Saúde

A fase mais negra da pandemia pode ser explicada pela meteorologia

Vários estudos mostram que a redução da temperatura tem um impacto enorme na taxa de transmissão — e no número de mortes.
Esta pode ser uma das explicações

No dia em que Portugal bate um novo recorde de mortos num só dia, o mundo ultrapassa os 100 milhões de casos registados — e mais de dois milhões de mortes provocadas pela Covid-19. Uns chamam-lhe a segunda vaga que nunca terminou, outros a terceira. A verdade é que vivemos a pior fase da pandemia. Porquê? A resposta pode estar (também) nas temperaturas.

Apesar dos números portugueses serem preocupantes, o cenário caótico repete-se um pouco por todo o mundo, com transmissões descontroladas no Reino Unido ou o imparável número de mortes nos Estados Unidos.

Sobre o vírus, sabemos mais do que sabíamos em março de 2020, mas ainda pouco sobre como a infeção poderá evoluir. Surgem novas variantes, novos comportamentos e os estudos científicos aprontam-se a tentar traçar um raio-x ao SARS-CoV-2.

Quase sempre comparado com a gripe, um vírus como qual convivemos há muito tempo e do qual conhecemos os hábitos, sabemos que esse é sazonal. O coronavírus, contudo, é para já uma incógnita. Mas há pistas.

Contrariamente aos restantes coronavírus, normalmente pouco afetados por variações de temperaturas, o SARS-CoV-2 aparenta ter um comportamento diferente. É isso que conclui um estudo do MIT e da Wake Forest University, pré-publicado em novembro e atualmente em revisão.

“As pessoas acreditam que estamos a assistir a algo parecido com a gripe (influenza), mas é algo muito pior. Muitas das medidas que foram tomadas no verão e que achávamos que estavam a funcionar, era na verdade a temperatura quente a dar nos a aparência de que as medidas funcionavam”, explica um dos autores, o professor Richard Carson, em declarações à revista “Quartz”.

Os investigadores partiram do caso norte-americano para estabelecer uma ligação entre as variações de temperatura e os registos de mortes e infeções por Covid-19. As conclusões foram esclarecedoras.

O estudo revela que a virulência aumenta assim que as temperaturas baixam dos 31ºC até ao ponto preferido do vírus, os 4,4ºC. Temperaturas entre os 5ºC e os 10ºC propiciam a transmissão e a infeção por Covid-19.

As temperaturas baixas criam o ambiente ideal para a propagação do vírus, que encontra nelas o veículo perfeito para resistir aos efeitos climatéricos. E quanto maior a sua virulência, mais nefastos são os seus efeitos, refletidos nas duas métricas usadas para avaliar a gravidade da pandemia: o número de infeções e de mortes pela doença.

No período temporal analisado pelo estudo, à descida da temperatura para os 5.ºC correspondeu uma subida de 160 por cento no número de mortes — mesmo com medidas de confinamento colocadas em prática. Registaram-se também quatro vezes mais casos de infeções assim que o tempo ficou mais frio.

O frio extremo é, porém, inimigo do vírus, já que ao atingir temperaturas negativas, as gotículas tendem a congelar no ar e a servir de barreira à propagação.

“É um estudo assustador. Sabemos qual é a curva de resposta do influenza à temperatura. [A do SARS-CoV-2] é muito mais íngreme”, explica Carson.

O modelo permitiu aos investigadores simularem o comportamento do contágio e, segundo Carson, o surto verificado em dezembro nos Estados Unidos “replicou quase exatamente a resposta à temperatura [do vírus] que havíamos previsto”.

À mesma conclusão chegou outro estudo levado a cabo por investigadores da Universidade Johns Hopkins, no qual se reafirma a sazonalidade do vírus. “Os resultados sugerem que os meses de verão boreal estão associados a taxas reduzidas de transmissão de Covid-19, com o inverso a acontecer nos meses de verão”, descreve o artigo publicado em outubro.

Assim o comprovam as análises combinadas de temperaturas e das taxas de transmissão de 50 países, dados registados entre janeiro e abril de 2020.

Essa época onde ainda era raro o uso obrigatório de máscara, nota a “Quartz”, serviu de plano perfeito para registar a influência de outros fatores na transmissão. Dessa forma, foi possível perceber que por cada grau que a temperatura descia, a taxa de transmissão aumentava em 3,7 por cento.

“O conhecimento da sazonalidade da Covid-19 pode mostrar-se útil no planeamento local de medidas de redução de interação social e para ajudar a preparar o timing de uma ressurgência da pandemia durante os meses mais frios”, conclui o estudo.

“Esta é uma corrida na qual deveríamos ter começado a competir muito mais cedo. Devíamos estar muito mais adiantados. Fizemos asneira e muita gente morreu que não precisava de morrer”, revela à revista norte-americana Adam Kaplin, um dos autores do artigo científico.

Não só teremos que estar mais preparados para os meses de inverno, como será necessário implementar medidas de controlo muito antes das temperaturas começarem efetivamente a descer. Isto para que quando o termómetro chegar ao azul, todos os surtos estejam devidamente controlados.

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