Saúde

Gouveia e Melo: os momentos e as frases do militar que só queria “cumprir a missão”

Em oito meses foi insultado e empurrado, elogiado e condecorado. E foi implacável com os negacionistas.
O vice-almirante deixou a task force

A visão diária de um homem em farda camuflada nos noticiários era estranha aos portugueses, pouco habituados à presença militar. “Uso camuflado porque para mim isto é uma guerra”, explicou mais tarde o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, que em fevereiro, na fase mais negra da pandemia, assumiu a coordenação do processo de vacinação.

Foi de farda e de botas, em claro contraste com os fatos e gravatas dos políticos que o rodeavam, que agarrou num processo até então manchados por crises e escândalos — e o levou até ao que parece ser o seu fim. Com 84 por cento da população já totalmente vacinada, o coordenador da task force decidiu anunciar esta terça-feira, 28 de setembro, a extinção da equipa que tem gerido o processo.

“Acho que entrego a minha missão. Está terminada e agora fica o núcleo a fazer a transição”, referiu na declaração à imprensa que contou com a presença do primeiro-ministro e da ministra da Saúde. Disse-o já sem a tal farda camuflada, depois de vencida a tal guerra de que falou meses antes.

Agarrou na task force no início de fevereiro, entre escândalos de desvios e vacinações indevidas que prometeu eliminar desde o primeiro minuto. “Gostamos de pessoas transparente e que cumprem regras, qualquer alteração às prioridades era grave e irritava-me”, revelou meses mais tarde sobre os casos negros que o precederam.

Para mudar o curso, deixou várias promessas: “Vamos apertar mais as regras, o aperto das regras é uma coisa importante, e o aperto do controlo também é importante, e também a consciencialização das pessoas que estão no processo.”

As regras apertaram e os casos que até então haviam minado a credibilidade do processo de vacinação desapareceram. O militar nascido em Moçambique e que dedicou parte da vida aos submarinos assumiu a função como “uma missão de grande significado patriótico”.

Assim que se apresentou, traçou metas ambiciosas: queria colocar a máquina a vacinar 100 mil pessoas por dia. Três meses depois, o objetivo era atingido. Em julho, Portugal vacinava mais de 150 mil portugueses num só dia.

“Há quem diga que fiz 31 dias num submarino porque era ambicioso”, explicou em junho numa entrevista ao “Nascer do Sol”. “Ninguém quer sofrer 31 dias por ser ambicioso, eu pelo menos não. Havia uma meta, eu tinha de a ultrapassar“

“Se isto não é um combate, então o que é um combate?”

Na data do recorde absoluto, vacinaram-se mais de 600 mil em apenas quatro dias, o que elevou o País a um dos que mais rapidamente vacinavam a população em todo o mundo. Os elogios vindos de todos os setores tinham um destinatário: Gouveia e Melo.

“Se olhar para os combates anteriores, que conflito é que prejudicou tanto a economia portuguesa, que conflito é que matou tanto em tão pouco tempo?”, questionou ainda em março. “Se isto não é um combate, então o que é um combate?”

Este combate implicava, de tempos a tempos, que o vice-almirante desse golpes mais fortes, não literais, mas na comunicação quase diária que ia mantendo com o País, sobretudo para rebater algumas críticas e dúvidas que iam surgindo.

“Há um mês e meio atrás vacinávamos 60, 70 mil pessoas por dia e achávamos que era uma coisa fantástica. Houve um dia que fomos à 156 mil pessoas e agora estamos nas 100, 90 mil pessoas por dia e achamos que estamos a vacinar pouco. 90 mil pessoas por dia são dois estádios de futebol cheios organizados para o processo de vacinação todos os dias”, atirou em agosto, perante um aparente decréscimo no número de vacinados.

Nem tudo correu na perfeição. A segunda fase da vacinação ficou marcada por muitas e longas filas nos centros. O vice-almirante detetou qual era o problema e não hesitou no momento de apontar o dedo, mesmo que pudesse custar uma queda no índice de popularidade entre os portugueses.

“Não gostei de ver as filas no início do dia. Claro que há muita gente ansiosa. Se houver gente que vem duas horas antes, pensando que estando na fila vai ser atendido primeiro, está errado”, afirmou. “Aqui as pessoas são atendidas por marcação.”

O sistema de marcação implementado pela task force foi também um dos métodos responsáveis pelo sucesso da vacinação gradual de toda a população. Sempre presente, de centro em centro, procurou usar a comunicação para ajustar o comportamento dos portugueses.

“Colinho dá a mãe em casa”, atirou no centro de Monte Abraão, em Sintra, então a enfrentar problemas de eficácia, de agendamento e de longas filas. “Quando a pessoa chega à cabine de vacinação é para ser inoculada e sair, não é para estar a conversar, a tirar dúvidas, isso tem de ser feito antes.”

Chegados ao verão e à fase derradeira da vacinação, abriu-se o processo aos menores de idade, o que provocou a ira dos negacionistas. Numa visita noturna ao Pavilhão Multiusos de Odivelas, onde eram vacinados jovens entre os 16 e os 17 anos, chocou com um grupo de 30 manifestantes anti-vacinação, que ali o aguardavam. O vice-almirante foi o alvo da fúria dos negacionistas, que lhe bloquearam a entrada, entre gritos de “assassino”.

“Nós não temos uma lei que diz que não se pode intimidar? Que diz que não se pode instigar ódio? É aplicar a lei.”

“Olhe, o que estão a dizer agora, genocídio e assassínio, chamam-me assassino, o que quer que eu lhe diga?”, explicou aos jornalistas depois de uma entrada atribulada, entre empurrões.

Sublinhou que todos “têm direito às suas opiniões, mas não têm o direito de a impor aos outros”. “Quando essa opinião é imposta já de forma violenta, deixa de ser democracia (…) não têm direito a empurrar, não têm direito a condicionar as pessoas e, por isso, é que eu entrei ali pela porta principal.”

Como recado final, atirou direto ao “negacionismo e obscurantismo”, que classificou como “os verdadeiros assassinos”. Encerrou o assunto dias depois: “Nós não temos uma lei que diz que não se pode intimidar? Que diz que não se pode instigar ódio? É aplicar a lei.”

Seria confrontado com outra surpresa numa visita posterior, desta vez mais agradável. Foi em Alcabideche que Gouveia e Melo foi recebido entre aplausos dos jovens e pais que ali estavam para a fase de vacinação da faixa dos 12 aos 15 anos.

“Eu acho que este aplauso é a resposta ao que me aconteceu na semana passada. Foi mais para me animar, para me dizerem ‘estamos consigo’. E eu agradeço imenso e fico comovido como é evidente”, explicou durante a visita onde distribuiu crachás da task force pelos jovens.

Não foi preciso deixar chegar o fim da pandemia para que Gouveia e Melo fosse chamado pelo presidente da república. A 19 de agosto, Marcelo Rebelo de Sousa entregou ao vice-almirante a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis, numa cerimónia restrita no Palácio de Belém — uma honra que homenageia a carreira militar do coordenador da task force.

“Eu não sou nenhum Deus, não sou nenhum Super-Homem. Sou só um homem que cumpriu a sua missão.”

O sucesso da vacinação em Portugal chegou rapidamente ao resto do mundo, à medida que o País disparava na tabelas, à frente de outras potências. Em França, por exemplo, atribuía-se o estatuto de “campeão mundial da vacinação” a Portugal, num título “em parte devido ao rigor e compostura do oficial naval a cargo da missão”. Nas páginas do “Financial Times”, é descrito como o “herói discreto” do programa de vacinação português que comanda o pelotão na Europa.

Quase oito meses depois de ter assumido o cargo, Gouveia e Melo deixa um País quase completamente vacinado e regressa a casa com o estatuto de herói. Com os índices de popularidade em alta, o militar representava para muitos uma forma de trabalhar diferente daquela a que Portugal estava habituado. O vice-almirante não o negou.

“Como povo, temos coisas fantásticas, mas, ao nível organizativo, acreditamos muito no improviso”, explicou. Os elogios chegaram de tal forma que muitos ponderaram se não seria este o início de uma carreira política, à imagem de Ramalho Eanes.

“Qualquer ser que apareça como salvador da pátria é mau para a democracia. A democracia salva-se em conjunto. Não é uma personagem que salva a democracia. Isso cheira a outra coisa. Eu não quero ser essa pessoa.”

Sem outras ambições que não a de terminar a sua vida como militar, fez ainda questão de colar a si o esforço de um povo. “Sem a comunidade não tínhamos chegado a este nível de vacinação. Eu não sou nenhum Deus, não sou nenhum Super-Homem. Sou só um homem que cumpriu a sua missão.”

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