Saúde

Cosmeticorexia: a perigosa obsessão dos jovens com cremes para as rugas

Estas rotinas de skin care são cada vez mais replicadas redes sociais, sem medir as consequências na saúde.
Uma tendência com graves consequências.

Cosmeticorexia é um dos termos do momento, mas não pelas melhores razões. Significa o consumo excessivo de cremes cosméticos e tem afetado cada vez mais adolescentes e pré-adolescentes. Deve-se, em grande parte, ao impacto das redes sociais, nomeadamente do Tik Tok, onde as skin care routines são uma das mais populares tendências. 

Não se tratam apenas de tentativas para afastar a acne, até porque o fenómeno atinge idades a partir dos 10 anos. A verdade é que logo a partir destas idades, os miúdos começam a preocupar-se com produtos anti-rugas e todo o tipo de serúns e cleansers. As influencers têm um papel preponderante neste tipo de situações, a começar pelo facto de muitas vezes serem pagas pelas próprias marcas para promover os artigos — claro que nessa negociação, nem sempre interessam as advertências dos médicos.

Começa-se pela limpeza, depois vem um toner, seguido de um hidratante, e por fim o protetor solar — talvez ainda haja espaço para um ou outro sérum. “Por vezes, estes jovens têm hábitos que envolvem oito ou mais produtos e muitos deles anti-envelhecimento. Trazem os sacos cheios de cosméticos. E falamos de substâncias que não fazem sentido nenhum para peles tão jovens”, confirma Marta Ribeiro Teixeira, dermatologista da Clínica Espregueira, em entrevista à NiT.

Se, antigamente, este era um problema excecional, hoje faz parte da regra e tem alarmado médicos em vários países. “A própria Sociedade de Dermatologistas do Reino Unido já lançou um comunicado a alertar para esta tendência”, afirma a especialista. “Deve-se essencialmente às redes, nomeadamente ao Tik Tok”. 

“A moda do retinol, por exemplo, que é uma substância adequada para adultos e que só se deve utilizar a partir dos 25 anos, faz parte de muitas das rotinas destes miúdos”, adverte. Trata-se de uma matéria derivada da vitamina A que ajuda a combater os sinais de envelhecimento no rosto, através do colagénio. Tem sido uma das principais favoritas entre os mais novos, mas que, como será de esperar, traz graves consequências para peles tão jovens e sensíveis. “Irritações, dermatites alérgicas, agravamento da acne, rosáceas, eczemas, cicatrizes ou manchas” são algumas das consequências referida pela dermatologista. 

Fora os impactos a nível físico, a saúde mental é outro tema a ter em conta. Naturalmente, a ideia de criar rotinas de skin care tão excessivas tem um objetivo bem patente: a pele imaculada, jovem e brilhante. Esta busca pela perfeição acontece sobretudo devido às imposições sistemáticas de que os corpos femininos são alvo — não admira que 95 por cento das vítimas mais novas deste fenómeno sejam meninas. “Esta tendência afeta bastante a ansiedade e a auto-estima, tudo muito devido às redes sociais”, reforça. 

Quando questionada sobre o que fazer para resolver o problema, a especialista sublinha que a abordagem deve ser feita a vários níveis. “Tem de haver conversas. Tudo isto é uma negociação. Muitas vezes vemos os pais e os filhos em consulta e é uma guerra”. Se por um lado, os pais querem que o dermatologista não recomende o uso daqueles produtos; por outro, as crianças querem a sua aprovação. “A negociação deve-se fazer no sentido de perceber o que é correto e o que é errado”. 

No entanto, a dermatologista não descura o papel das influencers e das redes sociais, no geral. Apela a que se façam campanhas de consciencialização, e defende que é fundamental que quem faz este tipo de vídeos tenha o discernimento para “lançar informação num sentido positivo”. 

Outra questão, passa, por exemplo, pelas próprias marcas. “São quase sempre as mesmas etiquetas utilizadas pelos jovens, normalmente as que têm os rótulos e embalagens mais apelativos. Devia-se colocar no rótulo as idades recomendadas”, assinala. Reconhecendo que medidas mais eficazes, a título legislativo, por exemplo, são processos demorados, Marta Ribeiro Teixeira insiste que: “Nós, dermatologistas e médicos, no geral, e também os meios de comunicação, temos a responsabilidade de informar”.

E acrescenta: “Todas as semanas vejo crianças em consulta com produtos completamente desadequados. Não há muito mais a fazer a não ser informar, conversar. As próprias influencers, com os milhares de seguidores que têm, começam também a ter alguma responsabilidade social”.

No fundo, os cuidados a ter com o rosto de um miúdo são bastante simples: uma limpeza suave, um hidratante e o protetor solar. A única vantagem a destacar no meio de toda esta obsessão passa exclusivamente pela utilização do protetor solar. “Esta é uma boa prática e a sua consciencialização tem sido muito notória”, acrescenta a médica. 

Por fim, a Doutora Marta Ribeiro Teixeira deixa um último conselho, em especial para os pais. “Quando não conseguem evitar as rotinas demasiado complexas e se virem que o filho ou a filha está a desenvolver algum problema mais grave, devem consultar o dermatologista o quanto antes, é importante não demorar muito tempo. O tempo de espera pode ter consequências a longo prazo”.

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