tempo que se queixava de dores, fez exames e o médico aconselhou a operação porque estava quase sem cartilagem nos joelhos. Recusou. Preferiu fazer apenas medicação e alguma fisioterapia.

“Até que um dia, faz três anos em dezembro, senti-me muito mal — e entretanto o carocinho tinha aberto um bocadinho parecia uma ferida, tudo pequenino — e deu-me a sensação de que fiquei com a perna suspensa, nem sei como explicar. Para baixo do joelho sentia a perna a balançar, fui de ambulância para o hospital.”

Os médicos fizeram vários exames e não conseguiam perceber como a situação tinha chegado àquele ponto. Foi só quando realizaram um eletrocardiograma que estranharam a lesão do peito. Aí, já a situação óssea tinha evoluído até partir o fémur. Foi operada e precisou de um encavilhamento desde a anca até ao joelho.

“O que me foi dito por alto — porque nunca ninguém falou comigo abertamente e eu também não queria falar abertamente — é que eu tinha já problemas nos ossos, por isso é que tinha partido.”

Quanto ao peito, não foi preciso fazer nada. Depois de vários exames, a ferida foi cicatrizando apenas com curativos diários por uma das filhas, que é enfermeira. Não chegou a ser operada e atualmente faz apenas o controlo de seis em seis meses, que tem resultado sempre sem alterações.

“A palavra cancro é uma palavra que evito o mais possível dizer, detesto a palavra. Não é pelo que me aconteceu, nunca gostei nem gosto de ouvir falar nem gosto muito que me contem nada. É uma palavra que me assusta. Foi sempre uma coisa que me horrorizou, mas aconteceu-me e agora não adianta de nada chorar.”

O dia mais negro da enfermeira Elisabete

Em 2018, começou outra história em muito parecida com estas duas. Elisabete Morais, enfermeira de 52 anos, foi diagnosticada com cancro da mama após ter feito apalpação e ficado com algumas dúvidas — a que se seguiram vários exames. Fez quimioterapia, depois radioterapia e, mais tarde, ficou cerca de um ano em hormonoterapia.

Tudo parecia indicar que estava melhor e preparava-se até para regressar ao trabalho, quando uma dor que pensou ser ciática a atirou de novo para uma baterias de exames. Nada parecia estar a ajudar até chegar o diagnóstico, em julho de 2020: era uma recidiva, o cancro tinha metastizado.

“Tive que aceitar como foi da primeira vez. Eu sou muito otimista. Se há alguma coisa que nós não podemos impedir que aconteça, temos que lidar da melhor forma com ela, aceitar e valorizar outras coisas, outros momentos mais importantes. Há dias que consigo superar, outros não, mas acho que isso é como toda a gente. Tem momentos altos e outros baixos”, conta.

Foi também uma metátese que apanhou Liliana Azevedo de surpresa. Ainda que o médico tivesse avisado que o que tinha era um tumor agressivo e que havia a possibilidade de se espalhar para outros órgãos, em nenhum dos exames que foi fazendo regularmente havia essa indicação.

Regressou ao trabalho — em teletrabalho por causa da pandemia — e foi mantendo todos os cuidados. Não descurou os exames regulares apesar das preocupações com a Covid-19 e os relatórios de maio de 2020 indicavam que tudo estava bem.

“Fui chamada para fazer a ressonância mamária de vigilância em dezembro e na semana seguinte recebo um telefonema da minha médica a dizer que o meu caso tinha ido a discussão de grupo. Apareceram três focos na parte de trás da mama, encostada à parede do músculo peitoral, focos pequenos, com tamanho inferior a dois centímetros, mas que não estavam lá em maio.”

Nessa altura, tudo pareceu uma espécie estranha de dejá vu. Descobriram metáteses no fígado e novamente foi recomendada a quimioterapia. O tumor tinha-se espalhado, mesmo que ainda não tivesse dado outros sinais de alerta.

“Um doente oncológico consegue ver nesta coisa má coisas boas, conseguimos ver a sorte. Tive sorte porque aqueles três sinais pequeninos que soaram o alerta àquela técnica salvaram-me a vida.”

Lidar com as emoções

Já percebemos que falar de cancro não é fácil, vivê-lo também não e lidar com as emoções no meio de exames, tratamentos e dúvidas pode ser um desafio avassalador. No caso de Liliana, as primeiras dúvidas foram sobre como contar e como lidar com os filhos, ainda muito pequenos. Da segunda vez, embora já soubesse ao que ia no que toca a tratamentos, o desafio emocional foi maior.

“Ter um cancro é mau, ter um cancro que metastizou é muito mau, falar em cuidados paliativos é péssimo, é um degradé de coisas ruins. […] De repente passamos a falar de taxas de sobrevida e de proporcionar qualidade de vida e por muito que uma pessoa tente abstrair-se não é fácil.”

O importante passa a ser o momento presente e há coisas menores que vão deixando de ter importância. As prioridades mudam quando há a possibilidade de já cá não estar amanhã.

“Ainda tenho muitas coisas para fazer, tenho muito boas razões para cá estar. […] Deixei de perder tempo com pessoas chatas, passei a priorizar e deixar de perder tempo com coisas que nos consomem a energia vital e que não vão servir para nada.”

Uma opinião semelhante tem Elisabete Morais, que até conhece de perto todas as implicações que as doenças podem ter tanto nos doentes como em quem os rodeia.

“Foi complicado, muito complicado, porque a maioria dos meus amigos são enfermeiros e nós sabemos como é, o problema é esse. Mas como sou positiva acho que ainda lhes dei mais ânimo a eles do que propriamente eles a mim. Aceitei porque não havia outro remédio, por isso temos que aceitar. Claro que custa, é natural, alterou muito a minha vida, mas o que vou fazer? Não posso fazer nada, temos é que lutar”, afirma a enfermeira de Vila Nova de Gaia.

Seguras de que há sempre algo de positivo a retirar de todo este processo, estas três mulheres coincidem noutro ponto: o cansaço. Quer seja pelos tratamentos ou pela debilitação inerente à doença, todas se sentem mais cansadas, que perdem com maior rapidez do que antes as forças e que não conseguem fazer tudo ao ritmo a que estavam acostumadas.

As soluções encontradas são distintas mas vão ter ao mesmo fim. Elisabete faz paragens mais frequentes quando está a fazer tarefas como arrumar a casa. Com dois filhos pequenos, Liliana prefere focar o seu tempo e energia neles e por isso tenta manter as rotinas e, se tiver oportunidade, deixar para outros as atividades domésticas. Já Maria Fernanda, por sua vez, vai mantendo as tarefas domésticas ao ritmo a que deixam os dias, conforme o cansaço permite e o ânimo ajuda. O que queria mesmo era poder voltar a conduzir, mas isso a médica desaconselha, devido às complicações no joelho.

Avisos que valem uma vida

“Se pudesse voltar a trás, a quando isto me apareceu, não sei se mudava alguma coisa. Conheço muitos casos de coisas deste género e acho que os processos por que temos que passar são sempre uma desgraça. Não sei se no meu caso, com esta idade, se valerá a pena estar a passar por tantos sacrifícios e tantas coisas”, diz Maria Fernanda Leitão.

Ainda assim, não deixa de ter consciência de que boa parte das outras pessoas possa ter uma opinião diferente: “O que diria, pelo que os outros me dizem e não por mim, é que aparecendo alguma coisa vá imediatamente ao médico. Cansei-me de ouvir dizer que se tivesse dado por ela, se tivesse falado na altura, nada disto me tinha acontecido, não tinha estes problemas ósseos, não tinha que andar sempre a fazer exames”.

Se soubesse o que sabe hoje, também a enfermeira Elisabete Morais teria alterado a forma como lidou com o processo: “Acho que se calhar teria um bocadinho mais de cuidado na apalpação, fazer exames, o auto-exame da mama mais cedo. Se calhar não chegaria a tanto.”

Por sua vez, Liliana Azevedo não deixa passar a oportunidade de alertar para os direitos que têm os doentes oncológicos, como ajudas nos impostos ou até benefícios nos créditos à habitação.

“Até saberem o que têm, tentar respirar fundo e não sofrer por antecipação. Depois de saberem o que têm, entregarem-se à equipa e deixarem a parte do tratamento entregue a quem está a cuidar”. E acrescenta: “Baixar os braços não é opção, por isso só temos que andar para a frente”.

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