Saúde

Comer para camuflar stress, ansiedade e tristeza: o aumento de peso na pandemia

A nutricionista Sónia Marcelo acredita que a Covid-19 veio criar dois tipos de pacientes no último ano.
A pandemia continua a afetar os portugueses em várias frentes.

Há quem decida perder peso por uma questão estética e quem precise fazê-lo em prol da saúde. Independentemente disso, todas as razões são válidas. O percurso, porém, é longo e muitas vezes difícil, sobretudo durante uma pandemia. O testemunho da nutricionista Sónia Marcelo só veio reforçar isso.

A especialista começa por falar-nos da paciente Maria (nome fictício) que estava em consultas há cerca de um mês e meio, tendo conseguido perder 6,5 quilos nesse período. “As calças já serviam e estava muito satisfeita”, conta à NiT. Mas tudo mudou.

“No início de Janeiro recebo um email que me deixou muito triste. A Maria contava-me que a empresa estava a fazer reestruturações e estava com receio de perder o seu emprego e, por isso, teria de abdicar das consultas. Iria continuar a pôr em prática todos os ensinamentos e estava muito grata por me ter conhecido e por tudo o que lhe ensinei. Comoveu-me, pois sei que se não fosse a pandemia teria continuado e temo que sem acompanhamento a sua motivação diminua”, explica.

Já a Joana (nome fictício) começou o processo de emagrecimento com receio e sem acreditar de que era capaz. Contudo, duas semanas depois já estava diferente: mais confiante, mais leve e mais capaz de que conseguia — e o resultado foi fantástico ao longo de três meses. Porém, desmarcou a última consulta e quando Sónia Marcelo tentou perceber se estava tudo bem, a paciente disse-lhe que a mãe tinha sido operada, as avós estavam internadas, pelo que não estava a conseguir centrar-se em si e tinha desistido das consultas. 

“Na primeira semana de dezembro, no pós fim de semana de confinamento, tive imensas pacientes que aumentaram o peso e/ou não o conseguiram diminuir pelo fato de terem de ter estado em casa. Estavam ansiosas, sem poder sair e como os alimentos estavam a um passo e a família pediu um bolo ou uma sobremesa, acabaram por fazer e comer de forma exagerada. A menor atividade física também contribuiu para estes aumentos de peso e desmotivação”, revela à NiT.

Além disso, explica, há muitos pacientes que ficam desmotivados após terem algum familiar ou amigo infetado, ou porque os filhos estiveram em contacto com um caso positivo na escola e toda a família tem de ficar em isolamento. 

“As pessoas entram em desespero, angústia e tristeza, e acabam por encontrar na comida uma forma de consolo e conforto. Explico sempre que este sentimento positivo que a comida nos dá é momentâneo e o caminho passa por nos distrairmos com outra tarefa, ver o copo meio cheio, em vez de meio vazio e não comer”, diz, acrescentando que não ter tentações em casa, como doces, é fundamental.

Sónia dá-nos ainda o exemplo de Rodrigo (nome fictício), que sempre comeu por fome emocional. As consultas, recorda, estavam a ajudá-lo a superar esta tendência, através de exercícios práticos e uma lista de snacks para momentos S.O.S. No entanto, há 15 dias começou com um pico de febre e desmarcou a consulta.

O pai faleceu e a mãe está em estado crítico. O foco do Rodrigo deixou de ser o processo de emagrecimento”

“O resultado deu negativo. A febre não passava e voltou a fazer teste que deu positivo. Contou-me que, entretanto, os pais também apanharam o vírus. O pai faleceu e a mãe está em estado crítico. O foco do Rodrigo deixou de ser o processo de emagrecimento. Embora não exagere, como antes, retrocedeu no processo que estávamos a fazer com marcas profundas na sua motivação e bem-estar”, lamenta.

A nutricionista, que é também autora do blogue “Dicas de Uma Dietista”, acredita que a pandemia veio trazer dois tipos de pacientes. Por um lado, aqueles que já tinham excesso de peso ou obesidade, e em que o peso aumentou ainda devido a uma ingestão mais calórica, como forma de compensar emoções e de “gerir todo este stress, ansiedade, imponência e tristeza”.

Depois, existem as pessoas que até conseguiam manter um peso adequado ou tinham apenas dois ou três quilos a mais para a sua estatura. Este grupo comia alimentos calóricos apenas ao fim de semana, de forma social, já que tinha uma vida agitada. Agora, de repente, vê-se em casa, em teletrabalho, provavelmente trabalhar muito mais horas, recorrendo à comida “como forma de escape”.

Segundo a especialista, é urgente capacitar a população que comer de forma saudável e equilibrada, nesta fase, é impreterível para a saúde, bem-estar físico e psicológico — e que tornará o sistema imunitário mais forte e saudável”.

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