Saúde

Existem cada vez mais mulheres diagnosticadas com cancro de pulmão

Os especialistas apontam o consumo de tabaco como a maior causa da doença. Porém, as hormonas femininas também podem influenciar.

O cancro do pulmão é considerado o mais mortífero do mundo e tem uma maior prevalência nos homens. Porém, este cenário está a mudar. Segundo os dados do Grupo de Estudos do Cancro do Pulmão — divulgados a propósito do Dia da Mulher — nos últimos 40 anos os casos do sexo masculino desceram cerca de 36 por cento, enquanto o número de mulheres diagnosticadas aumentou 84 por cento. Os números estão a assustar os especialistas, que apontam o tabaco como a causa desta escalada assustadora.

Os fumadores têm um risco 20 vezes superior de desenvolverem cancro do pulmão em relação a quem nunca fumou. “E, apesar da taxa de incidência menor, a mulher está a fumar mais, um hábito antigamente mais associado ao homem e isto tem repercussão”, explica à NiT Luís Rocha, pneumologista do hospital Lusíadas e do IPO do Porto.

Os efeitos nocivos do tabaco diferem consoante os géneros. Ou seja, “fumando o mesmo número de cigarros, as mulheres correm um maior risco de desenvolver cancro do pulmão do que os homens, porque são mais suscetíveis aos carcinógenos presentes no tabaco”, refere o especialista em pneumologia.

Luís Rocha aponta as diferenças hormonais como uma possível explicação para este fenómeno. “As hormonas sexuais femininas, nomeadamente os estrogénios, poderão desempenhar um papel fundamental na patogénese do cancro do pulmão”, acrescenta o médico.

Entre os 30 e os 49 anos — faixa etária onde em muitos países ocidentais já existem mais mulheres com cancro do pulmão do que homens — “existe uma importante percentagem de casos de não fumadoras, reforçando assim a importância de outros fatores para além do tabagismo”, pode ler-se no documento partilhado pela associação. Dados também comprovados pelo médico do IPO que sublinha a importância destes casos, uma vez que “64 por cento das mortes com esta patologia associadas ao fumo passivo, correspondem a mulheres.

Para reverter a situação, o pneumologista defende o reforço da prevenção primária nas escolas, para sensibilizar para os perigos do tabaco. “Depois é necessário fazer uma prevenção secundária, para ajudar as mulheres a deixarem de fumar, sobretudo se estiverem grávidas, porque há um aumento dos carcinogénicos, por causa das hormonas femininas, o que representa um maior risco de desenvolverem a doença.”

Por outro lado, de acordo com Luís Rocha, “as mulheres com cancro do pulmão avançado têm melhor sobrevivência comparativamente com o género masculino, ainda que estes efeitos positivos se refiram apenas a mulheres na pós-menopausa, quando há uma redução dos níveis hormonais.”

Sintomas e tratamentos

Os sinais iniciais da doença podem ser muito diversos, de ronquidão a dor em zonas específicas do corpo. “Como o pulmão não causa dor, porque não tem inervação sensitiva, o mau-estar aparece dependendo da zona em que o tumor se desenvolve e se afetou, ou não, outros órgãos estruturais.” Neste sentido, muitos dos pacientes acabam por aparecer nas consultas porque fizeram uma radiografia, ou outro exame imagiológico, em que se detetou um nódulo ou tem uma massa na zona pulmonar.

O cancro do pulmão tem 4 estádios, sendo que mais de 75 por cento dos casos já são diagnosticados nos estádios 3 e 4. Na maioria destes casos já não é possível oferecer tratamentos curativos, como cirurgias. Nos últimos anos foram diagnosticados em Portugal, em média, 5.400 novos casos anuais e a mortalidade ronda as 4.700 vítimas por ano.

Se juntarmos todos os diagnósticos de cancro do pulmão, de todos os estádios da doença, a taxa de sobrevivência a cinco anos é de apenas 20 por cento. Sendo que nos estádios 1 e 2, a taxa de sobrevivência é muito superior à dos restantes. Quando o diagnóstico é feito precocemente, poderão ser realizados tratamentos curativos como cirurgia (para remoção do tumor) ou radioterapia (que queima as células dos tumores mais pequenos).

Quando a terapêutica já não é possível, em estádios mais avançados e quando os tumores já estão espalhados pelo corpo, o objetivo dos médicos é prevenir o avanço da doença e aumentar a sobrevivência e qualidade de vida. Neste casos, podem fazer quimioterapia (através de fármacos que matam células de divisão rápida, tumorais ou não), radioterapia, terapias alvo (com medicamentos desenvolvidos especificamente para determinadas células tumorais) ou imunoterapia (com substâncias que estimulam o reconhecimento de células tumorais anormais pelo sistema imunitário). Todas estes métodos terapêuticos podem ser combinados entre sim, dependendo do quadro clínico de cada paciente.

Embora os números de casos de cancro de pulmão sejam assustadores, Luís Rocha revela que, quando comparados com os de alguns anos atrás, “são esperançosos”.

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