Saúde

“Desisto ou não desisto deste?”: médico relata dura realidade da Covid-19 nos hospitais

Gustavo Carona continua a usar as suas redes sociais para aquilo que se passa no setor da saúde no nosso País.
O médico pede que comuniquemos pela saúde de todos.

Gustavo Carona, que trabalha no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, tem vindo a ser confrontado com duas realidades paralelas: aquilo que se passa no hospital, “que é catastrófico”, e a mensagem que não estava a chegar à cabeça das pessoas. O médico de 39 anos tem utilizado as suas redes sociais para mudar isso e as suas mais recentes publicações transparecem a dura realidade da pandemia em Portugal.

Estávamos em novembro do ano passado quando, em entrevista à NiT, sem rodeios, disse “que vamos estar a gerir uma catástrofe muito maior do que aquilo que foi visto em Itália e em Espanha, na primeira vaga”. Na altura, foi mais longe e admitiu que, numa situação dessas, “há muita gente que vai morrer — e isto tem de se explicar com esta frieza”.

O ano mudou, mas a pandemia não — e o seu maior receio tornou-se real. “Desisto ou não desisto deste”, começa por escrever numa publicação na sua página de Facebook a 14 de janeiro.

“Começamos o dia sem vagas nos Cuidados Intensivos. Talvez consigamos dar duas altas, mas temos dois doentes Covid a agravar no internamento e que precisam de Cuidados Intensivos. Temos dois doentes oncológicos que precisam de ser operados, são cirurgias prioritárias, mas não urgentes. Temos chamadas de outros hospitais para nos transferirem doentes que são nossos, e nós temos também doentes para transferir que são de outros hospitais, e a resposta dos dois lados é a mesma: ‘Não temos vagas’”. pode ler-se. 

O médico intensivista e anestesista revela que já não se consegue disfarçar a angústia há muito tempo. “Queremos salvar todos. Regemos as nossas decisões por princípios éticos bem definidos. Ajuda ter documentos que nos orientam, mas estes não nos protegem de dilacerar o coração ao olhar os doentes nos olhos sem saber se os vamos poder tentar salvar.”

Neste mesmo texto, o profissional de saúde dá o exemplo de naquele dia tinham um doente previamente saudável com 40 e tal anos, que admitem ter uma probabilidade de sobrevida inferior a 10 por cento por complicações abdominais, e que pode precisar de largos meses de Cuidados Intensivos. “A razão talvez nos diga para ‘desligar as máquinas’ e que por acaso são muitas, mas é marido, é pai e é filho. Tentar salvá-lo é provavelmente em vão na nossa leitura clínica multidisciplinar, e poderia dar lugar a muitas vidas de diferentes patologias que não estamos a conseguir tratar. É angustiante esta decisão.”

Aquele era também o dia de Gustavo ser o responsável máximo da gestão destas angústias de decisões de vidas e de mortes. No entanto, um telefonema a meio da tarde dava conta de que o seu último teste à Covid-19 veio com resultado positivo.

“Tinha acordado com alguns sintomas e mais por descargo de consciência decidi fazer o teste, com a certeza de quem quer muito acreditar que viria negativo. Mas a ciência não mente, e da angústia passei à tristeza de ter que baixar os braços, e passar a angústia das decisões difíceis do dia, a outra colega”, descreve.

A infeção obriga-o a ficar, como diz, “fora de combate” durante, pelo menos, dez dias. O que lhe custa, confessa, é sobrecarregar a minha equipa que está exausta e a fazer das tripas coração para salvar todos os que podem.

O “confinamento light” e a importância de comunicar

Um dia depois, um novo desabafo, que foi partilhado centenas de vezes. “Um confinamento ‘light’ em que as pessoas afinal parece que podem fazer tudo, é obviamente menos eficaz, e será dolorosamente mais lento, mais duradouro, e mais penoso”, pode ler-se.

Gustavo Carona destaca que isso vai fazer com que as atividades económicas mais prejudicadas, como restaurantes, cultura e ginásios, fiquem a sofrer mais tempo. “É preciso um confinamento mais rigoroso, para que seja mais curto e mais eficaz”, diz, à semelhança do que a Ordem dos Médicos defendeu numa nota publicada esta segunda-feira, 18 de janeiro.

Ao longo dos últimos meses, o médico do Hospital Pedro Hispano tem vindo a referir que a comunicação é uma das chaves mais importantes da pandemia. Em novembro, na mesma entrevista à NiT, dizia inclusive que é hora de os influencers usarem a sua exposição nesta altura, algo que volta a reforçar também esta segunda-feira.

Aqui é uma mistura de muita, muita coisa diferente. Mas têm que regressar ao momento em que fica bem claro, que já não é tempo para fazer publicidade de roupa. É obrigatório informar as pessoas. Têm que usar a sua super visibilidade, não para serem vistos ou ouvidos, mas para replicar as posições e recomendações oficiais e dos peritos. É imperativo que percebam isso. Tem que haver espaço para entretenimento e ouvir o Bruno Nogueira e ver Netflix e tudo mais, mas é vital que se use uma grande parte do nosso tempo a ser informados e a informar com informação válida.”

O profissional de saúde relembra que comunicar em tempos de crise salva muitas vidas. “Comuniquem pela saúde de todos”, apela Carona.

Comunicar em tempos de CriseTenho andado bastante à volta desta questão. Claro que é de uma enorme complexidade e…

Posted by Gustavo Carona – Humanitarian Doctor on Monday, January 18, 2021

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT