Saúde

Está a ter sonhos estranhos e realistas durante a pandemia? Não é o único

O fenómeno é global: são mais vívidos, realistas e alguns até perturbadores. Os especialistas do sono estão atentos e revelam o que se passa.
Já não nos chegava o vírus?

Há quem assista a chuvas de meteoros, outros são atacados por idosas que querem roubar desinfetantes e há até quem dê por si numa sala de cinema vestido com equipamento de proteção. Tudo isto sem sair da cama. Os relatos de sonhos (e pesadelos) extremamente nítidos e intensos multiplicam-se por esta altura.

No I Dream of Covid, utilizadores anónimos partilham os seus relatos. No Twitter, a hashtah #pandemicdreams está repleta de histórias bizarras. Será que estamos todos a sofrer do mesmo problema? Os especialistas acreditam que sim — e a culpa é da pandemia. 

Todos sonhamos, uns mais do que outros, mas a tendência das últimas semanas parece ser evidente: há cada vez mais relatos de experiência realistas e bizarras, ainda mais do que o habitual. O que une toda esta onda simultânea é a propagação do novo coronavírus pelo mundo, que tem sujeitado a maioria da população a uma experiência comum marcada pelo isolamento, pelo medo e pela incerteza.

Os especialistas do sono têm várias teorias. Há quem acredite que os sonhos mais vívidos são fruto de mudanças nos horários noturnos, outros atribuem a culpa à maior atribulação emocional e psicológica que estamos a viver. A verdade é que eventos traumáticos tendem a criar uma reação semelhante em quem os vive e, neste caso, estando ou não infetados, todos estamos a sofrer as consequências da pandemia.

Foi isso que aconteceu, por exemplo, no rescaldo dos ataques de 11 de setembro. Um estudo da Universidade de Medicina de Tufts confirmou que os sonhos pós-ataque dos indivíduos era muito mais intenso. Contudo, não incluíam quaisquer cenários destrutivos com aviões e torres. 

Outro cenário idêntico foi estudado em 2009, depois do sismo em L’Aquila, em Itália, que registou um aumento de problemas de sono e pesadelos, mais recorrentes quanto mais próximos da zona do epicentro. Os autores desse estudo, a Associação Italiana de Medicina do Sono, analisam agora o impacto da pandemia nos italianos que, dizem, têm demonstrado perturbações do sono semelhantes aos sintomas de stress pós-traumático.

Porque é que isto acontece?

Uma das possíveis teorias que explica porque os sonhos durante a pandemia parecem tão reais é dada por Deirdre Barrett, professora de psicologia na Escola de Medicina de Harvard e autora de várias obras sobre o sono e os sonhos.

Com mais pessoas fechadas em casa e sem obrigação de acordar cedo para ir trabalhar, acabamos por dormir mais tempo, explica a especialista. Ora o sono divide-se em ciclos de duas fases, que vão intercalando ao longo da noite: a de sono profundo e a REM. É nesta última que os sonos são mais vívidos e quanto mais dormimos, mais vezes passamos por essa fase.

Barret começou também o seu próprio estudo a este fenómeno e desde março que recolhe relatos dos participantes. Alguns sonham com a infeção ou com a morte pelo novo coronavírus. Outros relatam noites de luta contra zombies, insetos, mas também desastres naturais — coisas aparentemente não relacionadas com a pandemia, mas que são igualmente manifestações de preocupação com o vírus.

“À exceção dos sonhos dos profissionais de saúde, não recebemos relatos de imagens realistas de pessoas a sufocarem agarradas a um ventilados. O vírus é invisível e por isso acho que se transforma em coisas tão diferentes”, explica em declarações à “National Geographic”.

A medicina do sono não é matemática e muitas das hipóteses lançadas permanecem no plano teórico, embora seja mais ou menos conhecido o impacto que o stress, a incerteza, as crises e as emoções à flor da pele podem ter nos sonhos.

Algumas teorias estabelecem que os sonhos são uma mera continuação daquilo que vivemos durante o dia e que se reflete no subconsciente. Outros acreditam que o que acontece nos nossos sonhos é uma forma de nos preparar para situações desafiantes. Enfrentar o problema na nossa cabeça é uma forma do cérebro perceber como pode ultrapassar certo e determinado desafio.

Tentar controlar os sonhos

Quanto à pandemia, não há nada que se possa fazer, mas segundo Deirdre Barrett, pode haver uma forma de gerir aquilo que temos que enfrentar a cada noite. A especialista afirma que é possível tentar programar os sonhos. Basta para isso que foquemos a imaginação no momento de tentar adormecer.

“Se é bom a visualizar, imagine que está a planar no ar. Se tiver dificuldade, coloque uma foto ou objetos relacionados com o tema na mesinha de cabeceira, para que sejam a última coisa que vê antes de apagar as luzes”, explica em entrevista ao “The New York Times”.

A técnica, diz, tem uma “alta taxa de sucesso” e funciona melhor do que deixar os sonhos “à sorte”, embora frise que “não funciona todas as noites”.

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