Saúde

“Ficamos com os doentes 72 ou 84 horas numa maca. É completamente desumano”

O testemunho de Samuel, enfermeiro no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, confirma que se vive um estado de catástrofe.
Os recursos humanos não são suficientes.

Lisboa, 26 de janeiro, 15 horas. O trânsito e a circulação de pessoas parece-nos semelhante àqueles que existiam antes de ser decretado um novo confinamento. Há quem cumpra a regra e ande de máscara na via pública, mas quem continue a preferir não fazê-lo. Ali, junto do Hospital de São Francisco Xavier, a realidade é outra. Ambulâncias, mais ambulâncias e tendas que servem de apoio ao serviço daquela unidade.

O interior do hospital, esse, não conseguimos tão pouco imaginar como será. Já Samuel Areias, enfermeiro há oito anos e no São Francisco Xavier há quase dois anos, não conhece outra realidade nos últimos meses. Levanta-se todos os dias com o propósito de tentar chegar a todos aqueles que precisam, “sabendo que não vai chegar a toda a gente”.

Em entrevista à NiT, ali perto do hospital, antes de entrar para mais um turno, que nunca se sabe exatamente quando acaba em tempos de pandemia, descreveu-nos como é ser enfermeiro numa altura como esta, os desafios que enfrentam e garante que estamos perante um estado de catástrofe.

Quando se ouviu falar deste vírus pela primeira vez, alguma vez imaginou que poderia tomar estas proporções?
Ninguém imaginou que pudesse atingir estas proporções mas, efetivamente, sabíamos que algum dia iria chegar cá. Ficámos sempre de retaguarda, nunca fizemos nada para que alguma coisa mudasse na verdade, começando pelo governo, indo pelas pessoas todas de chefia. Nunca fizemos nada para que isso mudasse. No início, ficámos simplesmente à espera. “Ele nunca vai chegar, ele nunca vai chegar”, até que chegou. E quando chegou nós não estávamos preparados para tal. Podíamos obviamente ter antecipado esta situação. Nós aqui, trabalhando no meio hospitalar, que é a minha profissão, temos de tentar sempre antecipar o que possivelmente poderá acontecer, neste caso a um doente. E o nosso governo e as pessoas da chefia não o souberam antecipar não uma mas duas vezes. Se da primeira vez poderíamos pensar ou não se ia cá chegar, da segunda vaga não há mesmo desculpa nenhuma. Ficaram todos, todos à espera que não acontecesse e o que aconteceu está à vista de todos. Agora, toda a gente se lamenta.

Qual foi a maior falha de todas?
Não consegui antecipar puro e simplesmente o estado de catástrofe que já estamos e que toda a gente tenta minimizar. Não, neste momento estamos num estado de catástrofe. Só quem não vem a um serviço de urgência é que não consegue ver isso.

Qual é o estado atual do hospital?
Vagas de internamento escassas. Na urgência, nem se fala, ficamos com os doentes aqui, 72 ou 84 horas, deitados numa maca. Acho que é completamente desumano. Se vocês ou qualquer pessoa pudessem ter oportunidade de entrar dentro das nossas instalações e ver como as pessoas ali estão. Não porque estão com maus cuidados da nossa parte — tentamos minimizar tudo isto —, mas efetivamente está num estado muito mau.

Descreva-nos um dia enquanto enfermeiro nesta altura.
Acordar e saber que tenho de ir trabalhar e saber aquilo que vou apanhar todos os dias: entrar para um Covidário, como lhe chamamos, e tentar chegar a todo o lado, sabendo que não vamos chegar a todo o lado. É triste dizer isto. As pessoas sentem-se mentalmente desgastadas neste momento — e digo isto a nível de todos os profissionais de saúde. Já é quase um ano de pandemia e nada mudou.

Quando é que o comportamento da população se alterou?
Posso dar o exemplo do verão. Toda a gente ia para a praia, toda a gente ia fazer a sua vida. Depois, tentou-se fechar outra vez, as pessoas não estão a acatar. Compreendo perfeitamente o buraco que está a criar na economia, mas é aquilo que eu digo: sem pessoas não há economia. E, neste momento, embora estejamos em confinamento, é um dia normal em Lisboa. Toda a gente sai para passear o cão, para ir correr (até pessoas que nunca correram na vida, mas decidiram fazê-lo agora). 

Houve uma diminuição da perceção de risco?
No início, toda a gente — e quando digo toda a gente, é mesmo toda a gente, profissionais de saúde incluídos —, tinha medo. Ninguém sabia exatamente o que é que isto era, o que poderia afetar, pessoas mais velhas ou mais novas. Neste momento, pode bater à porta a qualquer um. Ainda há uma semana, na noite de sábado para domingo, tivemos de entubar uma senhora de 40 anos e ela não tinha morbilidades nenhumas. Eu, que tenho 34, fico um bocado de pé atrás e penso no que nos poderá vir a acontecer no futuro.

Samuel antes de entrar para mais um turno.

Esta vaga podia ter sido preparada de outra forma?
Presumo que não seja só no nosso hospital, mas tivemos meio ano de uma vaga para a outra para preparar fisicamente um hospital para que pudéssemos ter condições mínimas para receber doentes. E em meio ano não se fez nada. Nada. Rigorosamente nada. Andamos há três semanas a mudar doentes, a meter salas com rampas com oxigénio para orientar melhor os doentes porque começamos a receber muitos doentes dependentes nas atividades diárias. Então, tivemos de alterar isso tudo num dia. O que podia ter sido feito em meses foi feito num dia. Andamos a fazer tudo em cima do joelho. Isso é uma gafe muito grande dos pensadores deste País e dos nossos hospitais.

Neste momento, há realmente uma escolha entre quem recebe cuidados e quem fica para trás?
Não é a parte de enfermagem que decide se o doente vai ficar sem um ventilador ou não. Mas, efetivamente, já aconteceu, infelizmente. É um misto de sensações porque sabemos que aquela pessoa sem o ventilador não vai sobreviver e não vai sair dali daquele espaço com vida. Já retiramos o ventilador de uma pessoa que era mais nova e colocar noutra porque sabíamos que aquela pessoa não tinha viabilidade para sobreviver. 

Se não fosse a pandemia, numa situação normal, essa pessoa teria sobrevivido?
Possivelmente. Fora esta pandemia, nós e os hospitais não estaríamos tão sobrecarregados, mesmo a nível de maquinaria. O problema não é nós não termos os ventiladores, o problema é quem é que vai trabalhar neles. Pessoas, médicos, enfermeiros que possam trabalhar neles quando temos dentro de um espaço Covid 70, 80 ou 90 doentes para cinco enfermeiros e três médicos. É completamente insustentável. Basicamente, o que estamos a fazer é avaliar as pessoas que nós cremos que estão pior e tentar salvá-las.

Há espaço para a pandemia ainda piorar mais em Portugal?
Sim, perfeitamente. Ok, não se vê pessoas nos restaurantes porque os restaurantes — e, atenção, contra mim falo, que também ia a restaurantes — mas estamos aqui e vemos as pessoas a fazerem a vida normal como se não estivessem no confinamento. Acredito que tenha possibilidade para piorar face a este cenário.

“Nenhum enfermeiro está preparado para isto, nem nenhum profissional de saúde está preparado para uma pandemia”

Qual é o seu maior receio neste momento?
O meu maior receio é não aguentar. Perceber que, como percebi na primeira vaga, estava no limite. Trabalhava aqui e noutro hospital, ambos na área Covid, andava sempre de um hospital para o outro, e não podíamos marcar férias por causa da pandemia. Quando estava a chegar a um limite, felizmente pude marcar férias e descansar 15 dias, e quando voltei estava com força. É essencial que as pessoas possam descansar. Somos sobrecarregados com turnos extra para colmatar falhas que existem e as pessoas estão a ficar mais cansadas. Não vamos conseguir, como aconteceu na primeira vaga, trabalhar 17 horas e mais 17 horas no dia seguinte. Isso não nos vai levar a bom porto. Quanto maior o número de horas que trabalhamos, maior é a possibilidade de cometermos mais erros. É o preço do cansaço. Não podemos continuar a trabalhar tantas horas seguidas, temos é de tentar trazer mais pessoal para o hospital, coisa que ainda não foi feita. Toda a gente fala em abrir Unidades de Cuidados Intensivos. Eu concordo com isso, que haja mais vagas porque qualquer dia somos todos nós a precisar de um ventilador e não o vamos ter, mas é preciso mais gente a trabalhar na frente e no serviço de urgência. Não podemos ter rácios de 25 e 30 doentes para um enfermeiro. Isso é inadmissível e para qualquer humano é impossível chegar a toda a gente.

Ao longo desta pandemia, qual foi o caso que mais o marcou?
Um dos casos foi aquele que já falei. Foi de sábado para domingo, 16 para 17 de janeiro, em que se tirou o ventilador de um senhor de 60 e tal anos para colocar numa senhora com 70 e tal anos, sabendo que aquela pessoa não ia resistir. Saí do hospital para transferir o doente para a UCI do Egas Moniz e quando cheguei o senhor tinha acabado de morrer.

Como é que se ultrapassa uma situação destas?
Não se ultrapassa. Nós temos de criar anticorpos. Temos de tentar ser fortes. Muitas vezes, em conversas com amigos, falo de coisas que afetam a sensibilidade deles e a mim já não afeta porque temos mesmo de criar anticorpos, caso contrário não podíamos estar a trabalhar num serviço desses nem nesta área. 

Um enfermeiro está preparado para passar por uma crise sanitária deste género?
Não, nenhum enfermeiro está preparado para isto, nem nenhum profissional de saúde está preparado para uma pandemia. Lembro-me que, em 2014, quando foi do Ébola, eu estava a trabalhar em Inglaterra. Foi aquilo que se está a passar agora no mundo inteiro, mas em menor escala e não sentimos tanto. E foi um tempo limitado. Não deixou de haver, tal como a gripe A. Matou muita gente, matou, mas as pessoas não pensam que é uma gripe, como os negacionistas. Quando nos bate à nossa porta, pensamos logo de outra maneira. Enquanto continuamos a não usar máscara e a passar ao lado de uma pessoa que está a fazer a sua corrida higiénica e ele passa e tosse para cima de nós, entre muitas outras coisas, isto vai continuar a piorar.

Quer deixar um apelo ao governo e à população portuguesa?
Ao governo, fartamo-nos de apelar e a conclusão a que chegamos é que nunca vamos conseguir ser ouvidos. Somos muito enfermeiros, porque não nos podem aumentar, não nos podem dar subsídio de risco porque não estamos na frente da batalha. Deram-nos um prémio único de 600€ e qualquer coisa, referente a março ou abril do ano passado, e desse valor tivemos acesso a 300€ porque o resto ficou em taxas. Mas também não estávamos à espera de dinheiro e não vai ser esse prémio que influencia o nosso trabalho. O que nós queríamos era ter a visibilidade que temos enquanto trabalhadores de um hospital e do Serviço Nacional de Saúde. Toda a gente vai bater palmas para a varanda, mas isso não nos traz nada. Quando fizemos uma greve antes da pandemia, não queríamos saber dos doentes. O que eu apelo é às pessoas para ficarem em casa e minimizarem os contactos de risco — e em risco estamos todos — mas, sobretudo, pessoas mais velhas e com morbilidades. É ficar em casa, apenas isso.

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