Saúde

Enfermeira portuguesa revela como é estar na linha da frente do combate à Covid

Uma profissional de um hospital de Lisboa e Vale do Tejo escreveu uma carta especial para os leitores da NiT.
Imagem meramente ilustrativa.

Olá, portugueses. Nove meses depois — escrevi-vos uma carta em março, quando a Covid-19 tinha acabado de chegar a Portugal —, estou aqui para falar convosco novamente. A menos de um mês do Natal e em plena segunda vaga desta pandemia que veio, sem pedir permissão, mudar as nossas vidas do avesso, paro um pouco para refletir como serão os próximos dias. 

A época mais aguardada do ano traz um misto de sentimentos. Por um lado, um profundo agradecimento pela saúde dos nossos, que se tem mantido nestes dias em que cada vez mais se valoriza a saúde. Mas, por outro lado, o medo pela incerteza do que os próximos dias nos vão trazer. 

Não podemos fazer planos a longo prazo, nem sequer a médio prazo. O melhor é mesmo viver um dia de cada vez. Apesar de parecer que a curva (dos números de casos de Covid por dia) está a querer muito discretamente abrandar, temos de ter plena consciência de que o futuro é incerto. 

Nos dias em que olho para o relatório diário da Direção-Geral da Saúde, ou que tenho disponibilidade para ver notícias, os meus olhos e os meus ouvidos saltam para a minha maior preocupação: o número de internados. Este número vai ditar o futuro de todos os que, tal como eu, têm o hospital como a sua segunda casa. É um tempo de incerteza, temos de estar sempre de prontidão, de mangas arregaçadas. 

De acordo com a realidade que vivo, acho que os hospitais têm estado a organizar-se bem, que temos estado a dar resposta dentro das possibilidades. No entanto, e apesar de ainda irem aparecendo camas, digo isto porque serviços que não eram para doentes Covid, consoante a necessidade vão se transformando em serviços Covid. Começa a escassear mão de obra. É urgente cumprir todas as regras recomendadas para que possamos cuidar de quem precisa.

Muitos dos colegas que estão na linha da frente desde março estão exaustos. Há também falta de colegas com experiência em cuidados intensivos para assumirem as novas camas de intensivos, ou seja, para podermos ventilar mais doentes se necessário.

É um pouco isto: quem está na linha da frente está cansado e anda a mil em horas de trabalho; quem está na segunda linha, não menos importante, tem estado a ir socorrer os colegas da primeira linha. Um dia chegas e podes ser necessária no teu serviço, como podes chegar e ser necessária noutro serviço. Ou, então, num dia o teu serviço é não Covid e no seguinte passa a serviço Covid. É por isso que digo que só podemos viver um dia de cada vez, mas sempre prontos para a incerteza do dia seguinte e sempre, mas sempre, de mangas arregaçadas para o que possa vir. 

O Natal já vem perto, é incerto sim, mas para mantermos aqueles que mais amamos em segurança e continuarmos a agradecer por estarmos todos presentes com saúde mais um ano, temos de continuar a seguir as recomendações da DGS. Não é fácil, mas é o caminho mais sensato para todos. O caminho que nos poderá levar a bom porto. 

Além do dever profissional, chama-me o dever de mãe. Cabe-me a mim, tal como a tantos outros portugueses, a responsabilidade de manter os filhos em segurança. Ao sexto teste de Covid realizado, todos eles com resultado negativo, sinto um alívio por, de alguma forma sentir que estou a cumprir, no sentido de proteger não só a minha filha, também a restante família. Bem sei que nesta fase em que as crianças já retomaram a sua atividade letiva não depende só de nós, pais, a sua proteção. No entanto, se todos fizermos o nosso melhor, certamente vamos conseguir que as nossas crianças estejam em segurança.  

Não poderia perder esta oportunidade para, mais uma vez, apelar a que pela saúde de todos mantenham-se firmes no uso de máscara, redobrem os cuidados na higiene das mãos, cumpram o distanciamento social e em caso de sintomas ou contacto com um caso positivo entrem de imediato em contacto com a Linha Saúde 24 (808 24 24 24). Juntos podemos fazer a diferença, porque cuidar de nós é cuidar de todos. 

Com votos de um santo Natal para um ano tão atípico e que o Ano Novo nos traga um horizonte mais sorridente.

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