Saúde

Correr sem coronavírus. Afinal, qual é a distância que devemos manter?

Esqueça as distâncias de 10 e 20 metros. Apanhar coronavírus a treinar é mais difícil do que julga — mas há precauções a tomar.
O risco é mais baixo do que julga.

Fazer exercício é o único escape e a forma que muitos encontram para se manterem saudáveis durante o confinamento. E por isso é que o alarmista “estudo” belga e holandês, publicado no início de abril, se tornou viral: para estarem seguros e livres de contágio, corredores teriam que manter 10 metros de distância entre si; 20 metros para ciclistas. Apesar das milhares de partilhas, a maioria dos especialistas arrasaram as conclusões formuladas daquilo que, afinal, não é um estudo.

“Põe-me o sangue a ferver”, revela o epidemiologista de Harvard, William Hanage, sobre o vídeo que reclama ser uma “modesta contribuição” para a luta contra o novo coronavírus. Na verdade, o estudo não era um estudo, revela a “Vice”: era apenas uma simulação que foi divulgada à imprensa. As conclusões tornaram-se virais e espalharam-se sem qualquer critério. 

Sem qualquer explicação do método ou conclusão, sem contribuição de especialistas como epidemiologistas ou virólogos, será difícil sustentar o argumento de que devemos correr todos a 10 metros uns dos outros. A questão que se coloca nem sequer é sobre a distância. Antes, é necessário debate todo um outro conjunto de fatores.

É sabido que o método principal de transmissão do novo coronavírus acontece através de gotículas lançadas por espirros ou tosse. No caso de aerossóis — gotículas ainda mais pequenas que podem ficar no ar durante várias horas —, além de não ser a principal forma de transmissão, elas normalmente só se formam em situações muito específicas, como é o caso das intubações em hospitais.

Mais: não foi tido em conta na tal simulação que nem todos os contactos podem resultar numa transmissão. Será assim tão fácil que as gotículas saltem de um corredor para o outro? Para que isso aconteça, é necessária que seja transmitida uma carga viral mínima, o que nem sempre sucede. Isto contraria a ideia passada pela simulação de que todos os que entram na área da tal nuvem de dispersão de gotículas ficam necessariamente infetados.

Colocados de lado os aerossóis, o risco de contrair a doença por via destas gotículas pode ser reduzido graças a vários fatores, seja através do aumento da distância entre pessoas, a diminuição do tempo de exposição e de contacto entre elas, e um bom ambiente ventilado com circulação de ar. No caso do exercício ao ar livre, todos eles entram em ação e representam um risco reduzido de contágio.

“Os conselhos relativamente ao distanciamento físico têm mais a ver com reduzir o risco do que realmente eliminá-lo por completo”, revela Hanage, que acrescenta que o número de contágios por esta via, “ainda que possíveis, são ridiculamente pequenos quando comparado com outras situações”.

O epidemiologista não está sozinho. “Acho que muito poucas transmissões poderão ocorrer ao ar livre, exceto talvez em grandes multidões”, explica ao “The New York Times” Benjamin Cowling, professor de epidemiologia na Universidade de Hong Kong. E acrescenta: “Correr faz bem à saúde e o risco de transmissão será mínimo, seja relativamente a outros, se o corredor estiver infetado, ou para o próprio, se passarem por pessoas infetadas”. 

Para que aconteça uma transmissão entre corredores ou pessoas que se cruzam na rua, tem que ter lugar uma improvável combinação perfeita de fatores, explicam à “Vox” a viróloga da Universidade de Columbia, Angela Rasmussen, e a patologista Jennifer Kasten.

“Exercício solitário ao ar livre apresenta um risco baixo”

Em primeiro lugar, tem que se dar uma emissão de partículas. Essas partículas terão que combater os elementos: a distância e a circulação de ar no exterior. No caso de chegarem até outra pessoa, terão depois que entrar diretamente no sistema respiratório ou aterrar nas mãos, havendo um contacto secundário. E, por fim, essa amostra final terá que conter uma carga viral mínima.

“Os riscos de transmissibilidade do vírus no exterior é provavelmente muito baixo nesse contexto, embora o risco ainda não tenha sido definitivamente medido. Fatores como a luz solar, o vento, a chuva, a temperatura e a humidade podem afetar a infetividade e transmissibilidade do vírus. Embora não possamos dizer que há risco zero, será baixo, exceto se participar em atividades no meio de grandes multidões. Exercício solitário ao ar livre apresenta um risco baixo”, explica Rasmussen.

Distância mínima com precauções

Embora os riscos não sejam elevados, nenhum especialista contraria a ideia de que os tais 10 metros serão sempre mais seguros do que os dois metros que foram convencionados como a distância social mínima aceitável. O que se diz é que não é preciso entrar em pânico quando eles não são cumpridos.

Os dois metros são uma boa casa de partida que deve ser complementada com outras regras e hábitos. Os mais comuns já os conhecemos: lavar as mãos, evitar multidões e horas de grande movimento e cumprir a distância mínima.

Outra das recomendações mais controversas é o uso de máscara. Embora seja recomendado, até porque coloca mais uma barreira no caminho que no vírus tem que percorrer até à transmissão, pode tornar-se num incómodo.

O uso de máscara pode ser uma alternativa, embora tenha efeitos adversos: podem restringir o fluxo de ar e afetar a respiração, o que causará desconforto e, naturalmente, uma performance limitada. Tudo dependerá do material de que são feitas, sendo certo que as habituais máscaras de proteção não foram criadas para acomodar este tipo de atividade física.

A respiração poderá também humedecer os tecidos, o que tornam a passagem de ar ainda mais difícil, ao mesmo tempo que reduzem “a eficácia antimicrobiana”, revela o professor de cardiologia Louis-Philippe Boulet ao “The New York Times”.

A solução pode passar por uma máscara intermédia, como é o caso das golas tubulares, aplicadas para darem mais uma camada de proteção sobre o nariz e a boca. Embora não sejam feitas de tecidos que garantam uma proteção eficaz, são mais seguras do que correr sem qualquer tipo de acessório — e permitem uma respiração mais fácil do que o uso de uma máscara cirúrgica.

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