Saúde

Fatphobia: o novo nome das pessoas que odeiam obesos

Madalin Giorgetta, uma personal trainer australiana, publicou uma fotografia que está a gerar opiniões distintas nas redes sociais.
Tem 31 anos.

“Fatphobia”. Esta é uma das palavras que mais tem sido comentada nas últimas horas. Se procurar pelo significado, vai encontrar descrições como: “Medo ou antipatia por pessoas obesas e/ou obesidade” ou “medo de consumir gordura”. Em português, podemos chamar a isto obeso fobia ou fobia à gordura e ao peso.

Madalin Giorgetta, uma personal trainer australiana com quase um milhão de seguidores, utilizou a sua conta de Instagram para falar sobre o tema — e a publicação já está a correr a Internet. 

A influencer de 31 anos começou a interessar-se pelo estilo de vida saudável em janeiro de 2016, após colocar em prática os guias de Kayla Itsines, conhecida como a musa do fitness nas redes sociais. A partir daí, utilizou as suas páginas online para mostrar a transformação física, algo que parece querer deixar de fazer.

A 3 de agosto, a PT partilhou uma imagem onde diz que, afinal, as fotografias partilhadas no Instagram podem não ser uma demonstração de empoderamento. A acompanhar a pergunta está uma montagem com três fotografias suas, cada uma com uma posição diferente, mas separadas por segundos. A forma como coloca as cuecas e posiciona as pernas mudam completamente a perceção do seu corpo.

“Tenho visto este tipo de fotos em todo o lado recentemente e fico envolvida. É viciante ver o que a maioria tenta esconder, talvez porque estamos tão habituados a ver a perfeição, que, quando não a vemos, paramos e olhamos. Mas que efeito isso tem na nossa imagem corporal?”, pode ler-se na descrição.

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normal vs posed normal vs flexed normal vs Instagram empowering or eyeroll? i think it depends on the viewer’s lived experience. i’ve been seeing these types of photos everywhere recently and I always engage with them (read: click). it’s addictive to see what most try to hide. click click click maybe because we’re so used to seeing perfection, that when we don’t see it we stop and stare. but really, what effect does this have on our body image? am I learning to accept my body through these images or am I merely being entertained? (insert: ARE YOU NOT ENTERTAINED meme) i don’t feel worse or better about my body after viewing this type of content. maybe because I know all the tricks of the trade, I’ve been taking mirror selfies for 4 years, I pretty much have a PhD in this shit. but I’m wondering how other people feel when they see these images, do you feel empowered or frustrated? empowered because you can accept your slim but “flawed” body or frustrated because you can’t love your larger body out of oppression? those in marginalised bodies can’t pose and change how their body is perceived. but do we disregard the experience and feelings of slim but “normalised” and accepted bodies? are they not important too? i believe both can co-exist. that being said, there is more acceptance towards slim bodies that fit the typical standards of beauty and health – ‘your stretch marks are glitter girl’, ~ as long as they are marked into a body size 12 or below ~ let’s chat – how do you feel when you see these photos?

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Madalin pergunta se está a tentar aprender a aceitar o seu corpo por causa destas imagens ou apenas a divertir-se? “Não me sinto pior nem melhor em relação ao meu corpo depois de ver este tipo de conteúdo, mas talvez porque eu conheço todos os truques. Tenho tirado selfies ao espelho durante quatro anos, eu praticamente tenho uma pós-graduação nisto”, escreve.

A influencer teme, sim, o que outras pessoas possam sentir quando vêem estas imagens: fortalecidos ou frustrados. “Aqueles em corpos marginalizados não podem posar e mudar a forma como seu corpo é percebido, mas nós desconsideramos a experiência e os sentimentos de corpos magros? Eles também não são importantes?”, volta a questionar. 

Madalin Giorgetta tem vindo a debater-se com estes temas nos últimos tempos e até decidiu parar de partilhar exercícios para queimar gordura e dicas para emagrecer, tendo perdido cerca de 130 mil seguidores após essa decisão, revela o jornal britânico “Daily Mail”. 

“É possível fazer parte da indústria de fitness e não fazer isso, embora seja mais difícil conquistar seguidores e fazer crescer o negócio, não vou mentir”, disse em abril.

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are before and after photos fatphobic? thanks to @madebyhly the second and third slides 💓 no-one wants to be called fatphobic. no-one wants to admit to fatphobia. particularly no-one one wants to label their attempts at weight loss, promotion of weight loss and sharing of weight loss; fatphobic. we can all agree that name-calling, fat jokes and bullying is fatphobic behaviour, but we all get a little ruffled when somebody suggests weight loss attempts are fatphobic. maybe because most of us diet? but most of us will not be on the street shouting obscenities at fat people. wanting to lose weight doesn’t make you a bad person. it makes you a very normal person. if you’re a bad person for dieting, than everyone reading this is a bad person 🤷🏼‍♀️ we often refuse to examine or consider another point of view that questions our own inherent beliefs or values because it makes us feel uncomfortable, and this ignores somebody else’s livid experience. if a majority of fat people tell me that before and after photos are triggering to them, then I will consider that point of view and then decide what to do with that information (I decided to stop posting them). instead of responding with a “stop shaming dieters!” maybe we could look at considering the reasons why before and after photos are considered fatphobic to many people eg before(fat) is bad, after(thin) is good, implying that being fat is something we need to change, fat = unhappy etc. allow yourself to sit with it as opposed to trying to defend your stance. this issue is complicated. people want to lose weight for all sorts of reasons and of course you are not a horrible person for wanting to do something that is encouraged and praised within society. asking us to consider why weight loss is fatphobic is not to shame us, it is instead meant to ask us to consider, *why* we want to lose weight. the goal is not to prove that we are not fatphobic, the goal is to examine how fatphobia influences our own lives. get uncomfy, it’s not easy and will rear up lots of uncomfortable feelings and past transgressions, but this is where the change truly begins. Happy to discuss in comments but please be respectful 🙏🏼

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Esta mudança de pensamento da influencer de 31 temas leva à “fatphobia”, que é o tema protagonista da sua publicação de 6 de agosto. “Fotos de antes e depois são obesos fóbicas? Ninguém quer ser chamado de obeso fóbico. Ninguém quer admitir que tem fobia, particularmente, ninguém quer rotular as suas tentativas de perda de peso”, pode ler-se.

Madalin diz quase todos concordam que “o bullying e as piadas sobre pessoas gordas” são comportamentos de alguém com esta fobia, mas que “todos ficamos um pouco irritados quando alguém sugere que as tentativas de perda de peso são obeso fóbicas”. “Talvez porque a maioria de nós faz dieta? Mas a maioria não vai para a rua gritar obscenidades para as pessoas gordas”, acrescenta.

Com esta publicação, a personal trainer australiana quis deixar uma coisa bem clara: querer perder peso não faz de nós uma má pessoa. No entanto, “se a maioria das pessoas gordas disser que as fotos de ‘antes e depois’ estão a ser motivadoras para elas, então, irei considerar esse ponto de vista e decidir o que fazer com essa informação” — no seu caso, decidiu parar de publicá-las.

Quando pensa numa razão para este tipo de publicações serem consideradas obeso fóbicas, lembra-se um exemplo muito simples: o antes (gordura) é associado a algo mau e o depois (mais magra) é associado ao lado bom, sugerindo que ser gordo é algo que se tem de mudar ou que é relacionado com infelicidade. “Permite-te sentar com essa pessoa, em vez de tentares defender a tua posição.”

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Action items from my body positive / self love post the other day… Class in session 🤓 📌 Learning Item “Forced” flaws are patronising eg pushing out your belly, squeezing your butt cheeks to create cellulite, or pinching stomach skin. 📚 Action Item Please stop. If you have to force your body to look flawed, you need to put the phone down. Everyone is mad about this one. Don’t try to force flaws to jump on a trend. 📌 Learning Item Unposed photos can exist without a side by side posed image. 📚 Action Item Try posting unposed content without juxtaposing the posed content. They don’t need to be accompanied by a “love yourself” caption. They can just exist. Images that compare the flawed to the perfect, may further reinstate that flaws are bad. Posting them on their own, without the call to attention can act to further normalise said flaws. 📌 Learning Item All of us deserve to be heard but the body positive movement leaves behind those who need it most. The voices who are the most elevated within the movement belong to slim, white, cis women. Marginalised bodies are left behind. 📚 Action Item Body positive/ body confidence/ body love influencers with big platforms can #passthemic to platforms that don’t receive the same amount of engagement. Through story shares, interviews and IG feed features. most importantly, there needs to be an active conversation around marginalised bodies, the effect of weight stigma, examining internal and external examples of fatphobia and calling attention to the problems of making health/wellness a moral issue. ☁️ I would love to see a wider discussion pertaining to these issues then simply the individualistic “love your flaws” captions which is only relevant to those in privileged bodies. I used to feel really infuriated by these accounts and had more of a “this-movement-is-not-meant-for-you-get-out” attitude. I’m trying to be more understanding and meet people where they are at and provide room for dialectical discourse. Where two diverse points of view can be heard and a consensus can be reached through reasoned methods of argumentation. Thank you to everyone who contributed so respectfully 💓

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Segundo Madalin, este tema é bom para nos fazer pensar no porquê de querermos perder peso, que o objetivo não deve ser provar que não se tem esta fobia e analisar como ela influencia as nossas vidas.

É que na mesma publicação viral, a influencer mostra dois gráficos: um explica o que as pessoas acham de que se trata esta fobia; e o segundo o que realmente é. “Odeio pessoas gordas” e “literalmente medo de pessoas gordas” são as duas frases para o que se pensa ser a “fatphobic”. O verdadeiro significado: são aquelas duas frases, sim, mas muitas outras — “apenas saio com pessoas magras”; “ter medo de ganhar peso novamente”; “programas de televisão como o ‘Peso Pesado’”; “ter apenas amigos magros”, entre outras.

Falar sobre isto, garante, pode gerar sentimentos desconfortáveis e até recordar momentos do passado, mas “é aqui que realmente começa a mudança”. Nos comentários, muitas pessoas concordam com o pensamento de Madalin Giorgetta, mas há quem simplesmente não acredite nesta fobia. Alguns, inclusive, dizem que adoram desporto e, por isso, acabam por só ter “amigos magros”, que também praticam — mas que não é por isso que são obeso fóbicos.

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