Saúde

Curvas, pelos e pensos: a luta de uma influencer na defesa dos corpos reais

Jessica Megan é modelo plus-size e influencer. Com polémicas à mistura, anda a tentar quebrar certos mitos sobre o corpo.
Jessica Megan tem 26 anos.

Nos piores momentos, a relação que temos com o nosso corpo pode ser especialmente gráfica. Há algo que nos desagrada de tal maneira que imaginamos só como seria o tal “problema” desaparecer de uma só vez.

Jessica Megan ainda era adolescente quando teve os piores pesadelos: “quando tinha 15 anos, tinha esta fantasia de que podia cortar partes da minha barriga ou coxas como se fosse algum kebab. Pouco depois aprendi mais sobre cirurgias cosméticas e pensei que era a coisa mais mágica do mundo”.

O desabafo foi escrito na primeira pessoa e publicado em agosto, na plataforma “RTE”. O melhor que poderia querer para si, pensava, era que lhe cortassem partes indesejadas do corpo. Durante anos foi poupando dinheiro a pensar nisso.

“Tenho 26 anos e enquanto escrevo continuo com o mesmo corpo com quem nasci”. O tal plano de anos demorou anos a deixar de ser um plano. O que surgiu em seu lugar foi toda uma nova forma de olhar para si e para o seu corpo.

Hoje em dia, Jessica, natural de Hampshire, no Reino Unido, conseguiu construir uma carreira onde não escondeu o seu corpo. A britânica é modelo plus-size, tem trabalhado com diferentes marcas, como a The Body Shop, e é também presença forte nas redes sociais. Tem mais de meio milhão de seguidores no Instagram. Acompanham a sua carreira e as suas palavras. E ao longo dos últimos anos tem-se destacado com ambas.

Jessica alerta para uma pressão que muitas vezes ultrapassa mesmo as melhores intenções das pessoas. É algo que sente particularmente como mulher. E que admite sentir apesar de se ter tornado uma das vozes mais destacadas ao falar de positividade corporal. “Sabemos que devemos amar o nosso corpo, mas ainda queremos perder peso, depilar-nos, fazer aquele tratamento anticelulite e perder o queixo duplo”, confessa.

“A razão para tal”, acredita, “é porque ainda não assumimos a propriedade de nossos corpos. Fomos condicionadas a acreditar que não nos pertence. Ainda acreditamos que existimos como ativos para a sociedade e quando temos um dia em que não nos sentimos bem com o nosso corpo, ou que não estamos a cumprir um determinado padrão, achamos que estamos a desiludir os outros”.

Este conceito de “propriedade” do próprio corpo é-lhe bastante caro. Foi o que fez com que a dada altura percebesse que não seria uma cirurgia a mudar a forma como se via.

“Quando tinha 23 anos, cheguei finalmente à conclusão de que, para amar o meu corpo, eu precisava de retomar essa propriedade. Demorou anos de educação e a ‘desaprender’ ativamente todos os pensamentos terríveis que tive sobre mim, mas finalmente cheguei a um ponto na minha vida onde me sinto confortável na maior parte do tempo. E isso é incrivelmente libertador.”

Esse espírito de libertador é algo que promove ativamente entre quem a segue online. Celulites, gordurinhas olheiras, pelos, todo esse tipo de preocupações são elementos que vai assumindo na sua vida. A ideia não é impor algo às pessoas. É mesmo quebrar o peso do culto da beleza, com os seus elementos mais “insidiosos”.

Em certos casos fê-lo de uma forma que chamou a atenção muito para lá dos seus seguidores. Em janeiro deste ano uma fotografia sua tornou-se viral. Surgia de lingerie enquanto usava penso higiénico. Assumia de frente a polémica.

“O que há neste post de tão mais provocador? É exibir uma função corporal que nos ensinam que só deve ser privada? Pergunte a si mesma por que razão é OK verem-me aderir aos tradicionais papéis de género, com uma lingerie bonita, mas não quando o meu ciclo menstrual está envolvido? Por que é que,  uma realidade comum para tantos de nós, deveria ser privada?”, questionava.

Não foi a única fez que chamou a atenção da imprensa mais tradicional. Há dois anos já fora notícia a contar como audições para uma sessão de modelo envolveram que tirasse fotografias suas aos pelos púbicos em pleno passeio de autocarro. “Felizmente não havia ninguém do banco de trás e ninguém viu, mas oh meu Deus”, recordou ao “Daily Mail”.

O tal casting não foi bem sucedido mas serviu para que os pelos mais íntimos também passassem a ser um dos temas que procurou desmistificar na sua vida pessoal e entre os seus seguidores.

Contra os chavões, contra as etiquetas, contra os padrões de beleza muitas vezes irreais, Jessica tem-se tornado uma das figuras de maior destaque de uma tendência que começamos a ver cada vez mais e que a cada vez mais marcas têm aderido: a realidade funciona melhor do que a perfeição. Precisamente porque é real.

De adolescente ansiosa com o seu peso tornou-se modelo onde assume as suas curvas. Ela própria admite ter os seus dais maus com o próprio corpo. Mas a tal lição que demorou a ensinar a si própria mantém-se. Leva-a em campanhas, para um programa sobre o tema no Channel 4, da televisão britânica e para as redes sociais, onde já foi nomeada influencer de beleza do ano pela “Cosmopolitan”. Foi quando tinha 130 mil seguidores, há pouco mais de dois anos. São mais de meio milhão agora.

É a eles a quem deixa o seu conselho: “reconheça o privilégio de ter um corpo que funciona e faça tudo o que pode para mantê-lo vivo. Eduque-se sobre a indústria das dietas e o culto da beleza. Aprenda como essas coisas funcionam, para que compreenda melhor como foi manipulada”.

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