Saúde

“Este confinamento não serve para nada. Uma crise económica é uma crise de saúde”

O ex-presidente do Hospital de São João arrasa o governo de António Costa e diz que toda a gente sabia que a segunda vaga seria pior.

“O confinamento é inútil”, sublinhou por diversas vezes António Ferreira durante a sua intervenção na conferência “71 Minutos pela Saúde”. A opinião contra-corrente provocou ondas na opinião pública, sobretudo por contrariar a mais poderosa arma que tem sido usada pelos países desenvolvidos no combate à pandemia.

Aos 61 anos, o internista do Hospital São João tem uma vasta experiência no currículo. Foi presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar São João, no Porto, durante uma década. É também docente na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Escolhido para coordenar a Comissão de Reforma Hospitalar em 2016 — cargo que ocupou por apenas dois meses —, é uma das vozes fortes na onda de críticas à estratégia de combate à pandemia do governo.

Em entrevista à NiT, sublinhou a inexistência de preparação para a segunda vaga e mostrou-se preocupado com as sequelas que a “visão em túnel” do governo, excessivamente focado na luta contra a Covid-19, poderá ter não só a nível da saúde pública mas também da economia.

Imediatamente antes de se manifestar contra o confinamento como estratégia de combate à pandemia, sentiu a necessidade de frisar que não é um negacionista. Não há espaço para opiniões alternativas?
É a minha opinião e felizmente não é só minha. Não tenho problemas em que digam que estou errado. Quis foi garantir que não me acusam de negar que a pandemia é um gravíssimo problema de saúde, um gravíssimo problema de saúde pública e de saúde social — e que não me acusem de estar contra as medidas de distanciamento social ou de higienização. Defendo-as intensamente. O que acho é que se deve fazer mais para que a população adira a elas. Acho que tem sido feito pouco.

Não é isso que tem sido feito?
Acho até que as medidas de confinamento, como estão a ser usadas, não servem para nada. Podem dizer que é para achatar a curva, mas na minha opinião, a curva achata-se rastreando, com testes rápidos, toda a população — e conseguindo isolar quem estiver infetado. E sobretudo deixar os outros trabalhar. Precisamos de trabalhar para produzir riqueza. Já vai ser uma crise terrível em termos económicos e será uma crise ainda pior. É que uma crise económica também é uma crise de saúde. Tem um impacto brutal na saúde das populações.

“Uma crise económica também é uma crise de saúde. Tem um impacto brutal na saúde das populações”

Se o confinamento é inútil, como explica, então, que tenha sido a primeira grande medida adotada pela grande maioria dos governos de países desenvolvidos, aconselhados pelos melhores especialistas, virologista e epidemiologistas?
Estamos a discutir duas posições diferentes entre pessoas especialistas numa área e outras especialistas noutra área. O que me preocupa é que haja uma visão em túnel focada exclusivamente na preocupação em reduzir casos de Covid-19 e que obrigue a sociedade a parar, sem ter uma visão sistémica que olhe para o que isso está a fazer à população. As pessoas não têm acesso a cuidados de saúde, estão a morrer em casa. As pessoas vão morrer mais porque não têm diagnósticos de doenças neoplásicas. Nos próximos anos, a mortalidade vai aumentar. As pessoas vão morrer mais porque não vão ter dinheiro para viver.

Acha então que o confinamento é útil para travar a pandemia e inútil para tudo o resto.
O que está a acontecer em todos os países da Europa ocidental e do norte, e basta ir ver os dados, é que no cômputo geral, não vemos diferença entre os que confinaram mais ou menos, como é o caso da Suécia — e nesse até há uma diferença favorável no que diz respeito à mortalidade. Tendo em conta os dados que temos até agora, eles devem fazer-nos pensar. Estou absolutamente convencido que devemos ser mais eficazes a quebrar a cadeia de transmissão do vírus. E se testarmos toda a gente e identificarmos quem é positivo, estaremos em muito melhores condições de garantir que essas pessoas vão ficar em quarentena. Essas pessoas vão confinar e não vão infetar outras.

Não é isso que Portugal está a fazer?
Não. Isso não está a ser feito. Onde é que estamos a testar? Madrid decidiu que vai testar toda a gente com testes rápidos. Portugal ainda nem sequer aprovou a utilização destes testes.

“As pessoas não têm acesso a cuidados de saúde, estão a morrer em casa”

Em testes por milhão de habitantes, Portugal é um dos melhores países europeus.
É verdade, o número de testes por milhão está ao nível dos melhores. Mas esses testes não são só testes de diagnóstico, são testes de cura que foram feitos em catadupa, quando obrigavam cada doente a ter dois testes negativos antes de ter alta hospitalar. Essa quantidade de testes, em relação aos 10 milhões de habitantes, é uma gota de água no oceano. O que estamos a falar é de testar generalizadamente a população com todos os instrumentos que temos: farmácias de rua, coletividades, postos de colheita de rua como se fez na primeira vaga. Agora podemos usar um teste que ao fim de 15 minutos dá um resultado e registá-lo nos sistemas informáticos — e com isso melhorar a nossa informação epidemiológica do que se está a passar no País.

Existe capacidade para testar toda a população? E os testes rápidos, são fiáveis?
A fiabilidade está demonstrada. Todos os testes têm falsos positivos e falsos negativos. O PCR também os tem, mas está demonstrado que para o rastreio até cinco dias de sintomas, os testes de antigénio têm uma fiabilidade idêntica aos PCR. É perfeitamente utilizável. Se um doente tiver sintomas e tiver o teste antigénio negativo, é testado com outro teste. Não estamos a falar em deixar de fazer diagnósticos em pessoas com sintomas. Queremos é captar todos os infetados assintomáticos ou ainda muito no início da doença e sem sintomas — e que transmitem a infeção.

Mas existe capacidade para isso?
Há capacidade para distribuir medicamentos a qualquer hora pela rede de farmácias. Não é preciso mais capacidade para fazer os testes. Basta ter a colaboração da rede de farmácias, dos farmacêuticos, das coletividades que têm médicos e enfermeiros. E isto pode ser feito e registado nas bases de dados, em vez de serem os clínicos gerais a fazê-lo e a não atenderem os doentes que necessitam de cuidados, que não são doentes Covid-19, mas que estão igualmente doentes. E que morrem. E estão a morrer mais do que morriam.

Apelidou as medidas do governo de extremismos. São mesmo?
Para mim o que é extremismo é parar a economia. Parar a sociedade quando há alternativas ao combate à pandemia. Usar máscara, lavar as mãos, garantir distanciamento, levar que as pessoas não se aglomerem em grupos, isso é fundamental para controlarmos a situação. O que me incomoda é que não esteja a ser feito o suficiente para motivar a população a aderir a essas medidas. O que é que está a ser feito? Anúncios nas autoestradas? Umas conferências de imprensa a dizer que isso é importante? Há nichos da população que não acedem a essa informação, áreas problemáticas, relativamente marginalizadas, que não acedem a essa informação. O problema está aí. É preciso ir lá.

Aquilo que considera um “amadorismo comunicacional”?
Exatamente.

“Atirar a culpa para cima da população que não faz o que deve é fácil, mas não resolve nada”

Apela-se muito à responsabilidade dos portugueses no cumprimento das medidas. Se as medidas são boas e não resultam, há então uma irresponsabilidade da comunidade?
Claro que é preciso haver responsabilidade individual. O que é estranho é que só agora seja preciso haver essa mesma responsabilidade, num momento em que estamos a atingir picos de incidência e de mortalidade — mortalidade essa que, apesar de tudo, é menor que a mortalidade provocada por outras doenças. Não é possível culpabilizar as pessoas. É preciso é chegar a elas e motivá-las, explicando, gastando tempo, sendo paciente, para que o maior número de pessoas adira às práticas preventivas. Atirar a culpa para cima da população que não faz o que deve é fácil, mas não resolve nada.

Notou-se um relaxamento na postura durante o verão. Acha que também aí houve uma falha de comunicação?
Em março toda a gente sabia que ia haver uma segunda vaga. Toda a gente sabia que ela iria surgir no outono, no tempo frio. Tivemos de março até outubro para reagir e organizar uma resposta hospitalar. Não vi acontecer nada e sei que não aconteceu nada. E isso é grave. É preciso corrigi-lo.

Acredita que não foi feito nada? Em que sentido?
Tenho a certeza absoluta. Não há qualquer gestão integrada de camas hospitalares em cuidados intensivos. Isso foi proposto, era possível fazê-lo, criar um sistema que centralmente controlasse todas as camas dos hospitais públicos, privados e do setor social. Contando, claro, com a adesão voluntária desses setores, e sendo justamente remunerada. Não sou defensor de requisições civis.

Como é que poderia ser feito?
Não é preciso criar hospitais de campanha. É preciso usar hotéis em zonas estratégicas, para poder libertar os hospitais dos casos sociais — doentes que estão bem mas que ocupam camas porque não há onde os por. Andam agora à pressa a fazer um acordo para 200 camas no setor social. Valha-me Deus. Há aqui alguma coisa que não bate certo. Ninguém preparou esta segunda vaga quando se sabia que viria aí e que seria mais grave do que a primeira. Acho que ainda é possível fazer algo, é preciso é querer e pensar fora da caixa.

“Ninguém preparou esta segunda vaga quando se sabia que viria aí e que seria mais grave do que a primeira”

Temos hoje mais pacientes Covid internados do que na primeira vaga. Isto acontece porque há mais camas ou porque ocupam mais vagas, deixando menos espaço para outros pacientes?
Em boa verdade, ninguém lhe pode responder a isso porque não há centralização da gestão das camas hospitalares. O que disserem a esse respeito será apenas um palpite. Na primeira vaga, os doentes eram obrigados a permanecer no hospital até terem dois testes negativos. Agora as normas mudaram e já não precisam deles, basta que estejam clinicamente bem durante 10 dias. E isto muda radicalmente o cenário, porque diminui o número de dias que os doentes estão no hospital. E diminui a ocupação dos hospitais nesse sentido.

Referiu também que a alocação de muitos dos serviços e cuidados de saúde à luta contra a Covid tem provocado uma falta de atenção a outras patologias, o que resulta num aumento da mortalidade não Covid. Se for dada a mesma atenção a outras patologias, isso não provocaria a situação inversa? Não é um exercício de equilibrismo?
Claro que sim. Numa altura em que a procura de cuidados hospitalares ultrapassa a capacidade instalada, e ela foi ultrapassada, isso pode acontecer. Acontece em caso de catástrofes, tremores de terra… É algo para o qual temos que estar psicologicamente preparados porque não há que culpabilizar ninguém. Não é possível, de um momento para o outro, duplicar os hospitais de um país, nem aqui nem em lado nenhum. Mas antes de atingirmos esse limite, se as coisas tivessem sido preparadas, muitos dos problemas não teriam surgido.

O que poderia ser feito?
O que quero dizer com tudo isto é que são precisas medidas mais audazes para reduzir a circulação do vírus. Mais audazes do que simplesmente confinar aos fins de semana, de tantas a tantas horas. Não estou a ver como essas medidas podem ter impacto real. Precisamos de medidas que libertem a sociedade para não agravar a crise económica, sermos mais eficazes no combate à doença. Não estou a defender que devemos deixar o vírus correr para garantir a imunidade de grupo. Estou a dizer que temos de fazer mais melhor com os meios disponíveis.

“O número de refeições dadas a quem não tem dinheiro para se alimentar multiplicou por seis ou oito”

O confinamento é útil, mas completamente desadequado. É isso que acha de forma resumida?
Se pusermos a população toda em casa durante uma semana, claro que isso vai ter um impacto brutal, mas não vai parar a pandemia. Mesmo em casa, a infeção passa entre pessoas, apesar de ter impacto. Mas e o resto? As pessoas comem o quê? Estou a trabalhar numa Misericórdia e o número de refeições dadas a quem não tem dinheiro para se alimentar multiplicou por seis ou oito. Há quem vá buscar refeições pela calada da noite, às escondidas. São as pessoas que tinham negócios e a quem lhes fecharam as lojas. Ganhavam o suficiente para ir à mercearia e de repente ficaram sem nada. Isto é dramático. Acho que temos que ter preocupações de caráter social e humano e fazer mais para combater a pandemia sem criar este tipo de situações que provocam um aumento da mortalidade.

“A OMS é responsável pela morte de dezenas de milhares de doentes”

A propósito de medicamentos usados para tratar a doença disse, depois de frisar que há medicamentos eficazes que foram rejeitados por organizações como a OMS, que os médicos portugueses “se marimbam” para as recomendações das autoridades de saúde e que ”fazem a medicina como deve ser feita”. Como assim?
Neste momento, a evidência científica mostra que nem o Remdesivir, nem a hidroxicloroquina ou outros que foram testados nos ensaios da OMS, têm efeito na mortalidade de doentes Covid. No entanto, o estado gastou 30 milhões a comprar Remdesivir e nas normas de orientação clínica da DGS, este é um fármaco de primeira linha. E toda a gente sabe que as orientações estão erradas. Não fazem sentido. É preciso alterá-las. Demonstrou-se, contudo que a dexametasona salva vidas — e é por isso que digo que os médicos portugueses são diferentes, porque a usam. Foi provado em ensaios clínicos. Este medicamento foi logo de início contraindicado pela OMS, quando toda a gente sabia (todos os que tratam de doentes críticos) que nas infeções, quando surge esta reação exacerbada, os corticosteróides têm um efeito benéfico. O que digo é que a OMS é responsável pela morte de dezenas de milhares de doentes, porque noutros países com culturas diferentes, os médicos, mesmo que achem que devem dar um medicamento, não o dão porque as autoridades recomendam que não seja dado. E se derem e o doente falecer, vão ter um processo judicial em cima.

Porque é que as organizações não recomendaram o uso, sabendo que havia vantagens?
Porque se metem onde não são chamados. Não havia evidência nenhuma contra a dexometasona. Deixem os médicos trabalhar. Só o fizeram porque no caso deste vírus e no caso destes pacientes, não havia prova. Não porque houvesse qualquer suspeita para dizer que é ineficaz. Ao fazerem essa recomendação para não usar, provocaram mortes.

Diz que a vacina não vai ser a panaceia que resolverá todos os problemas. Partindo das eficácias demonstradas — embora isso tenha que se refletir em termos de efetividade no terreno —, continua a não acreditar que a vacina poderá ser a melhor arma para travar a pandemia?
A vacina é fulcral. Toda a informação aponta no sentido de que irá ser eficaz, mas não é isso que está em causa. O que digo é que não se pode usar politicamente a ideia de que no fim de dezembro ou em janeiro, tudo vai ficar resolvido. Se tivermos a vacina para a esmagadora maioria da população, o problema não se resolve, embora provoque um impacto brutal. Ela até pode existir e ser comercializada, mas a quantidade de vacinas necessárias não estará ao nosso alcance. Não há sequer capacidade para produzir seringas para meter lá o produto ativo das vacinas para responder às necessidades mundiais.

São prazos excessivamente otimistas?
Sim, mas oxalá que amanhã haja vacinas para vacinar toda a gente. Parece-me é irresponsável estar a dizer que vamos ter a vacina no dia tal e o assunto fica resolvido. Não fica. É completamente irrealista.

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