O mais recente desafio a circular no TikTok está longe de ser inofensivo e já preocupa profissionais de saúde um pouco por todo o mundo. Chama-se Benadryl Challenge e incentiva jovens, sobretudo adolescentes, a ingerirem doses elevadas de anti-histamínicos com o objetivo de provocar alucinações. A tendência ganhou expressão nos Estados Unidos, onde já foi associada a vários internamentos hospitalares e até mortes.
“Vulgarizou-se muito nas redes sociais e vai ao encontro dos desafios dos jovens perante o efeito de um fármaco”, explica o médico de clínica geral António Hipólito de Aguiar à NiT. No centro deste fenómeno está a difenidramina, uma substância presente em medicamentos usados para tratar alergias, mas que também pode ter efeitos sedativos.
Nos EUA, é vendida com facilidade em comprimidos como o Benadryl. Já em Portugal, esta substância surge em medicamentos como Zyrtec, Nytol, Vomidrine, Cêgripe, Griponal e Ben-u-gripe.
O problema, como acontece com todos os fármacos, começa quando são consumidos muito acima das doses recomendadas. “Fazem-no para terem as tais alucinações, mas depois da confusão mental podem ter de ir para o hospital e o batimento cardíaco começa a subir”, alerta o especialista.
Este sintoma pode desencadear complicações graves. “Pode levar a arritmia, em que o coração não bate a um ritmo constante”, explica. Há ainda consequências que podem ser mais dramáticas. “Dá convulsões e, em situações extremas, pode levar a coma com falência de órgãos e morte.”
O estado de alucinação, segundo explica António Hipólito de Aguiar, resulta de uma disfunção do organismo. “Quando nós temos uma reação de resposta a um agente agressor do nosso corpo, nós produzimos naturalmente anti-histamínicos. Quando tomamos muitos, estamos basicamente a atuar sobre histamínicos que já não existem.”
Como o corpo já não precisa daquele bloqueio, o excesso de medicação acaba por interferir com outros sistemas. “Vão atuar sobre outros recetores do nosso corpo e vão provocar sonolência ou dormência, porque são os efeitos secundários que estes medicamentos têm. Vão atuar noutras partes da consciência.”
Nos Estados Unidos, este comportamento já teve consequências reais. Autoridades de saúde reportaram vários casos de jovens hospitalizados após ingerirem grandes quantidades de difenidramina, alguns dos quais evoluíram para situações críticas, incluindo paragens cardíacas e falência multiorgânica. Há também relatos de mortes associadas a este desafio, o que levou a entidade reguladora norte-americana a emitir avisos públicos sobre os riscos.
Em Portugal, para já, não há registos oficiais de casos ligados diretamente a esta tendência. Ainda assim, a preocupação mantém-se, até porque existem vários medicamentos acessíveis que podem ser utilizados de forma semelhante. Os antigripais como o Cêgripe acarretam outro grande problema: a dosagem de paracetamol.
Mesmo quando não resultam em situações de emergência, estes comportamentos podem ter impacto a médio prazo. “À partida, todos estes medicamentos são de atuação em fenómenos agudos”, explica. “Progressivamente, o que vai acontecendo é que as pessoas vão ficar com menos sensibilidade à atuação do fármaco.” Isso significa que, no futuro, podem deixar de responder de forma eficaz quando realmente precisam deles.
Leia o artigo da NiT para conhecer o desafio do Paracetamol que também está a preocupar os pais.

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