Saúde

Dina Galho teve de reconstruir a vagina aos 13 anos. Hoje, é um exemplo de vida

A história da jovem de 24 anos é um dos grandes destaques da exposição +MULHER, em Oeiras.
Dina viveu dois anos complicados

Tinha apenas 13 anos quando foi submetida à primeira cirurgia. Entrou no bloco a cantar, com o mesmo espírito que carregava quando finalmente teve alta. Agora, 11 anos depois, Dina Galho carrega também as marcas no corpo dessa luta precoce.

“São marcas que mostram que sou uma mulher que lutou. Representam-me”, conta à NiT, sobre o passado e sobre o presente, ela que é uma das dez mulheres em destaque na exposição do projeto +MULHER.

As marcas, exibe-as numa sessão em lingerie, a convite da fotógrafa Dai Moraes, que está por detrás do projeto que procura contar histórias de vida que inspirem outras tantas mulheres em situações semelhantes. Estas fotografias estão acompanhadas por entrevistas em vídeo realizadas pela produtora Janela Discreta. A sessão está em exposição desde o dia 17 de setembro na Fábrica da Pólvora, em Barcarena, no concelho de Oeiras.

“O convite surgiu porque uma amiga minha trabalhava com a Dai, fui lá fazer umas fotos e ela ficou a conhecer a minha história”, recorda. “Disse logo que sim, porque acho importante que nós, mulheres que passaram por situações complicadas, mostremos que é possível ultrapassar todas as dificuldades.”

Dina nasceu em Angola e chegou a Portugal em 2008, acompanhada pelos pais. Tinha 13 anos quando uma dor na bexiga a levou às urgências. Os exames mostravam um cenário curioso. “Disseram-me que tinha muito sangue acumulado no útero. Estava a ter a minha primeira menstruação”, recorda.

Dias mais tarde, a ginecologista explicou-lhe que “tinha a vagina fechada”, que estaria a impedir a saída do sangue. “Nunca ninguém detetou nada desde a nascença. Fui várias vezes ao hospital”, conta. “Explicaram-me que implicaria uma cirurgia pequena, que seria fácil e que tudo ia correr bem.” Não correu.

Durante a cirurgia, surgiram dois problemas. Desde logo, uma perfuração do intestino grosso, que a obrigaria a ter que carregar consigo um saco de colostomia; e surgia a necessidade de ter que reconstruir a vagina para poder ter uma vida normal.

“Tive que ficar três meses com o intestino aberto para o exterior e usar o saco”, recorda. A cirurgia de reconstrução também não podia ser feita imediatamente. Era complexa, poucos a tinham feito em Portugal e havia necessidade de recorrer a um médico estrangeiro para resolver o problema.

Entretanto, Dina quis tentar levar a vida como sempre. “Graças a Deus, os meus colegas de escola foram sempre compreensivos, entenderam tudo e nunca ninguém me julgou.”

Só que por muita vontade que tivesse, as constantes perdas de sangue, a colostomia e o cansaço levaram a melhor. “Ficava muito cansada, desmaiava e acabei por deixar de ir à escola. Fiquei em casa a recuperar.”

Quatro meses depois, marcava cirurgia com um médico alemão que viera de propósito a Portugal. Temia-se uma cirurgia longa, complicada, “nunca menos de 12 horas”. “Na operação, foi reconstruída a vagina, o intestino foi recolocado no lugar e ainda tirou um quisto. Foi um sucesso. Demorou apenas quatro ou cinco horas.”

Não foi a única boa notícia. Perceberam, então, que os órgãos reprodutores de Dina estavam a funcionar normalmente, o útero, os ovários, tudo o que lhe permitiria, no futuro, ser mãe. “Claro que se engravidar, terei que fazer uma cesariana. É a única questão.”

Havia, porém, um último obstáculo. Durante dois anos, teve que usar um pequeno molde na vagina, para “impedir que ela fechasse”. “Não era nada confortável, sobretudo para uma miúda de 13 anos. Só o tirava para ir à casa de banho. Até dormia com ele”, conta. Um dia, fartou-se e deitou-o fora. “Disse à médica que o tinha perdido na sanita (risos).”

Felizmente, não teve qualquer impacto na recuperação. Hoje, Dina mantém-se otimista, como já estava na altura. “Levei e levo sempre a vida de forma feliz, positiva. Sempre soube que ia ficar bem.”

Traz consigo as marcas, como prova. Uma cicatriz do intestino, outra junto ao útero. “Nunca deixei que me fizessem sentir desconfortável”, sublinha. Também por isso aceitou vestir lingerie e juntar-se às outras nove mulheres, numa missão que considera importante.

“Acho que podemos ajudar mulheres em situações semelhantes, que tenham medo de falar, de se mostrar. É algo íntimo e eu, no início, também tive esse receio. Mas percebi que tinha que falar, porque venci. Não podemos é desistir.”

Carregue na galeria para mais imagens da produção fotográfica realizada por Dai Moraes.

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