Saúde

Covid-19 levou Miss Betty, a enfermeira que disse não à reforma para enfrentar a pandemia

Prestes a fazer 79 anos, Betty Grier Gallaher morreu vítima da pandemia. A sua história tem emocionado os EUA.
"Era uma motivadora".

Não foi por uma questão de necessidade. Com mais de cinco décadas de experiência, Betty Grier Gallaher há muito que tinha conquistado o direito à reforma. Mas esta enfermeira norte-americana quis continuar a trabalhar nas urgências que sempre conheceu. Fê-lo até que a Covid-19 o permitiu.

Betty era mais conhecida como Miss Betty no Coosa Valley Medical Center, um hospital no Alabama que era a sua segunda casa (e onde tinha, entre os colegas, a sua segunda família). No passado dia 10 de janeiro, um dia antes de fazer 79 anos, Betty morreu vítima da Covid-19.

A sua história é contada pela “CNN”. Em março, quando a pandemia começou a atingir os EUA, os colegas pediram-lhe que se afastasse. Não por não a quererem, simplesmente porque, devido à idade, corria um risco ainda maior. Mas Betty não estava habituada a parar. Esteve dois dias em casa. Ao terceiro voltou a aparecer no hospital, pronta para o turno da noite.

À cadeia de televisão norte-americana, o filho conta que a mãe sempre adorara trabalhar nas urgências. Foram 43 anos de carreira nos mesmos corredores, do mesmo hospital. Gostava, também, de trabalhar com os colegas mais novos. Estava sempre pronta a dar conselhos e percorria o hospital para garantir que não eram só os utentes que estavam a ser bem tratados. Queria ter sempre a certeza de que os colegas se tinham alimentado e descansado o suficiente.

“A Betty era o tipo de pessoa que se preocupava tanto contigo como enfermeira como com qualquer paciente. Era capaz de te interromper mesmo que tivesses ocupada, só para ter a certeza de que estavas bem”, conta a colega Nikki Jo Hatten.”Cuidava de todos. Ela era a cura para um ataque de ansiedade”.

Betty estava habituada a trabalhar em contextos difíceis. Quando o furacão Katrina devastou Nova Orleães, em 2005, esteve lá como supervisora num hospital a coordenar colegas. Fê-lo mesmo em momentos em que não se sabia do paradeiro de todos os profissionais de saúde que trabalhavam consigo e a energia, num raio de quilómetros, falhara. Uns anos depois disse ao filho que pensava reformar-se, mas quando este lhe perguntou o que iria fazer no dia a seguir a reformar-se, a sua resposta foi simples: iria ao hospital.

O Coosa Valley Medical Center foi onde passou grande parte da sua carreira. Chegou ao ponto de ter colegas com quem trabalhou e cujos filhos, décadas depois, a tiveram como mentora.

No dia 19 de dezembro, começou a ter dificuldades respiratórias. A própria desvalorizou, atribuindo o problema à exaustão. No dia seguinte, os colegas, preocupados, perguntaram por ela. A ambulância levou-a até ao hospital que sempre conhecera.

Betty ficou internada até ao fim dos seus dias. A própria confessou que só temia morrer sozinha, devido ao isolamento em tempos de pandemia. Não foi o caso. No seu último dia de vida, todos os colegas encontraram uma janela de tempo para a ver. “Não era a maneira como a queríamos ver partir mas estou feliz por termos conseguido estar lá por ela”, recorda Hatten.

Nas redes sociais, o hospital prestou tributo à sua enfermeira de sempre. “Estava sempre com um sorriso na cara. Era uma motivadora”.

The whole CVMC family is deeply saddened by the loss of our ER nurse, Mrs. Betty Grier Gallaher, to the COVID-19…

Posted by Coosa Valley Medical Center on Tuesday, January 12, 2021

 

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