Saúde

Do vitiligo à doença de Crohn. Todos os dias são uma luta para Tatiana

Sempre viveu com a doença de pele e desde há três anos que se adaptou à doença intestinal. Hoje é um exemplo para outras mulheres no projeto +MULHER.
Tem 30 anos e sofre de vitiligo e doença de Crohn

A mãe também. As primas também. Todo o lado materno da família sofre da doença de vitiligo e, quando nasceu, Tatiana Chaves apresentava as mesmas manchas que foram crescendo consigo. O facto de a acompanharem desde que se lembra não tornaram a vida mais fácil.

“Lembro-me que, quando era mais nova, foi um bocado complicado. Evitava mostrar as manchas”, recorda à NiT a aveirense de 30 anos. “Tenho vários momentos gravados na memória. As crianças conseguem dizer coisas más, mesmo que não tenham noção do que dizem.”

Agora, mostra-as com orgulho. E desta vez perante a câmara de Dai Moraes, a fotógrafa por detrás do projeto +MULHER. Tatiana aceitou protagonizar uma sessão boudoir, em lingerie, para servir de inspiração a outras tantas mulheres em situações semelhantes às sua. Estas fotografias estão acompanhadas por entrevistas em vídeo realizadas pela produtora Janela Discreta. A sessão está em exposição desde o dia 17 de setembro na Fábrica da Pólvora, em Barcarena, no concelho de Oeiras.

“Fiquei um bocadinho reticente no momento de decidir se devia ou não participar, ao lado de outras mulheres que têm realmente grandes problemas na vida, que são grandes exemplos de superação. Não sabia se fazia sentido participar”, conta. Acabaria por dizer que sim e juntar-se ao elenco de dez mulheres.

Apesar dos problemas de infância em lidar com o vitiligo — uma doença da pele que provoca despigmentações —, Tatiana assume que foi começando “a ter mais amor próprio” e a aceitar-se tal qual como era. Hoje, não se vê sem as manchas.

A pequena mancha na cabeça, que provoca também a despigmentação no cabelo, fez-lhe nascer uma madeixa característica que hoje abraça. Nunca ponderou pintar o cabelo. “Nunca tive coragem e ainda bem, porque o cabelo cada vez fica mais bonito. Se o tivesse pintado, nunca poderia dizer que tinha cabelo natural.” Mantém a mesma filosofia quanto às manchas. Apesar de existirem tratamentos e cremes que atenuam a despigmentação, sempre os recusou.

Em 2015, surge um percalço inesperado. Os problemas intestinais começaram a dar os primeiros sinais, mas abrandaram inesperadamente, até que quatro anos depois, Tatiana começou a ver a sua qualidade de vida abalada.

“Tinha perdas de sangue, ia muitas vezes à casa de banho, tinha a barriga inchada, sofria de um desconforto total, muito cansaço”, recorda. Um novo exame ditou o diagnóstico: sofria de doença de Crohn, uma doença inflamatória intestinal crónica.

No pior dia, teve que correr para a casa de banho por 14 vezes. “Afetava a minha vida da pior forma possível. É muito desgastante, física e psicologicamente”, recorda. O diagnóstico mudou tudo e ajudou a criar, finalmente, uma estratégia para atenuar os efeitos da doença.

Em conjunto com os médicos, desenhou uma dieta rigorosa que eliminava os alimentos que potenciavam os efeitos indesejáveis. “Cada pessoa tem os seus pontos fracos. No meu caso, deixei de ingerir glúten, lactose, carne de porco, couves, coisas muito ácidas ou muito verdes”, explica. “Parece pouco, mas quando se começa a ir ao supermercado e ver os ingredientes, percebe-se que quase tudo tem glúten ou lactose — ou ambos. É uma luta constante.”

A dieta funcionou em pleno, aliada a uma medicação que precisou de alguns acertos, até finalmente permitir que Tatiana vivesse uma vida normal, sem os tormentos provocados pelo desconforto e constantes idas à casa de banho. “Senti-me uma pessoa completamente normal. Voltei a ter qualidade de vida.”

Por enquanto, a doença de Crohn não tem cura, o que significa que terá que viver o resto da vida com todos estes cuidados. Isso não significa que não haja momentos mais complicados. “Ninguém é de ferro, há sempre tentação de comer algo que não se pode, mas penso sempre nas consequências. Sei pelo que já passei e não vou desperdiçar isso por uma coisa mínima.”

Agradece também o facto de não sofrer com os efeitos mais nefastos da doença, que podem obrigar a cirurgias e a colostomias. “Podia ser pior. É uma gratidão imensa”, nota.

Sobre a exposição, frisa a importância de “fazer saber a outras mulheres que não estão sozinhas”. “É importante que partilhemos as nossa histórias. Dar a conhecer ao mundo que somos bonitas da forma que somos.”

Carregue na galeria para ver mais imagens da sessão fotográfica de Tatiana Chaves.

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