Saúde

Covid-19: Infeção durante a gravidez pode implicar mais riscos para mães e fetos

Trata-se da primeira investigação portuguesa com uma visão global do impacto da doença em mulheres grávidas.
Anna Hecker no Unsplash.

Um estudo nacional concluiu que a infeção com Covid-19 no decorrer da gravidez pode representar riscos acrescidos tanto para a mulher como para o feto. A investigação recomenda, portanto, “uma vigilância individualizada nestes casos e a profilaxia desta população com a vacinação”.

Para chegar a esta conclusão, os investigadores examinaram dados disponibilizados por 23 maternidades portuguesas de 630 grávidas — 18 foram hospitalizadas por causa da Covid-19, 10 em unidades cuidados intensivos (UCI) — com uma média de idades igual a 30 anos. Estas mulheres foram diagnosticadas entre 24 de março de 2020 e 3 de março de 2021 e 60,3 por cento testou positivo à doença após as 36 semanas de gestação e 62,9 por cento estavam assintomáticas.

“Os nossos dados, que são semelhantes aos de outros estudos, sugerem que as mulheres grávidas infetadas com SARS-CoV-2 têm um aumento do risco dessas complicações e reforçam a hipótese mencionada”, lê-se no artigo citado pelo “Público”.

Acrescenta: “Encontrámos uma forma mais grave da doença Covid-19 em 2,9 por cento das gestantes, que necessitaram de suporte respiratório, o que é semelhante a estudos previamente reportados. Depois das 33 semanas de gestação, as mulheres tiveram mais problemas respiratórios comparativamente ao primeiro e ao segundo trimestres, que podem estar associados a mudanças fisiológicas nesta fase”.

Nas conclusões de “Um Ano de Covid-19 na Gravidez: Um Estudo Colaborativo de 630 mulheres”, os pesquisadores revelam também que “a taxa de parto pré-termo e de [peso] leve para a idade gestacional [bebés com peso inferior ao esperado] foi de 12,1 por cento e de 9,9 por cento, respetivamente”. Referem ainda que, “em Portugal, a incidência estimada de partos pré-termo nos últimos anos ronda os 8 por cento.

Em declarações ao jornal mencionado, Nádia Charepe, uma das autoras do estudo publicado na revista “Acta Médica Portuguesa”, disse: “O que vimos, em termos de resultados, é que no terceiro trimestre da gravidez as mulheres tinham maior risco em termos de saúde materna. Tinham maior necessidade de internamento a nível hospitalar, nomeadamente em cuidados intensivos devido à necessidade de suporte respiratório. Vimos que havia uma repercussão maior a nível respiratório nestas mulheres nesta fase”.

A médica indicou, igualmente, que existiram utentes a desenvolver síndrome pré-eclampsia like. Trata-se de um distúrbio hipertensivo que pode acontecer no final da gravidez. A cura? O parto. “Algumas mulheres tiveram este síndrome, que em tudo se assemelha ao quadro de pré-eclampsia em grávidas não infetadas, mas cujos mecanismos fisiopatológicos não estão totalmente esclarecidos. Aconteceu em alguns casos, sem fatores de risco associados”. Suspeita-se, ainda assim, de perigo acrescido para esta condição associada à infeção por SARS-CoV-2.

Apesar desta ser uma das explicações para uma taxa de partos pré-termo superior ao esperado, Charepe garante que não é a única. A especialista aponta “a descompensação respiratória materna”, como outras das causas. “Se uma mulher apresentasse um quadro clínico de pneumonia com necessidade de oxigenoterapia, poderia não ser exequível a indução do trabalho de parto ou mesmo manter a gravidez por muito mais tempo e é provável que se tivesse de antecipar o parto para melhorar a condição materna. Encontrámos descompensação respiratória na população grávida com instalação muito rápida no terceiro trimestre”.

Vacinação pode minimizar risco da Covid-19 no terceiro trimestre

Vale lembrar que a pesquisa em causa teve lugar numa fase pré-vacinação de grávidas. “Hoje o que vemos, mesmo noutros estudos a nível internacional, é que a vacinação parece ter uma grande influência na redução do risco da Covid-19 no terceiro trimestre. Contudo, tenho percebido na minha prática clínica, que ainda existe muito medo e resistência à vacinação por parte da grávida”, comentou a especialista da maternidade Dr. Alfredo da Costa.

O estudo detetou também uma “alta taxa de aborto espontâneo, que não se pode descartar estar associada à Covid-19”, “na infeção materna precoce”. Dos 45 casos de infeção registados antes das 23 semanas de gestação, 13 terminaram com aborto espontâneo.

Nádia Charepe ressalvou que a investigação não incluiu comparação com a taxa de aborto espontâneo em grávidas sem Covid-19. “Fomo-nos apercebendo que algumas mulheres com abortos espontâneos estavam infetadas com o SARS-CoV-2, e ficaram no nosso registo nacional. Até que ponto isto influenciou ou não o desfecho da gravidez, não temos a certeza”.

Sobre os recém-nascidos, registaram-se sete casos positivos (1,3 por cento). Também sete dos 535 recém-nascidos apresentaram complicações respiratórias, mas estas não foram associadas à Covid-19. 

Um caso de possível síndrome de resposta inflamatória fetal associada a uma grávida infetada com SARS-CoV-2 foi reportado, assim como um nado-morto com infeção, mas não foi possível tirar conclusões sobre o papel da patologia para o desfecho.

Ainda que esta seja a primeira investigação portuguesa com uma visão global do impacto da doença em mulheres grávidas, não contabiliza todos os casos registados no País.

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