Saúde

Esqueça a anestesia: há uma técnica que lhe permite ir ao dentista e não sentir dor

Já era utilizada para evitar roer unhas ou deixar de fumar. Agora, é aplicada antes de arrancar os dentes.
É um protocolo não invasivo e indolor.

Quando pensamos em hipnose é difícil evitar não pensar em comportamentos ridículos. Todos nos lembramos daquelas imagens caricaturais de pessoas a cacarejarem e a darem aos braços como se fossem galinhas. Mas, de sessões para esquecer tudo sobre a nossa série favorita, a outras que envolvem banda gástricas imaginárias para emagrecer, passando pelos (muitos) programas onde os concorrentes são hipnotizados, esta técnica é cada vez mais utilizada — seja qual for o cenário ou objetivo.

Evitar roer unhas, comer açúcar ou melhorar hábitos de higiene. A prática passou a ser utilizada como forma de levar os pacientes a mudarem comportamentos ou como terapêutica complementar à medicina tradicional. É verdade. Para muitas das pessoas que receiam as idas ao dentista, a hipnose passou a fazer parte do ritual das marcações das consultas. Trata-se de um fenómeno cada vez mais expressivo.

Muitos encaram uma ida ao dentista como um momento de tortura. Seja por trauma de algum acontecimento anterior, ou pelo medo associado à dor dos procedimentos ou aos próprios dos sons dos aparelhos dentários. Para algumas pessoas entrar num consultório de medicina dentária pode espoletar ansiedade, stress e até ataques de pânico. Porém, este método evita que isso aconteça.

Alberto Lopes, neuropsicólogo e hipnoterapeuta, não se mostra surpreendido pelo aumento do uso deste procedimento neste contexto. “Todos conhecemos pessoas que só de pensarem no dentista ficam ansiosas e precisam de ser sedadas. É normal que procurem alternativas naturais. Sendo um método eficaz e seguro, a hipnose aparece então como um grande mecanismo de controlo da da ansiedade e da dor“, começa por explicar à NiT.

O protocolo já tem sido aplicado no tratamento de doenças orgânicas e mentais, como a ansiedade e a depressão. Por acreditar que o recurso à técnica melhora a qualidade dos tratamentos odontológicos — “tornando-os mais confortáveis e eficientes para o paciente e para o profissional” — o neuropsicólogo acredita que “devia mesmo ser considerada por todos os especialistas da área”. Quando se trata da odontologia, em específico, não poderia ser mais útil.

Cerca de 10 por cento da população adulta sofre com medo extremo (fobia) de procedimentos odontológicos e, por causa disso, evitam ir ao dentista. Porém, a saúde dos dentes condiciona a saúde em geral, no bem-estar e até na qualidade de vida de cada um.

O estado dos dentes tem impacto na mastigação, digestão e fala — sem esquecer o desconforto e a dor que as doenças orais podem causar. E podem até estar na origem de patologias que se manifestam nos restantes órgãos do corpo. É importante, portanto, não negligenciar o seu tratamento.

“O uso da hipnose na odontologia traz algo de novo à forma como podemos ajudar a evitar o medo, a ansiedade e a controlar o sofrimento de quem recorre ao médico dentista”, assegura Alberto Lopes.

Além de poder ser usada para inibir a dor e desconforto durante os tratamentos, controlando a salivação e o sangramento, dará ao paciente a sensação de que o tempo da consulta passa mais rapidamente. “Já para o dentista, a hipnose facilita o atendimento, uma vez que o paciente hipnotizado estará mais calmo e permitirá que se concentre no procedimento clínico”, acrescenta. É uma espécie de dois em um.

O especialista nota ainda que a dor é uma experiência neurossensorial de carácter desagradável com duas variáveis a ter em conta: a sensorial (que dá uma informação sobre a localização e o tipo da mesma); e a afetiva (que aborda a experiência subjetiva da dor, isto é, o quanto ela nos incomoda). “É aqui que o recurso à hipnodontia dá tudo a ganhar e nada a perder. As vantagens para o paciente e profissional de saúde são imensas”, defende.

Afinal, como é feito o procedimento?

“Esta técnica consiste em conduzir o paciente a um estado especial de consciência (transe hipnótico), permitindo a utilização dos recursos do corpo e da mente para a realização do tratamento dentário.” Se continua com dúvidas quanto ao que realmente acontece, nós explicamos.

Tudo começa num ambiente seguro e adequado — “para que haja uma maior concentração do indivíduo aos padrões da linguagem hipnótica e aos comandos do dentista hipnólogo”. E sim, o mindset hipnótico pode ser aplicado diretamente no consultório. Isto, se o profissional dominar os tais padrões de linguagem.

É o que acontece no consultório de Ana Rodrigues, médica dentista e implantologista. À NiT a profissional conta que conheceu a técnica depois de procurar formas para controlar a sua claustrofobia. “Ao perceber as vantagens do processo, soube que seria benéfico aplicar estes conhecimentos nos meus pacientes”, diz. Especializada em implantologia, isto é, em colocar implantes dentários através de “cirurgias avançadas e um pouco mais invasivas”, revela-nos estar habituada a receber “pessoas em pânico”.

Fez formação e começou a aplicar a hipnose aos seus pacientes há cerca de um ano. E os resultados não poderiam ser melhores. Ana confessa-nos, aliás, que num dos primeiros casos testou a eficácia do transe ao anestesiar apenas um dos lados da boca de uma paciente.

Este estado pode, contudo, ser aplicado antes de entrar no consultório. Em consulta com um hipnoterapeuta, este irá ativar mecanismos de condicionamento (os gatilhos hipnóticos), para que o paciente possa entrar em auto-hipnose na altura da intervenção. “De uma ou de outra forma a hipnodontia é realmente muito eficaz no controlo e modulação da dor e na gestão da ansiedade. Na maioria das vezes, através do seu uso nem é necessário recorrer medicação”, nota Alberto Lopes.

Que o diga Ana ou a paciente a quem só foi anestesiada metade da boca. “Foi muito interessante, porque a senhora chegou super ansiosa e depois de a hipnotizar ficou tão relaxada que mal conseguia manter a boca aberta. Abri-lhe a gengiva, coloquei o implante e suturei, e mesmo assim ela garantiu-me não ter sentido qualquer dor ou desconforto em nenhum dos lados. Zero”, revela.

Isto acontece porque, uma vez em estado hipnótico, ocorrem mudanças corticais e subcorticais assinaláveis. Há, por exemplo, uma maior irrigação sanguínea em determinadas áreas do cérebro com o incremento de substâncias opiáceas naturais (beta endorfinas), que inibem a dor e trazem uma sensação de calma e bem-estar.

Voltando ao processo: a principal ferramenta a usar na indução hipnótica é a fala, através de uma linguagem apropriada. Num tom de voz calmo e monocórdico são verbalizadas sugestões diretas, indiretas e subliminares que passam diretamente para o inconsciente do sujeito a ser hipnotizado.

O método de indução pode ser feito com o paciente de olhos abertos, focado no que lhe é sugerido (por exemplo, um ponto na parede, focar os dedos do profissional), ou através do transe naturalista (transe conversacional). Em poucos minutos, entra-se num estado de relaxamento profundo, permitindo o atendimento odontológico.

Basicamente, é como se estivesse tão focado que parece estar a ver o mundo através de uma lente com zoom. Passa, então, a conseguir observar os detalhes de uma maneira específica, mas fica menos ciente do contexto ao redor. Na clínica Dr. Alberto Lopes no Porto, Aveiro e Lisboa, por exemplo, a consulta custa 80€ e demora entre 1 hora a 1h15.

Um estudo publicado recentemente na revista “Scientific Reports” (dezembro de 2022) indica que em média 90 por cento das pessoas são sugestionáveis à hipnose. “Quer isto dizer que nove em cada dez pode recorrer à técnica para um tratamento dentário ou para outra finalidade”. Ainda assim, o neuropsicólogo adianta que é fundamental que o profissional tire todas as dúvidas do paciente e incentive o mesmo a aceitar o procedimento, sem imposição, mas passando confiança. “Lembro que só entra em hipnose quem se permite entrar em transe”, diz.

“Além disso, é importante preservar a integridade física e emocional do indivíduo. Para mim, esta é uma das premissas mais importantes quando se aplica a hipnose: criar a confiança necessária para um tratamento satisfatório e prazeroso. É fundamental que o profissional saiba identificar até que ponto a sua técnica é suficiente para o caso, e quando houver a necessidade, encaminhá-lo para outros especialistas, como psicólogos e psiquiatras”, conclui.

Para Ana, a hipnose tem tudo para ser o futuro da medicina dentária — e não só, garante-nos. “Mesmo fora dela, passará a fazer parte do quotidiano de todos. Seja para reduzir níveis de ansiedade, curar traumas ou usos medicinais”. Se substituirá ou não de forma total a anestesia, não temos como saber. Certo, é que não é a primeira vez que a técnica é utilizada como substituto.

Uma equipa de cirurgiões franceses publicou, em 2016, um artigo científico que confirma que a hipnose pode substituir as anestesias gerais em cirurgias de extração de tumores. Para chegar a essa conclusão, a equipa de cirurgia do Centro Hospitalar Universitário de Tours, França, usou técnicas de hipnose em 43 cirurgias realizadas em 37 pacientes — e apenas dois deles disseram que, se tivessem de ser operados outra vez, preferiam a anestesia geral.

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