Saúde

Como o youtuber mais seguido do mundo devolveu a visão a mil pessoas

Sofriam de cataratas e pouco mais viam do que borrões. A mais recente façanha de MrBeast tornou-se obviamente viral.
Tem mais de 130 milhões de seguidores.

Num dia, Charlie estava sentado em casa, a lamentar-se por ter perdido o emprego por causa das cataratas que praticamente lhe retiraram a visão. No outro estava ao lado do youtuber mais seguido do mundo a fazer uma operação que lhe mudaria a vida — e para a qual não tinha dinheiro. Mais: consigo levou ainda uma mala com cerca de dez mil euros.

Só esse feito poderia ser digno de registo, mas a verdade é que MrBeast — o nome usado no mundo digital por Jimmy Donaldson — nos habituou a façanhas de dimensões improváveis. Voltou a não desiludir.

Para o seu mais recente vídeo, lançado a 28 de janeiro, MrBeast não ajudou a limpar a visão de uma ou duas pessoas, mas sim de mil pacientes que sofriam de cataratas. E, mais uma vez, superou expetativas: depois de fazer este milagre nos Estados Unidos, percorreu o mundo até totalizar as mil pessoas curadas.

Do México às Honduras, do Vietname ao Quénia, a ajuda chegou também a países com mais carências. O vídeo conta já com mais de 50 milhões de visualizações e mais de 215 mil comentários. Tudo isto em apenas um dia.

Donaldson contou com a ajuda de Jeff Levenson, oftalmologista que realizou todas as cirurgias feitas nos Estados Unidos e que coordena o programa “Gift of Sight”, o “Dom da Vista”, que tem procurado precisamente levar estas cirurgias a pessoas que não têm capacidade financeira para as fazer.

“Metade das pessoas que sofrem deste tipo de cegueira podem ser curadas em dez minutos”, refere o oftalmologista no vídeo. Levenson foi ele próprio uma vítima de cataratas, condição que debelou através da mesma cirurgia que agora replica noutros candidatos.

“Nos dias e semanas após a minha cirurgia andava embasbacado com quão brilhante e bonito é o mundo. Mas fiquei chocado com a ideia e que existem centenas de milhões de pessoas por todo o mundo que são cegas ou quase cegas por causa das cataratas — e que não têm acesso a estas cirurgias”, contou à CNN.

O médico não conhecia o youtuber que o contactou em setembro com o convite para a iniciativa. “Estive quase a desligar, mas ainda bem que não o fiz.”

No vídeo, alguns dos pacientes receberam mais do que a visão. Um dos jovens recebeu também um cheque de 50 mil euros para ir para a universidade; e outro um carro Tesla novinho em folha.

Na ronda americana estiveram presentes 40 pacientes, todos eles de famílias necessitadas ou mesmo sem-abrigo. Em apenas um dia foram todos operados, numa operação que arrancou às sete da madrugada e terminou às seis da tarde.

As ações no resto do mundo foram levadas a cabo pela See Internacional, uma organização sem fins lucrativos que procura ajudar pessoas de todo o mundo a obter cuidados oftalmológicos e da qual Levenson faz parte. A iniciativa passou pela Jamaica, Honduras, Namibia, México, Indonésia, Brasil, Vietname e Quénia, onde foram curadas mil pessoas.

A vida louca do youtuber mais rico do mundo

Donaldson alistou-se na plataforma com apenas 12 anos. Dedicou-se à partilha de vídeos sobre videojogos, quase todos eles sem grande sucesso. Nasceu e cresceu em Greenville, uma pequena cidade com pouco mais de 90 mil habitantes.

Foi da casa de família que foi deixando o rasto do sucesso que ainda hoje guarda no registo da sua conta no YouTube, onde tem 130 milhões de seguidores. Nenhum dos mais de 700 vídeos foi apagado, e servem de testamento à obsessiva tentativa e erro de Donaldson decifrar o que funciona (e o que não funciona) na plataforma.

Foram muitas as tentativas, mas em 2016, uma estratégia desesperada pareceu surtir algum efeito. No Twitter, anunciou que se o tweet fosse partilhado cinquenta vezes, faria um vídeo a contar até 10 mil. Para sua surpresa, a penosa tarefa que demorou mais de três horas a completar deu frutos: tem hoje mais de 32 milhões de visualizações.

Um ano depois, Donaldson percebeu que esta leve tortura auto-imposta se traduzia em visualizações e repetiu o modelo com mais ambição: desta vez contaria até 100 mil. Foram precisas 40 longas horas em frente à câmara para completar o desafio, encapsulado num vídeo de mais de 23 horas. Um mês depois, elevava a fasquia para os 200 mil. Foi por essa altura que a estratégia se esgotou a si própria. O terceiro vídeo juntara apenas três milhões de visualizações e estava na altura de mudar.

Em 2016, chegou a inscrever-se na faculdade. Rapidamente desistiu e confrontou os pais com a decisão de se tornar num youtuber profissional. Acabaria por ter que sair de casa a pedido dos pais, mas a estratégia estava montada. “Eu acordava, estudava o YouTube, estudava os vídeos, aprendia a gravar e depois ia para a cama. Essa era a minha vida”, revelou numa entrevista à “Bloomberg”, em 2020.

Para atingir o sucesso, havia que perceber o que movia as pessoas a clicarem e a manterem-se coladas ao ecrã. A estratégia parece ser simples: quanto mais louca for a proposta, mais interesse ela irá gerar. A verdade é que são muitos que o tentam fazer, mas poucos ou nenhuns com o sucesso de MrBeast.

Com o dinheiro que ia chegando da publicidade, financiava as produções cada vez mais elaboradas: tentou calcular quantos balões de hélio são necessários para fazer alguém flutuar; e tentou parar uma bala com mais de 100 mil papéis alinhados. Pelo meio, tornou-se numa espécie de “filantropo do YouTube”.

Alguns dos seus vídeos mais populares são desafios e ofertas de dinheiro que faz a amigos e estranhos, como quando deu uma gorjeta de 10 mil euros a um estafeta.

Nunca se esqueceu da estratégia que o ajudou a tornar-se famoso: os auto-desafios que o levavam ao limite. Talvez por isso tenha aceitado o desafio de ler todas as palavras do dicionário em vídeo; tenha tentado passar 24 horas submerso na sua piscina — um desafio interrompido por motivos de saúde —, ou tenha aceite ser enterrado vivo num caixão durante 50 horas, naquele que foi, para Donaldson, o “mais difícil de todos”.

No final de 2017, Donaldson já tinha chegado à meta do milhão de subscritores. “A beleza do YouTube é que o dobro do esforço não significa que tenhas o dobro das visualizações, mas sim dez vezes mais”, revelou. “O primeiro milhão de subscritores pode demorar anos a acumular, mas o segundo chega rapidamente numa questão de meses.”

As ofertas de dinheiro tornaram-se num dos seus conteúdos mais vistos e, tal como todos os outros, foram ficando mais elaborados ao longo do tempo. Naturalmente, as bem intencionadas gorjetas começaram a ganhar contornos mais maquiavélicos. Para receberem o prémio, os convidados teriam que se sujeitar, também eles, a árduas provas, para gáudio de Donaldson e dos subscritores.

Num dos vídeos, coloca um milhão nas mãos de alguém, mas dá-lhes apenas um minuto para os gastar. Noutro, oferece perto de 100 mil euros para que se despeçam do seu emprego. Há ainda um caso em que quatro concorrentes disputam um milhão guardado numa caixa, que será entregue ao último a retirar a mão de cima dela. O vencedor só foi encontrado ao fim de mais de um dia de espera agonizante.

As ofertas valeram-lhe o título de “filantropo do YouTube”, ele que hoje gere a sua marca como uma autêntica empresa. Entre os funcionários estão quatro amigos de infância, que aparecem regularmente nos seus vídeos. Recentemente, MrBeast encabeçou uma campanha de angariação de fundos para plantar 20 milhões de árvores — uma iniciativa que juntou mais de seis centenas de influencers e recebeu doações de grandes nomes como Elon Musk e Jack Dorsey.

No final de 2020, o seu negócio expandiu-se para os restaurantes. Depois de abrir um espaço que pagava aos clientes para lá comerem, deu início a uma cadeia que lançou espaços em dezenas de cidades — e mais de 300 cozinhas fantasma que funcionam apenas em formato de entrega em casa.

Nenhum sucesso chega sem a sua dose de controvérsia. Ao longo dos últimos anos, Donaldson foi acusado de homofobia, sobretudo depois de revelados alguns tweets antigos que entretanto foram apagados.

Foi também acusado de usar notas falsificadas nos seus vídeos, o que levou a que muitos seguidores duvidassem da veracidade dos vídeos. Donaldson rejeitou a ideia e garantiu que o uso de notas falsas era uma mera questão de segurança e que todos os vencedores recebiam o devido valor em cheque.

Em 2021, o “The New York Times” relatava problemas no coração da mini-empresa de Donaldson, com queixas de antigos funcionários sobre bullying e favoritismo. O youtuber foi também criticado por vários fãs, que terão perdido dinheiro num esquema fraudulento de criptomoedas que o próprio promoveu.

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