Saúde

O inovador tratamento para o cancro da pele que tem uma taxa de cura de quase 99%

Sara tem uma condição genética que potencia este cancro. Já enfrentou oito tumores — e a cirurgia revelou ser um salva-vidas para a jovem.
É pouco conhecida em Portugal.

Teve o primeiro tumor da pele aos 27 anos e quando recebeu a notícia, teve muita dificuldade em lidar com a realidade. Tinha ido ao dermatologista por outro motivo e já que lá estava aproveitou e falou de uma comichão nas costas que a andava a incomodar. “O médico perguntou-me há quanto tempo é que tinha isto e eu disse que não sabia, mas que há já algum. No segundo a seguir disse-me que era um tumor”, começa por contar Sara Veiga, de 34 anos.

“Caiu-me tudo, fiquei sem chão. Só acalmei quando me explicaram que podia retirar e que ficava curada”. Foi o que aconteceu nesta vez e nas outras sete seguintes. Em apenas sete anos Sara já teve oito carcinomas basocelulares, o cancro da pele mais comum e que aparece normalmente nas áreas que estão mais expostas ao sol.

O mais recente foi tratado de uma maneira diferente de todos os outros, através da cirurgia de Mohs. Trata-se de um processo ainda pouco comum em Portugal. É um exame extemporâneo (feito no momento) que tem três grandes vantagens em relação à cirurgia tradicional: uma maior certeza de cura, praticamente de 99 por cento; a de ter certeza no momento, porque o doente sabe na hora se saiu curado; e o facto de o defeito (cicatriz) na pele ser muito menor, uma vez que o tecido retirado é o mínimo possível.

Sara acostumou-se ao surgimento dos tumores, tanto que é a própria a detetá-los. Apesar de terem diferentes cores e formas, têm assumido quase todos a mesma estética e manifestam-se com uma pequena ferida. Depois começam a dar muita comichão, criam uma crosta que acaba por cair num processo que se repete cerca de duas vezes. No final, resta uma mancha fácil de identificar.

Sofre de uma condição genética com a qual terá de lidar durante o resto da sua vida. E na família, Sara não é caso único, embora se tenham manifestado mais tardiamente. A exposição solar é um fator preponderante nestes casos, embora a jovem confesse que nem sequer gosta muito de praia ou tem sequer o hábito de passar horas ao sol.

“Atualmente já é uma questão que encaro com alguma leveza, porque a verdade é que sei que faço de tudo para prevenir e para que eles não apareçam. Tenho todo o cuidado, mas não consigo impedi-los de existirem, por isso o melhor que posso fazer é estar sempre atenta e vigilante e ir observando o meu corpo.”

Até ao momento, todos os tumores surgiram costas, mas o mais recente apareceu pela primeira vez numa nova localização: na cara, mais concretamente no nariz. “Honestamente nas costas nunca foi uma coisa que me afetasse muito, claro que é chato e tem de ser vigiado, mas foi desta vez que fiquei realmente alarmada. Primeiro há uma questão, os tumores na cara podem parecer superficiais, mas ser mais fundo que aquilo que aparentem, por estarem a crescer por dentro. Ao mesmo tempo, é óbvio que ninguém quer ficar toda retalhada.”

Nas cirurgias tradicionais a que foi sujeita, foi-lhe retirado um bocado grande de pele e ficou sempre com cicatrizes mais grossas. Desta feita, com a nova cirurgia, receou que acontecesse o mesmo, mas revela que a cicatriz “está perfeitinha”. “Quem não me conhecer nem se apercebe do que aquilo é.”

Todo o processo até chegar a esta cirurgia não foi fácil. Foi acompanhada em hospitais privados e procurou vários dermatologistas e opiniões, até chegar a Luis Uva, da clínica Personal Derma. “Ele viu-me, analisou-me e disse que esta cirurgia existia e que ele a podia fazer, eu não fazia a menor ideia de que fosse possível.” O facto de a taxa de cura ser praticamente de 99 por cento foi um fator decisivo.

“Realizei a cirurgia de Mohs a 22 de abril, demorou cerca de duas horas e meia no total, desde que cheguei até que fui embora. É um processo muito simples, com anestesia local, em que nunca senti dor. Por ser o sítio sensível que é, obviamente que sentia que me estavam a mexer, mas era mais uma espécie de impressão. É o doutor Luís que faz o corte e depois o doutor Leandro Azevedo, que é cirurgião estético, fecha e costura.”

“Não há qualquer tipo de preparação e depois pode-se fazer a vida normal, não há nenhum tipo de contraindicação sem ser a de não poder molhar o penso. A 29 de abril já estava a tirar os pontos e creio que depois da próxima consulta já vou poder tirar o penso definitivamente, ficar com o nariz destapado”, explica.

Sara continua a ter que ter muitos cuidados com a pele. Não sai de casa sem passar protetor em todos os lados que vão extar expostos, desde os braços à cara, e também anda sempre a olhar-se ao espelho para ver se deteta algo irregular. “As pessoas não fazem visitas suficientes ao dermatologista. Eu coloquei a minha família e as minhas amigas a serem vigiadas constantemente, temos de ser preventivos.”

A cirurgia de Mohs

Esta intervenção cirúrgica já existe desde a década de 30 e foi criada por Fredric Mohs. É realizada quando os tumores estão em zonas mais sensíveis, como é o caso da cara, não sendo comum fazê-la em zonas maiores como, por exemplo, as costas ou as pernas.

Primeiro faz-se uma dermatoscopia, onde se vê na pele o sítio concreto do basaleoma antes de se conseguir ver a olho nu. Depois de feito o diagnóstico, avança-se então para a intervenção.

“Esta cirurgia tem vários benefícios para o próprio doente. Primeiro a parte estética, que é incrível, porque não deixa defeito praticamente nenhum. Temos uma máquina especial que permite que permite fazer os cortes a fresco, coisa que é necessária para conseguirmos que sejam os mais finos possíveis”, começa por contar o doutor Luís Uva.

Além disso, as pessoas saem curadas na hora e com a certeza disso. “O processo é muito simples, o que nós fazemos é retirar um pouco de tecido da pele, através do qual verificamos logo se há tumor ou não (se certezas ainda não existissem). Cortamos de dentro para fora, e depois vamos sempre analisando de fora para dentro do tecido, porque desta forma conseguimos ver, através das margens, se o pedaço que tirámos foi suficiente ou se as pontas ainda estão afetadas.”

Neste último caso, o processo volta a repetir-se e é retirado mais um pouco de tecido. No caso de Sara não foi necessário e na maior parte das vezes ninguém faz mais do que duas cisões. De qualquer das maneiras, tudo é feito no momento e, portanto, mesmo que tenha de voltar a fazer a remoção, não se espera mais do que 30 minutos.

O processo é rápido graças à análise feita na hora. O tecido retirado é colocado numa lâmina e é observado pelo médico e pelo patologista. Metade da peça retirada segue para o laboratório, para se confirmar o relatório e a outra metade é observada no momento.

“As indicações para esta cirurgia são as mesmas de uma outra qualquer. Quem pode fazer uma pode fazer a outra. As vantagens são muitas, como já referimos. A preparação é inexistente, a anestesia é o local e os pacientes vêm e vão para casa no dia. O processo de recuperação também é muito só na zona, a única coisa que têm de fazer é cuidar da ferida cirúrgica.”

Ainda assim, este é um procedimento pouco explorado em Portugal. “Atualmente, que eu tenha conhecimento, só há seis médicos a realizar cirurgia de Mohs. Somos três aqui na clínica da Personal Derma [onde o valor é de 3550€], há dois no hospital Egas Moniz e um na Fundação Champalimaud. Eu já a faço há mais de dez anos, dantes nos EUA. Lá é muito comum, chegávamos a operar cinco doentes por dia. No nosso País ainda há muito desconhecimento, os próprios dermatologistas não têm conhecimento que esta intervenção existe, ou pelo menos que já é feita cá, e por isso não recomendam os pacientes.”

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