Saúde

Decidiu pedalar 500 quilómetros até ao hospital que o salvou — e juntou um pelotão de 12

Carlos Plácido fez um transplante pulmonar e sonhou que ia a uma consulta de rotina de bicicleta. Na semana passada concretizou o feito.
O percurso foi feito em três dias e meio.

Cinco anos depois de um transplante pulmonar que lhe salvou a vida, Carlos Plácido cumpriu, literalmente, um sonho que tinha desde junho de 2023. Pedalou 500 quilómetros entre  Viana do Castelo (cidade onde reside) e o Hospital de Santa Marta, em Lisboa, onde tinha realizado a cirurgia. 

Escolheu este meio de locomoção porque foi com ele que começou a praticar exercício físico fazer depois da operação. “Os médicos aconselham todos os doentes a que depois do transplante se exercitem, porque é muito importante estimular os novos pulmões a trabalhar. Na altura comprei uma bicicleta elétrica, porque tem sempre de ter em conta as nossas limitações, e comecei a fazer alguns percursos com amigos”, começa por contar à NiT.

Ainda que a prática fosse pouca, traçou este objetivo no verão passado. Um dia, quando estava prestes a ir à próxima consulta de rotina, que realiza a cada três meses para garantir que o corpo não rejeita o novo órgão, sonhou que ia fazer o caminho até à capital de bicicleta.

Quando acordou contou à mulher, que acabou por perguntar se a viagem tinha corrido bem, em tom de brincadeira. Depressa respondeu que não, mas ia acabar por acontecer. Nesse momento, Carlos decidiu que ia pedalar até Lisboa e foi para isso que começou a treinar.

O carpinteiro de 51 anos descobriu que estava doente em 2012 e ainda nesse ano acabou por lhe ser diagnosticada esclerose sistémica, uma condição que fazia com que tivesse muitas dores por todo o corpo e também falta de ar. “Num dia doíam-me os ossos, na semana a seguir já eram as costas. Passado algum tempo eram as pontas dos dedos — devido ao frio — e tinha de utilizar luvas para ser mais suportável. Chegou uma altura em que eram os pulmões que já não eram capazes de se expandir e por isso faziam uma grande pressão que quase me impedia de respirar.”

A doença veio dificultar o seu dia a dia: nos últimos meses antes de realizar um transplante pulmonar (a 7 de novembro de 2019), já não se conseguia vestir sozinho, fazer qualquer atividade que envolvesse esforço físico, nem caminhar mais de cinco metros sem ter de parar para descansar. Ainda assim, a cirurgia que realizou em Lisboa, no Hospital de Santa Marta (o único no País que faz o procedimento), acabou por devolver-lhe muita qualidade de vida.

Demorou cerca de oito horas, tendo começado de madrugada, pelas 00h30. “Só acaba por fazer a operação quem precisa realmente dela, e eu precisava. A doença avançava de forma muito progressiva nos últimos tempos e, portanto, a médica acabou por me colocar na lista de espera para realizar o transplante.”

Esperou cerca de oito meses, um processo que considera ter sido relativamente rápido, tendo em conta o panorama nacional das listas de espera. Seguiu-se uma longa caminhada: Carlos tinha uma recuperação difícil pela frente.

“Acordar e estar ligado a um ventilador para conseguir respirar mexe com qualquer um. No fundo, temos de ter uma máquina a fazer por nós aquilo que devíamos conseguir sozinhos, mas não conseguimos. Ainda que tenha havido um grande processo de acompanhamento, antes e depois, uma vez que existem consultas com psicólogos e assistentes sociais que nos alertam para tudo o que nos vai acontecer, não é assim tão fácil meter na prática a teoria que eles nos ensinaram.”

Para o mentalizar, a médica costumava dizer-lhe que a recuperação de um transplante era tão difícil como a de um atropelamento, mas apesar de todas as dificuldades que Carlos acabou por sentir, admite que teve alguma sorte. “Há pessoas que ficam internadas meses a fio. Eu estive cerca de dois e meio e, na altura do Natal, deixaram-me ir passar uns dias a casa, portanto, as coisas correram sempre relativamente bem.”

Em janeiro já ficou alojado na unidade hoteleira situada em frente do hospital, com o qual existe uma parceria para libertar camas para outros doentes. Os transplantados passam o dia e fazem as refeições no hospital, mas depois dormem no hotel.

Passado mais de um ano, conseguiu cumprir o objetivo a que se tinha proposto. Chegou à consulta de dia 7 de junho de bicicleta. A que o acompanhou foi aquela que tinha comprado inicialmente, mas o facto de ser elétrica não tornou o percurso fácil. “Não tem muita autonomia nem força, portanto deu o mínimo de auxílio necessário, estava quase sempre com o motor desligado.”

Inicialmente convidou um amigo seu que também tinha sido transplantado, mas aquilo era um sonho solitário, depressa se tornou em algo maior. No total, acabaram por ser 13 ciclistas a completar o percurso delineado, um deles com 78 anos e tendo ultrapassado um problema oncológico.

Percorreram quase 500 quilómetros em três dias e meio. Os elementos do pelotão, que inicialmente não se conheciam — apenas tinham Carlos em comum — acabaram por desenvolver uma grande ligação e vivenciaram algo que acreditam que dificilmente se voltará a repetir.

Partiram de Viana do Castelo até Aveiro, a 3 de junho, e percorreram 164 quilómetros. No dia seguinte, e depois de 134 quilómetros, chegaram até Leiria. A seguir, rumaram até Torres Vedras, fazendo mais 109 quilómetros, e por fim, já no dia 6, chegaram ao Hospital de Santa Marta, em Lisboa, por volta das onze e meia da manhã.

Chegaram cedo, mas valeu a pena. Foram recebidos por uma enorme comitiva, da a direção do hospital, à equipa médica que tinha transplantado Carlos, bem como familiares e amigos dos atletas.

“A chegada foi o momento mais emocionante. Toda a gente chorava, foi arrepiante. Outra das coisas que mexeu muito connosco foi o facto de termos entrado em Lisboa acompanhados por duas motas da Polícia de Segurança Pública com as sirenes ligadas, que nos acompanharam durante todo o percurso na capital. Esta era a etapa que mais receava, devido à agitação característica da capital, então contactei a PSP. Além de delinearem o melhor trajeto também se encarregaram nos escoltar”, descreve.

A emoção estendeu-se a todo o hospital. “Na sexta, quando estava efetivamente na consulta, a médica estava encantada com tudo o que tínhamos ali vivenciado. Andava pelos corredores e os enfermeiros diziam-me que tinham visto tudo através das janelas. Foi muito gratificante.”

A iniciativa teve como padrinho Rui Sousa, um ex-ciclista que se quis juntar e também fez todo o percurso. Ainda assim, quem não esteve presente foi conseguindo acompanhar a viagem através dos diretos no Facebook que Carlos ia fazendo.

“Só foi possível concretizar este objetivo graças a todos os apoios que tivemos, não gastamos dinheiro nenhum. Os restaurantes em que almoçamos ofereceram-nos as refeições, os locais onde dormimos vieram de patrocínios e o mesmo aconteceu com os fatos que levámos. As câmaras ajudaram-nos muito e a Associação de Transplantados foi imprescindível, esteve sempre connosco e encarregou-se de toda a logística. Estou muito feliz, esta foi a minha forma de agradecer a todos os médicos aquilo que fizeram por mim.”

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