Saúde

Clínica de abortos no Texas foi obrigada a fechar 12 minutos depois da abertura

O insólito deveu-se à reversão da decisão do caso Roe vs. Wade, que tornou o aborto ilegal em vários estados norte-americanos.
Milhares de pessoas saíram em manifestação.

Na passada sexta-feira, 24 de junho, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América reverteu a decisão do histórico caso Roe Vs. Wade. Esta sentença, proferida em 1973, estabeleceu o direito ao aborto reconhecendo que a Constituição dos Estados Unidos protegia, em regra, a liberdade de uma mulher grávida que o quisesse fazer.

Com a anulação da decisão, o aborto tornou-se ilegal em muitos estados do país. Alguns já estavam à espera que isto acontecesse, outros ficaram surpreendidos com a decisão, como a clínica de aborto Houston Women’s Reproductive Services, que abriu pelas 9 horas do dia 24 junho e teve de encerrar 12 minutos depois.

“Ainda podemos fazer abortos hoje?”, perguntou Marjorie Eisen, a representante dos pacientes. A resposta foi clara, e exatamente a que as 20 pacientes não queriam ouvir: “não”. “Acabou-se”, disse Kathy Kleinfeld, uma das co-proprietárias da clínica, citada pelo “Washington Post” e “Público”.

O aborto é agora ilegal ou muito restrito em 11 estados. E 12 outros têm leis que, segundo um estudo do Guttmacher Institute (um grupo que luta pelo direito ao aborto), podem preparar o caminho para que o mesmo venha a suceder.

Por outro lado, alguns territórios assumem-se como um “espaço seguro” para todas as mulheres que queiram abortar, como é o caso da Califórnia. “O aborto é legal na Califórnia. Assim se vai manter. Não vamos cooperar com estados que tentem perseguir mulheres ou médicos por receberem ou oferecerem cuidados relativos à reprodução”, escreveu Gavin Newsom, o governador daquele estado, no Twitter.

A clínica Houston Women’s Reproductive Services fica no Texas, um dos estados mais conservadores e onde a decisão do caso Roe vs. Wade foi revertida. Ali, os abortos já tinham sido proibidos a partir das seis semanas, mas agora a proibição é total, independente das semanas de gestação. Os advogados da clínica planeiam contestar a lei em tribunal, mas dentro de 30 dias a proibição será implementada em todo o território do estado.

As pacientes tinham os mais diversos backgrounds: eram brancas, latinas, negras, mães, solteiras. Todas ficaram em choque.

Marjoerie Eisen, a representante dos pacientes, trabalha em cuidados relacionados com o aborto há 30 anos, e não conseguia acreditar no que estava a acontecer. Teve de ligar às 35 outras mulheres que tinham uma consulta marcada para esse dia, como Victoria, uma mãe solteira que estava grávida de cinco semanas.

“Existem muitas mulheres que simplesmente não conseguem [abortar]. Eu, neste momento, simplesmente não consigo”, contou ao “Washington Post”, citada novamente pelo “Público”. Não conseguia abortar, mas tinha planeado ir à clínica para saber que opções tem agora. Recebeu um artigo de uma revista onde se falam de pílulas abortivas que podem ser comprados na Internet, e uma lista com alguns estados onde o aborto ainda é legal.

O pouco dinheiro que tinha poupado será usado para viajar para um outro estado. Depois de abortar, revela que terá de voltar a viver “de salário em salário”. “Os meus direitos foram apenas roubados”, diz.

Os telefonemas para novas marcações continuavam. Muitas das pessoas não sabiam da decisão. Foi por isso que Kathy Kleinfeld, co-proprietária, decidiu gravar uma nova mensagem do voicemail: “Lamento informar que, a partir de hoje, sexta-feira, 24 de junho de 2022, Roe Vs. Wade, que estabeleceu o direito ao aborto legalizado, foi anulado. A partir de hoje já não somos autorizados a prestar os nossos serviços. Esperamos que todos se lembrem disto quando chegar a altura de votar.”

Segundo um questionário do Gallup, uma empresa de pesquisa de opinião dos Estados Unidos, em maio de 2021, 80 por cento dos americanos eram a favor do aborto. É, no entanto, uma das questões mais fraturantes da sociedade norte-americana. Alguns apoiaram a decisão, outros saíram para se manifestarem contra ela na área exterior do edifício do Supremo Tribunal.

“O Supremo não só reverteu um precedente de quase 50 anos como relegou a decisão mais intensamente pessoal que alguém pode tomar aos caprichos de políticos e ideólogos”, escreveu Barack Obama, ex-presidente dos EUA, no Twitter. “Este outono, têm de eleger mais senadores e representantes que voltem a incluir o direito de escolha na lei federal. Este outono, Roe vai a votos. As liberdades pessoais vão a votos. O direito à privacidade, à liberdade e à igual, tudo isto irá a votos”, disse também Joe Biden.

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