Saúde

Como a Alemanha preferiu não salvar o Natal — e escapou à terceira vaga

Angela Merkel cancelou o confinamento light, encerrou lojas e escolas para que não fosse "o último Natal com os avós". E funcionou.
Não houve frenesim nas ruas alemãs

Aos primeiros dias de dezembro, a chanceler alemã Angela Merkel percebeu rapidamente que aquilo a que chamou um confinamento light não estava a resultar. O número de casos diários galopava e os total de infetados teimava em bater recordes. Perante os parlamentares, decidiu justificar a sua decisão de avançar para medidas mais drásticas.

“Quero dizer-vos o seguinte: se tivermos demasiados contactos no Natal e percebermos depois que vivemos o último Natal com os nossos avós, então teremos mesmo feito asneira. E nós não devemos fazer asneiras”, explicou visivelmente emocionada, apesar de alguns apupos que foi forçada a ouvir. “O que é que dirão as pessoas quando olharem para trás e virem que não fomos capazes de encontrar uma solução?”

Portugal, apontado também como um bom exemplo de gestão da primeira vaga, tal como a Alemanha, dava os primeiros passos na luta com a segunda vaga. Em final de outubro, com o número de casos ativos já em fase crescente — com valores quase a duplicarem os mais altos registados no início do ano —, começou a preparar-se a época festiva.

“Creio que temos de fazer nestes dias um esforço muito grande para conter o alastramento do vírus exatamente para podermos salvar o Natal”, explicou o ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva, que sublinhou ser “uma ocasião muito importante de reunião familiar”.

“É inimaginável adotarmos no Natal medidas tão drásticas e autoritárias como as que adotámos na Páscoa ao proibir as pessoas de se deslocarem de um concelho para o outro. O Natal é um momento excecional de festas e de reunião das famílias”, revelara duas semanas antes o primeiro-ministro António Costa. 

Numa altura em que apostava já em algumas medidas para tentar contrariar o agravamento da pandemia, o líder do governo sublinhava a gravidade dos números registados à época.

“É muito claro, olhando para os números, que eles têm vindo a crescer de forma consistente desde agosto e que a evolução que estamos a ter é uma evolução grave. Isto precisa de um sinal inequívoco que temos de alterar os comportamentos”, concluiu.

O primeiro-ministro não quis repetir as medidas da Páscoa

A 15 de outubro, data das declarações, superava-se o número de duas mil infeções diárias e contavam-se 33 mil casos ativos. Em pouco mais de um mês, as infeções ativas mais do que duplicariam, com um pico de 84 mil a 23 de novembro. Mesmo após uma ligeira descida, a decisão passou por aligeirar as restrições no Natal — isto apesar do número de infetados ser já duas vezes pior do que o cenário que o primeiro-ministro avaliara como “grave”, dois meses antes de lançar as medidas mais relaxadas para o Natal.

Desde a época natalícia, Portugal bateu todos os recordes e tornou-se rapidamente um dos piores exemplos a nível mundial, com presença frequente no topo da tabela dos países com mais casos diários por milhão de habitantes.

Os 65 mil casos ativos registados no último dia do ano, quando ainda não se sentiam os impactos dos potenciais contágios natalícios, dispararam em apenas duas semanas para mais do dobro: 135 mil casos segundo os últimos registos. Os especialistas não têm dúvidas: a culpa foi do Natal.

“Estamos a pagar o preço de ter aliviado um bocadinho as medidas de contenção quando foi o Natal e o Ano Novo. Foi um risco calculado e não se pode dizer que fosse surpresa para quem está por dentro destas coisas”, revelou o infeciologista Jaime Nina em declarações à agência “Lusa”.

No mesmo sentido, o virologista Pedro Simas  afirmou também que “era esperado que, devido ao aumento significativo do número de contactos no Natal e no Ano Novo, aumentassem as infeções”.

Diretamente dos corredores onde se combatem a doença, o médico intensivista do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central, Philip Fortuna, admitiu mesmo em declarações ao “Diário de Notícias”. “Estamos a pagar o preço da decisão política de dar o Natal às famílias. O que isto conseguiu foi que algumas famílias passassem o seu último Natal juntas, porque se permitiu aligeirar as medidas numa das piores alturas do ano, o inverno, e já estamos a sentir os efeitos de há 15 dias. Depois, vamos sentir os efeitos do Final do Ano, em que o maior número de pessoas contaminadas serão os mais jovens que depois foram para casa contaminar as famílias.”

Esta terça-feira, 19 de janeiro, António Costa teve mesmo que dar resposta às críticas dos opositores, que o acusam de ser responsável pela atual situação do país. Perante a evidência trágica dos números, o primeiro-ministro assumiu a “responsabilidade pelas circunstâncias em que o país está hoje”.

Nas circunstâncias que temos hoje, nenhum de nós teria tomado aquelas medidas. As medidas são tomadas em função das circunstâncias e dos dados que temos. Procurámos sempre que as decisões sejam tomadas com base na melhor informação científica”, afirmou durante o debate na Assembleia da República.

Não terminou, contudo, sem apontar também o dedo aos portugueses, numa resposta à acusação do deputado Telmo Correia: “Se o senhor deputado acha que resolve os problemas do país dizendo que a culpa foi minha pela forma como as famílias celebraram o Natal e que é, por isso, que estamos como estamos, ofereço-me já a esse sacrifício e deixo à sua consciência se acha que foi eu o responsável pela situação em que estamos”.

Com o Natal como rastilho da brutal terceira vaga que está a esgotar os recursos hospitalares do país, é inevitável não olhar para outros exemplos europeus que se destacam por uma evolução contrária à de Portugal. É o caso da Alemanha, que decidiu apertar as medidas pré-natalícias e que hoje vive um período decrescente.

“Eu desejava que pudéssemos optar por medidas ais ligeiras mas devido às compras de Natal, o número de contactos sociais aumentou consideravelmente (…) Há uma necessidade urgente de agir”, revelou a chanceler Angela Merkel no início de dezembro.

Foi a líder alemã quem forçou as medidas e convenceu os chefes dos estados federados a porem um fim ao “lockdown light” em vigor desde o início de novembro — e partir para uma ação mais musculada, mesmo que à custa do Natal.

“Se a ciência praticamente nos implora que tenhamos uma semana de contactos reduzidos antes do Natal, antes de estarmos com uma avó ou um avô ou com pessoas mais velhas: talvez devamos pensar outra vez se não conseguimos encontrar uma forma de termos férias já a partir do dia 16, e não no dia 19”, concluiu. E numa afirmação que se tornou célebre, a alemã deixou bem claro o preço a pagar por não confinar: “Se tivermos demasiados contactos antes do Natal e acabar por ser o último Natal com os avós, é porque fizemos algo mal”.

Merkel fez um discurso emocionado antes de justificar as medidas para o Natal

As medidas passaram, desde logo, por encerrar lojas para evitar o tradicional frenesim das compras de Natal. No que toca às escolas, fecharam para férias e foi decretado que só reabririam a 10 de janeiro — uma decisão que acabou por ser contestada nas últimas semanas e que obrigou à manutenção do encerramento, mesmo enquanto os números decrescem.

Implementou-se desde logo o teletrabalho, o limite de ajuntamentos privados a um máximo de cinco pessoas de dois agregados familiares e em alguns estados avançou-se mesmo para a imposição de um recolher obrigatório.

As medidas tornaram-se inevitáveis para o governo alemão. “As pessoas não cumprem todas as regras que lhes são dadas. Tivemos que reduzir os contactos em cerca de 75 por cento e penso que nem isso funcionou. O Ano Novo e o Natal podem ser um pesadelo”, revelou à época Iris Pigeot, diretora do Instituto Leibniz. 

O Natal foi também alvo de medidas excecionais, permitindo contudo algum tipo de reuniões familiares, mas bastante restritas. “Até neste ano especial, será possível que o Natal seja celebrado em conjunto, mas tendo em conta a incidência da infeção, só poderá ser feito numa escala muito mais pequena do que a habitual”, revelou o governo alemão, em conjunto com os 16 estados.

As estatísticas revelam apenas uma verdade: no que diz respeito à pandemia, a abordagem alemã resultou. O pico de casos ativos registou-se a 24 de dezembro, altura em que superou ligeiramente a barreira dos 400 mil — e desde então seguiu quase sempre uma tendência decrescente. A 19 de janeiro, o número de pacientes infetados está agora nos 309 mil, numa tendência oposta ao de muitos países europeus, sobretudo aqueles que optaram por relaxar mais por alturas do Natal.

O número total de casos ativos na Alemanha (Fonte: Worldmeter)

De acordo com os dados do Our World In Data, entre 24 de dezembro e 19 de janeiro, a Alemanha verificou uma redução de menos 40 por cento dos casos diários. Um dado que contrasta com o crescimento de 181 por cento em Portugal. Segue o (mau) exemplo Espanha, com uma subida de 236 por cento no mesmo período, e a Irlanda, com 294 por cento. 

Se a Alemanha é o bom aluno, não faltam casos de reprovações no cenário europeu — com exemplos de contágios descontrolados que se assemelham ao de Portugal. Acontece logo aqui ao lado, em Espanha, atualmente a lidar com um aumento no número de infeções e de mortos.

Comparativamente aos valores antes do Natal, verifica-se um aumento de 64 por cento no número de pacientes Covid-19 a receberem tratamento hospitalar — e um aumento de 39 por cento em hospitalizados em Unidade de Cuidados Intensivos.

Também no país vizinho se aponta para o descontrolo natalício como a causa da perigosa terceira vaga. “A situação está má e vai piorar. Mas era expectável, dadas as medidas relaxadas do Natal. Assistimos a um aumento gigantesco nos níveis de contágio, a incidência disparou e este é um cenário que veremos durante as próximas semanas”, revelou ao “El País” Daniel López-Acuña, antigo diretor de emergências da Organização Mundial da Saúde.

Mais a norte, num país que serviu de bom exemplo durante a primeira vaga, o cenário é agora de caos total. O número de casos ativos saltou dos 60 mil por altura do Natal para uns impressionantes 150 mil registados até 19 de janeiro.

“Sabíamos que os números iriam subir depois do Natal mas não até este ponto”, afirma um membro do governo ao “Financial Times”

Só nas primeiras duas semanas de janeiro contabilizaram-se mais de 73 mil novas infeções, o equivalente a 44 por cento de todos os casos registados no país desde a chegada do vírus em março. A incidência da doença por cada 100 mil habitantes disparou de 166 a 23 de dezembro para 1.533 no início de 2021.

Embora se acredite que a nova e mais contagiosa estirpe da doença possa ter ajudado a impulsionar estes recordes negativos — corresponde a cerca de 45 por cento dos novos casos —, os especialistas continuam a apontar o dedo ao que julgam ter sido o principal responsável: as festividades natalícias.

O atual estado da pandemia na Irlanda é, portanto, atribuído ao relaxamento das medidas restritivas durante o Natal. “Não é necessário ser um epidemiologista, é bastante óbvio porque é que tudo isto aconteceu”, concluiu Luke O’Neill, imunologista no Trinity College de Dublin.

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