Saúde

Comer a placenta após o parto não faz bem — e pode colocar a vida do bebé em perigo

Blaya foi a mais recente figura pública a promover a placentofagia. A comunidade científica é clara: não o deve fazer.
Blaya foi a última celebridade a aderir à moda

No dia seguinte ao parto e depois de ter partilhado quase tudo nas redes sociais, Blaya exibiu um batido de cor apetecível. No seu interior, frutos vermelhos e, menos usual, um pouco da placenta guardada do parto.

“Nas consultas com a parteira foi-me sugerido beber um batido de frutos vermelhos e um pouco da placenta. Eu fiquei muito de pé atrás e achei muito estranho, mas, ontem quando me voltaram a perguntar, não tive dúvidas e aceitei”, confessou, antes de reencaminhar os seus seguidores para uma página onde se elencavam os alegados benefícios.

Entre eles, a potencial prevenção da depressão pós-parto e a obtenção de nutrientes que ajudam à produção de leite saudável. Estes alegados benefícios convenceram, aliás, milhares de mães por todo o mundo, motivadas por uma onda de celebridades que ingeriram a placenta das mais variadas formas: crua, cozinhada e até em comprimidos.

Se por cá, Jéssica Athayde fez o mesmo, lá fora, são exemplos as irmãs Kardashian, Kim e Kourtney, Chrissy Teigen ou as atrizes Katherine Heigl e January Jones, entre muitas outras.

O mito espalhou-se pelas redes sociais, muitas vezes disseminado também por parteiras, e acabou por se cimentar como uma prática de nicho, esotérica, mas relativamente aceite por muitas mulheres. Falta-lhe, contudo, validação científica.

“Do ponto de vista da nutrição funcional, medicina integrativa e nutrição holística não há base científica de suporte aos benefícios referidos”, explica à NiT a nutricionista Noélia Arruda, autora do livro “Manual para a Fertilidade, Gravidez e Amamentação”  e cujo trabalho se foca na fase gestacional das mulheres.

Por provar estão quase todos os benefícios que se apontam a esta prática pouco usual. Pelo contrário, no lado oposto, são muitos os riscos que profissionais, especialistas e a generalidade da comunidade científica apontam à ingestão da placenta, que pode colocar em risco não só a saúde da mãe como do bebé.

A origem do mito

“Os mamíferos também o fazem” parece ser uma das razões mais invocadas para justificar a prática. O que poucos referem é que mesmo entre mamíferos, humanos e outras espécies não poderiam ser mais diferentes.

“É verdade que muitos mamíferos comem a sua placenta, mas existem entre nós e eles muitas diferenças. Os mamíferos normalmente têm ninhadas, têm úteros de formas diferentes e placentas menos invasivas (…) Resumindo, a maioria dos mamíferos tem uma fisiologia reprodutiva completamente distinta da nossa”, escrevia a obstetra norte-americana Jen Gunter, numa muito partilhada crónica de 2018 no “The New York Times”.

“Imagine que o seu gastroentereologista lhe sugeria comer relva para acalmar as dores de estômago só porque é isso que o seu gato faz?”, conclui.

A verdade é que apesar de ser prática corrente no mundo animal, também é uma prática registada desde o século XVI na medicina tradicional chinesa. Mais comum e menos chocante é também o simbolismo do órgão em diversas culturas, que o ligam intimamente à criança.

Um artigo assinado por dois antropólogos revelou que, por exemplo, a placenta era sagrada no antigo Egito. Já no Cambodja, acredita-se que é a origem da alma do bebé e portanto é enterrada e coberta com espigões para a proteger dos espíritos. Em certas comunidades turcas, a placenta é enterrada na mesquita para tornar a criança mais devota. Na China e no Vietname, por exemplo, há quem chegue ao ponto de a consumir — uma prática que recebe o nome de placentofagia.

Terá sido nestas tradições que a moda começou a pegar na década de 80, impulsionada por uma parteira norte-americana que criou a ideia de desidratar, triturar e consumir a placenta em pequenos comprimidos. Mas a placentofagia explodiu na última década, muito por culpa da adesão de celebridades à moda. Depois, claro, proliferaram as empresas que asseguram a transformação da placenta em pequenos comprimidos para ingestão fácil nas semanas seguintes.

Os perigos para mãe e bebé

Em 2016, um estranho caso chegou às mãos dos responsáveis do Centro de Prevenção e Controlo de Doenças dos Estados Unidos: o de um recém-nascido com uma grave infeção bacteriana, detetada depois do surgimento de sintomas como problemas respiratórios e de uma infeção generalizada.

Após tratamento e alta, haveria de voltar a ser internado, altura em que os médicos perceberam que a mãe estaria a tomar cápsulas recheadas com a sua própria placenta desidratada. A toma foi imediatamente suspensa.

A criança sofria de uma infeção de estreptococos, que pode provocar pneumonias, sepsis e meningite. A reinfeção que levou a um segundo internamento foi o que despertou a curiosidade dos médicos, que imediatamente suspeitaram da possibilidade de ter sido a mãe a transmitir a bactéria.

“Estávamos preocupados porque o leite materno foi testado e deu negativo para a presença destes estreptococos do grupo B. Queríamos perceber a origem destas duas infeções e depois descobrimos que a mãe ingeria a placenta. Testamos os comprimidos e os resultados deram positivo para a presença da bactéria”, revelou à “CNN” Genevieve Buser, médica e autora do relatório divulgado pela CDC.

Este é apenas um dos casos registados em que a ingestão da placenta colocou em risco a vida da criança. Nesse sentido, a comunidade científica é unânime: embora haja necessidade de realizar mais estudos sobre o tema, é pacífico entre especialistas que a placenta não deve ser ingerida.

“Trata-se de um mito ou uma corrente moderna completamente desalinhada com a corrente científica”, frisa Noélia Arruda. “Inúmeros artigos científicos referem riscos para a saúde da mãe e do bebé: risco de infeções bacterianas ou virais, tromboembolismo de estrogénios, acumulação de toxinas ambientais como o plástico, o cádmio, a cafeína e substâncias toxinas inerentes ao envelhecimento natural da placenta.”

O mesmo nota um artigo científico publicado em 2015, que explica que “apesar dos inúmeros benefícios que reclamam os proponentes da placentofagia, estão ainda por provar as vantagens da ingestão da placenta.”

“A placenta não é estéril e tem como função proteger o feto da exposição a substâncias nocivas. Como consequência, tende a verificar-se a presença nela de elementos como selénio, cádmio, mercúrio e chumbo, bem como bactérias. Devido a contaminação ainda no útero e no pós-parto, pode também verificar-se a presença de bactérias e vírus.”

Mais conclusivo foi o estudo publicado em 2017 no “American Journal of Obstetrics & Gynecology”, cuja investigação concluiu que “não existe qualquer evidência científica de benefício clínico pela prática de placentofagia entre humanos” e que “nenhum nutriente ou hormona da placenta é retida em quantidades suficientes, após a transformação em comprimidos, para ter um potencial efeito benéfico na mãe”.

Além dos riscos já comprovados de potencial transmissão de vírus e bactérias, existe também o risco acrescido de ingestão de toxinas e hormonas retidas e bloqueadas pela placenta — riscos presentes na ingestão crua, cozinhada ou em fórmula de cápsula.

“Sabemos que a placenta vai envelhecendo à medida que avança a gravidez. Vai acumulando toxinas e o próprio envelhecimento gera inflamação e toxicidade”, nota a nutricionista Noélia Arruda. “Sabendo que a placenta é uma estrutura que se desenvolve aquando da gravidez e serve de proteção do bebé, vai reter uma serie de substâncias tóxicas, as toxinas ambientais como o plástico, o cádmio ou a cafeína. No fim da gravidez a placenta é naturalmente uma estrutura mais envelhecida e como tal existe o risco de tromboembolismo do tecido placentário.”

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