Saúde

É médica há 28 anos e está em greve há 108 dias. “O SNS está doente”

Maria João Tiago está cansada da "desvalorização" da profissão. "Ninguém consegue trabalhar assim, muito menos com salários irrisórios."
Os médicos estão em negociações há meses.

Maria João Tiago, médica de família no centro de saúde de São João da Talha. A clínica de 53 anos faz parte das centenas de profissionais que estão a fazer greve às horas extras e explicou à NiT como é viver na dualidade de “lutar pela valorização da profissão” e de assistir ao impacto que essas decisões têm na vida dos portugueses.

Os médicos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) têm de cumprir 150 horas suplementares obrigatórias, mas a maioria excede largamente esta imposição. Ou seja, fazem ainda mais horas, sobretudo os que fazem serviço de urgência — e esta é um dos principais motivos do protesto.

A paralisação às horas extra em todos os serviços e estabelecimentos de cuidados de saúde primários foi convocada a 24 de julho e prolongada até 24 de novembro. Contas feitas (até esta quinta-feira, 9 de novembro), dura há 108 dias.

Os profissionais de saúde exigem a apresentação de uma proposta de grelha salarial “que reponha a carreira das perdas acumuladas e que posicione com honra e justiça toda a classe médica na tabela remuneratória única da função pública”. Maria João Tiago faz parte do grupo de clínicos que fez centenas de horas a mais e, por isso, aderiu à greve, logo quando esta foi anunciada.

Começou a dar consultas há quase três décadas. Já passou pelas unidades de Alvalade e Alameda, Alverca e agora, São João da Talha. Está cansada de não ver o trabalho reconhecido. O tempo que fica a trabalhar após acabar os turnos ou aos fins de semana, não está a ser contabilizado como teria sido combinado. E, embora as filhas já estejam “crescidas” e não já dependam tanto dela no dia a dia, reconhece que muitos colegas têm situações familiares diferentes da sua.

Temos muitos especialistas em burnout, exaustos. São demasiadas horas a tentar ajudar os pacientes, mas no final também precisamos de apoio. E isto, infelizmente, também prejudica o nosso trabalho”, admite.

Os períodos, que antigamente eram usados para atender urgências dos seus pacientes, estão agora ocupados com aqueles que não têm um médico de família. Em termos práticos, significa que os profissionais têm de estender os serviços para conseguir dar resposta a “quem precisa”. “Isto é culpa também do Governo, que não criou soluções para conseguir dar resposta à falta de pessoal no SNS”, refere Maria João Tiago.

Além do impacto que pode ter no atendimento a pacientes, tem também constrangimentos na rotina dos clínicos. “As consultas de urgência funcionam normalmente em pós-laboral, entre as 18 e as 22 horas, ou a meia-noite, durante a semana. E, depois, ao sábado e domingo. Além do cansaço, temos a vida completamente condicionada.”

A especialista em saúde geral e familiar admite que gostava de usar esse tempo para cuidar de si. “Adorava poder fazer exercício físico, ou tirar uma pós-graduação, por exemplo. Mas é impossível.”

As consequências da escolha

“A greve manifesta o desagrado dos médicos — o meu e de muitos colegas —, perante a contratualização que lhes foi imposta”, começa por explicar a especialista em saúde geral e familiar à NiT. E continua: “Inicialmente foi-lhes imposto que deveriam ver os utentes em hora extraordinárias e isso contaria no desempenho as unidades. Por outro lado, as condições praticadas não protegem a qualidade que os doentes merecem. Se em consulta perceber que uma pessoa tem um tumor, não tenho qualquer forma de o referenciar. Com as grávidas acontece o mesmo. A única forma de os ajudar é enviá-los para os serviços de urgência, que estão super carenciados”.

Consultas adiadas, blocos operatórios encerrados e transtorno para os utentes. É o impacto visível da paralisação dos médicos que afeta serviços hospitalares e centros de saúde de Norte a Sul do País e também nas ilhas. Maria João admite que lhe custa ver o quanto os pacientes são afetados com estas medidas.

Não gostámos de ver o estado em que o País se encontra. Saber que há serviços a fechar e pacientes sem acesso aos cuidados que precisam, é desesperante.” No entanto, sublinha que “as reivindicações são necessárias”, porque os profissionais estão esgotados física e mentalmente.

A médica sacode a responsabilidade para o lado do Governo, que deixou arrastar a situação e não se “preocupou em arranjar soluções”. “Estes problemas podiam estar resolvidos há oito anos. O Executivo sabia que isto podia chegar a este ponto, desde logo, porque o funcionamento das urgências é baseado nas horas extraordinárias. Há colegas com o equivalente a quatro meses de trabalho, só em tempo extra. Porém, durante muito tempo, ignoraram.”

O papel dos governantes

“É uma grande bola de neve que só se torna maior a cada dia que passa”, realça a clínica. Se 1,7 milhões de doentes não têm médico de família atribuído, quando ficam doentes só têm duas hipóteses: ou dirigem-se ao privado, ou a uma urgência no serviço público. Em alturas que as cargas virais são mais fortes, como nos meses frios (devido à gripe e aos vírus respiratórios) estes serviços acabam por ser a “única porta aberta”.

“Todos os centros de saúde têm programas e escalas pensadas para estas situações. Porém, neste momento não temos capacidade, dentro dos nossos horários de trabalho, de atender toda a gente. São necessárias soluções e as greves servem para fazer pressão para que estas surjam.”

Como alternativa, Maria João defende que é imperativo oferecer “melhores condições” aos médicos, para que se fixem no SNS. “Há muitas unidades sem materiais básicos e essenciais, que impossibilitam a tarefa de cuidar. Chove em alguns gabinetes, os computadores não funcionam. Ninguém consegue trabalhar assim, muito menos com salários irrisórios, tendo em conta a responsabilidade que temos nas mãos. E ainda uma carga horária absurda”, denuncia.

Os últimos acontecimentos podem ditar o fim destas paralisações. Com o pedido de demissão de António Costa, o futuro político do País está nas mãos do Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa pode marcar eleições antecipadas, ou convidar alguém do Partido Socialista (com maioria no Parlamento) a formar novo Governo.

A verificar-se o primeiro cenário, o Sindicato Independente dos Médicos (SIM) vai suspender a greve às horas extraordinárias nos centros de saúde. “Sem interlocutor, esta paralisação não faz sentido”, defende o secretário-geral Jorge Roque da Cunha.

Uma decisão que a profissional de saúde garante entender, mas apela a que “os médicos não sejam esquecidos”.

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