O hábito de lavar os dentes de manhã e à noite é-nos incutido desde miúdos. Há quem o faça sempre depois das refeições ou quem, por vezes, não cumpra o mínimo de vezes aconselháveis para manter uma boa higiene oral. No entanto, a importância de escovar os dentes pelo menos duas vezes por dia é ainda maior do que apenas evitar mau hálito ou criar cáries: pode mesmo ajudar a reduzir o risco de cancro oral.
A conclusão surge de uma análise internacional que reuniu 15 estudos realizados em vários países, incluindo Portugal. A investigação foi publicada na revista científica “Oral Diseases” esta sexta-feira, 20 de março, precisamente no Dia Mundial da Saúde Oral.
Os investigadores, onde também se encontra uma equipa do Instituto Universitário de Ciências da Saúde, no Porto, verificaram que pessoas que escovam os dentes menos de uma vez por dia — ou que praticamente não o fazem — têm um risco cerca de 85 por cento maior de desenvolver cancro na boca quando comparadas com quem escova diariamente.
E se escovar menos de duas vezes diariamente, não está livre de risco, visto que a probabilidade de desenvolver esta doença é de 32 por cento. O estudo mostra também que não ir regularmente ao dentista aumenta o perigo.
Pessoas que fazem consultas menos de uma vez por ano apresentam um risco cerca de 58 por cento mais elevado de cancro oral do que aquelas que mantêm acompanhamento anual.
Segundo os autores, a explicação é simples: uma higiene oral deficiente favorece problemas na boca que podem contribuir para o aparecimento da doença. Por isso, hábitos básicos de cuidados diários tornam-se um fator importante de prevenção. A principal mensagem dos especialistas é, então, clara: escovar os dentes pelo menos duas vezes por dia e realizar consultas regulares.
O cancro oral desenvolve-se nos tecidos da cavidade oral e pode afetar os lábios, a língua, as gengivas, o interior das bochechas e o céu da boca. Além da pobre higiene oral, está associado ao consumo de álcool e tabaco, embora também possa estar relacionado com a infeção de FPV e exposição solar prolongada.
Inicialmente os sintomas são pouco evidentes, o que atrasa o diagnóstico. Entre os sinais mais comuns encontram-se feridas na boca que não cicatrizam ao fim de duas a três semanas, manchas brancas ou vermelhas na mucosa oral, dor persistente na boca ou garganta, dificuldade em mastigar, engolir ou falar, sensação de algo preso na garganta, inchaços ou nódulos na boca ou no pescoço, dormência em zonas da boca e sangramento frequente sem causa aparente.
A nível mundial, estima-se que o cancro oral afete mais de 350 mil pessoas por ano. Em Portugal, surgem aproximadamente entre 1.000 e 1.500 novos diagnósticos anualmente. Apesar dos avanços na medicina, continua a ser uma doença com impacto significativo na mortalidade, sobretudo porque muitos casos são identificados em fases avançadas. A taxa média de sobrevivência aos cinco anos situa-se entre os 50 e os 60 por cento, podendo ultrapassar os 80 por cento quando o diagnóstico é feito precocemente.

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