Quando tinham apenas 9 e 15 anos, Jordan e Cian Adams passaram a cuidar da mãe que tinha sido diagnosticada com demência, em vez de brincarem com os amigos. Hoje, continuam a lutar contra essa doença de uma forma original: estão a atravessar a Irlanda a correr 32 maratonas em 32 dias. A odisseia começou na quarta-feira passada, 29 de abril. O objetivo é sensibilizar a população daquele país — e do resto do mundo — para este tema.
A história começou em 2010, quando a mãe, Geraldine, foi diagnosticada com demência frontotemporal, doença que causa a perda progressiva de neurónios nos lobos frontal e temporal do cérebro. Apesar de só ter 47 anos na altura, a sua rotina mudou completamente de um dia para o outro.
“De repente, tornámo-nos cuidadores da nossa mãe”, explicam os irmãos, citados pelo jornal “France 24”. Geraldine acabaria por morrer em 2016.
A responsabilidade dentro de casa não ficou apenas pelos filhos. Durante esses anos, foi também o pai quem assumiu grande parte dos cuidados. “Entre 2010 e 2016, cuidámos da nossa mãe em casa, com o meu pai a assumir grande parte dessa responsabilidade”, contou Jordan à BBC.
Ainda assim, com o pai fora, o peso recaía muitas vezes sobre os filhos. “Senti que a responsabilidade de cuidar da minha mãe acabou por cair sobre mim, para garantir que ela estava segura em casa”, recordou.
Dois anos mais tarde, Jordan, hoje com 30 anos, recebeu o diagnóstico que já temia: é portador da mutação genética associada à doença, com uma probabilidade de 99,9 por cento de desenvolvê-la. O irmão mais novo, Cian, de 25, testou positivo pouco depois.
“Partilhamos o mesmo diagnóstico e o mesmo futuro”, acrescentou Jordan à Agência France-Press (AFP).
A partir daí, a forma de lidar com o inevitável passou pela ação. No passado fim de semana, Jordan correu a maratona de Londres com um frigorífico de 25 quilos às costas: uma metáfora para o peso que carrega. “Foi surreal, mas era importante tornar esta doença visível”, explicou à mesma fonte.
Agora, o desafio é ainda maior: correr uma maratona por dia, durante 32 dias, em todos os condados da Irlanda. São mais de 1.200 quilómetros, com chegada prevista a Dublin a 28 de maio. Cian acompanha-o de bicicleta na maior parte do percurso, ajudando na logística e na recuperação física.
A escolha do país não foi por acaso. “Queríamos vir à Irlanda, onde toda esta devastação começou, para homenagear os nossos familiares”, disse Jordan. A doença já matou mais de uma dezena de membros da família, incluindo a mãe, a avó e uma tia. “O que torna esta doença ainda mais cruel é isso mesmo”.
Ver esta publicação no Instagram
Apesar da dureza da história, há um objetivo claro: angariar um milhão de libras (cerca de 1,150 milhões de euros) para investigação e apoio a doentes. Parte do valor será entregue à Alzheimer Society of Ireland, que acompanha milhares de pacientes naquele país.
“Esta missão continua, assim como a devastação que a demência está a causar na nossa família, passo a passo”, disse Jordan à multidão que o foi apoiar no arranque da prova, em Donegal.
Os dois irmãos já participaram em várias corridas no Reino Unido. Jordan conseguiu ainda a proeza de completar sete maratonas em apenas sete dias. Porém, desta vez, o desafio é muitíssimo mais exigente.
“Temos trabalhado durante seis meses, com treino de força e corrida. Para já, as pernas dele estão a aguentar bem”, contou Cian, que também é fisioterapeuta, à AFP.
Mais do que o esforço físico, é a urgência que move estes dois irmãos. Os sintomas deste tipo específico de demência costumam surgir por volta dos 40 anos e progridem rapidamente.
Entre cada quilómetro, há uma história que se repete: pessoas que param, perguntam e acabam por ouvir. É precisamente isso que os irmãos querem: tornar visível uma doença que muitas vezes passa despercebida.
Para conhecer melhor o projeto e a história dos irmãos pode visitar a sua página de Instagram.









