Saúde

Cancro do pulmão é o mais mortífero: fumo do tabaco tem 70 substâncias cancerígenas

Fumou mais de 20 cigarros por dia durante 30 anos? Esse é "claramente um fator de risco para desenvolver cancro do pulmão."
Tabaco aumenta o risco.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o cancro mais mortífero do mundo, em 2020, foi o cancro do pulmão. 1,8 milhões de pessoas morreram num ano em que todo o planeta sofreu com a pandemia de Covid-19. Em Portugal, continua a ser um dos mais mortíferos, sendo que 80 a 90 por cento dos casos de cancro do pulmão estão relacionados com o fumo do tabaco, que é composto por cerca de 70 substâncias cancerígenas. Esta sexta-feira, 4 de fevereiro, é o Dia Mundial do Cancro.

O diagnóstico nem sempre é fácil. “O problema do cancro do pulmão é que é relativamente silencioso”, começa por dizer António Bugalho, pneumologista no Hospital CUF Descobertas e no Hospital CUF Tejo, à NiT. Segundo o especialista, em mais de 80 por cento dos casos de diagnóstico, já existiam fatores de risco — como o tabagismo, exposição no local de trabalho, ambiental, fatores genéticos —, mas a maioria das pessoas acaba por desenvolver o cancro sem sintomatologia.

No entanto, ainda que não apresentem sintomas, há certas pessoas que devem realizar uma TAC de baixa dose de radiação anual para fazer o rastreio do cancro do pulmão e “permitir a deteção em fases mais precoces.” Estas pessoas são consideradas de risco quando são fumadoras, deixaram de fumar há menos de 15 anos e têm entre 50 e 75 anos.

Este tipo de cancro silencioso passou, durante o período pandémico, a encabeçar a lista de cancros mais mortíferos em todo o mundo. Como as pessoas tinham algum receio em recorrerem aos hospitais devido à pandemia, foram desenvolvendo alguns sintomas sem procurarem ajuda de um profissional de saúde.

“Quando estas pessoas chegaram aos médicos, muitas delas já estavam em fases muito mais avançadas e, na sua maioria, em estádios mais graves e com muito mais dificuldades de tratamento curativo”, afirma o pneumologista. 

E acrescenta: “Os recursos foram direcionados para o Covid-19 e nos serviços de saúde houve uma dificuldade grande de resposta para outras situações, principalmente no início da pandemia. Sendo que diagnosticámos cancros do pulmão em estádios mais avançados do que em períodos pré-pandemia”.

É um cancro que surge em muitas pessoas, sendo o terceiro mais diagnosticado em Portugal. “Enquanto noutros cancros, como da mama ou colo do útero, há programas de rastreio e deteção precoce, no cancro do pulmão isso nunca aconteceu. E não existe um rastreio em massa da população. Grande parte dos casos que são detetados, já estão em estádios mais avançados da doença”, explica António Bugalho.

Os fumadores têm um risco 20 vezes superior de desenvolver cancro do pulmão do que quem nunca fumou. A partir do momento em que deixa de fumar, o risco vai diminuindo gradualmente e aproxima-se do nunca fumador ao fim de 12 anos. É sempre superior, mas aproxima-se gradualmente.

No diagnóstico precoce, as pessoas ainda não apresentam sintomas, mas normalmente já têm fatores de risco. Segundo o especialista, se fumou mais de 20 cigarros por dia durante 30 anos, “esse é claramente um fator de risco para desenvolver cancro do pulmão.” No entanto, quando surgem sintomas, os dois a que os pneumologistas chamam mais a atenção são a expectoração com sangue e a perda de peso inexplicavel.

António Bugalho explica que os sintomas podem ser muito diversos, desde ronquidão a dor em zonas específicas do corpo, por exemplo: “Como o pulmão não causa dor, porque não tem inervação sensitiva, a dor aparece dependendo da zona em que o tumor se desenvolve e se afetou, ou não, outros órgãos estruturais.” 

Neste sentido, muitos dos pacientes acabam por aparecer nas consultas porque fizeram uma radiografia, ou outro exame imagiológico, em que se detetou um nódulo ou tem uma massa na zona pulmonar. “Como as pessoas não recorriam aos serviços de saúde, ou porque não tinham sintomas ou porque estavam à espera que a situação pandémica melhorasse, foram atrasando o processo de diagnóstico”, afirma o médico.

O cancro do pulmão tem 4 estádios, sendo que mais de 75 por cento dos casos já são diagnosticados em estádios 3 e 4. Nestes casos, na maioria das situações, já não é possível oferecer tratamentos curativos, como por exemplo cirurgias. Em Portugal, nos últimos anos, diagnosticou-se uma média de 5.400 novos casos por ano e a mortalidade ronda os 4.700 casos anuais.

Se juntarmos todos os diagnósticos de cancro do pulmão, de todos os estádios da doença, a taxa de sobrevivência a cinco anos é de apenas 20 por cento. Sendo que nos estádios 1 e 2, a taxa de sobrevivência é muito superior à dos restantes estádios. Quando o diagnóstico é feito precocemente, consoante o caso, é possível fazer um tratamento curativo: cirurgias (para remoção do tumor) ou radioterapia (que queima as células de tumores pequenos).

Quando esta terapêutica já não é possível, em estádios mais avançados e com tumores espalhados pelo corpo, o objetivo dos médicos é prevenir o avanço da doença e aumentar a sobrevivência e qualidade de vida. Neste caso, podem ser tratadas com quimioterapia (através de fármacos que matam células de divisão rápida, tumorais ou não), radioterapia, terapias alvo (fármacos desenvolvidos especificamente para determinadas células tumorais) ou imunoterapia (fármacos que estimulam o reconhecimento de células tumorais anormais pelo sistema imunitário). Mas todas as terapias podem ser combinadas entre si, dependendo do quadro clínico de cada paciente.

O diagnóstico rápido e preciso é um ponto-chave para o sucesso do tratamento. A CUF instituiu a “Via Verde de Diagnóstico de Cancro“, que garante uma resposta célere em caso de suspeita de cancro.

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