Saúde

Desejo sexual reduzido, amnésia e queda de cabelo são efeitos da Covid-19 longa

O estudo indica ainda que mulheres, jovens, negros e pessoas de minorias étnicas tendem a contrair estes sintomas mais facilmente.
Foi publicado na "Nature Medicine".

Só em Portugal, desde que a pandemia começou, confirmaram-se 5,3 milhões de infeções por Covid-19. Será difícil, portanto, encontrar alguém que não conheça os principais sintomas da doença, entre os quais se destacam a perda de olfato e paladar, a fadiga, a febre e as irritações cutâneas.

Menos comuns, contudo, são os efeitos prolongados do vírus, que só agora começam a ser revelados. As notícias não são as mais animadoras. De acordo com um estudo publicado a 21 de julho na revista médica “Nature Medicine”, as pessoas com Covid-19 longa apresentam uma variedade de sintomas “extremamente ampla”, que vão de queda de cabelo a alucinações, desejo sexual reduzido, amnésia e incapacidade de executar instruções ou movimentos familiares.

A investigação, citada pela “CNN Portugal”, analisou uma amostra de 2,4 milhões de britânicos, entre janeiro de 2020 e abril de 2021. Destes, 486.141 inquiridos já tinham sido infetados e 1,9 milhões nunca tinham testado positivo. O primeiro grupo reportou 62 sintomas com muito mais frequência do que aquele que não tinha contraído o vírus.

“Esta investigação valida o que os pacientes têm vindo a dizer aos profissionais de saúde e aos políticos ao longo da pandemia — que os sintomas da Covid-19 longa são extremamente amplos e que não podem ser totalmente justificados por outros fatores de risco, como o estilo de vida ou condições de saúde crónicas”, comentou um dos autores do artigo, Shamil Haroon, em declarações ao “The Guardian”.

A análise também concluiu que mulheres, jovens, negros e pessoas de minorias étnicas têm maior tendência para a contração destes sintomas, assim como os fumadores, indivíduos com excesso de peso ou obesidade e em situação de vulnerabilidade económica.

Anuradhaa Subramanian, outra das especialistas envolvidas na pesquisa, explicou que a análise dos sintomas reportados e dos grupos estudados é de “particular interesse, porque nos ajuda a perceber o que poderá causar ou contribuir para esta forma da doença”.

“As mulheres, por exemplo, têm mais tendência a experienciar doenças autoimunes. Verificar esta probabilidade elevada das mulheres desenvolverem Covid-19 longa aumenta o nosso interesse em investigar se a autoimunidade ou outras causas poderão explicar o maior risco nas mulheres”, acrescentou, antes de concluir que as observações vão contribuir para “estreitar ainda mais o foco nos fatores que poderão estar a causar estes sintomas persistentes depois de uma infeção” e a “ajudar os pacientes que os estão a experienciar”.

À “CNN Portugal”, o médico de saúde pública Bernardo Gomes disse que o estudo vem reafirmar que “não é com ligeireza que devemos encarar as infeções e reinfeções”. Destacou, igualmente, que apesar de sintomas prolongados e diferentes padrões de suscetibilidade se verificarem noutros tipos de doença, no que respeita à Covid-19, estamos perante “algo extremamente relevante, em termos populacionais”, uma vez que “nunca antes tivemos infeções em tão larga escala”.

“Portugal está no chamado período interepidémico, mas isso não quer dizer que não nos tenhamos de prevenir e preparar os próximos capítulos, da forma menos comprometedora possível em termos sociais”, completa. Tomar consciência de que “a pandemia não acabou, continua, e vamos ter novas ondas”, além de “evitar a infeção e a reinfeção” e respeitar as recomendações das autoridades de saúde e as medidas individuais de proteção, são formas de prevenção.

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