Saúde

ILGA preocupada com discriminação a gays por causa da varíola dos macacos

A associação de defesa dos direitos da população LGBTI diz que a comunicação da doença "está a reforçar lógicas de estigma".
Casos confirmados são todos homens.

Existem 14 casos ativos de varíola dos macacos em Portugal. Esta quinta-feira, 19 de maio, a Direção-Geral da Saúde (DGS) adiantou que estão também a ser analisados mais dois de casos suspeitos. Ainda pouco se sabe sobre a origem e os métodos de infeção que deram origem a este surto que deixa as autoridades de saúde mundiais em alerta. Porém, até ao momento, uma coisa é certa: apenas os homens foram infetados. 

Segundo os dados partilhados pelas autoridades de saúde britânicas e portuguesas, a maior parte dos infetados são homens jovens, com idades compreendidas entre os 30 e os 40 anos, que mantiveram relações sexuais com outros homens. 

As informações veiculadas pelas várias entidades de saúde nacionais e estrangeiras já começaram a gerar alguns comentários negativos nas redes sociais, direcionados à comunidade homossexual. Ana Arestas presidente da Associação ILGA Portugal — Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo confirma à NiT: “Ainda não recebemos até ao momento nenhuma denúncia, mas como temos um observatório de queixa que é analisado à posteriori, mais à frente podemos ter uma noção mais clara desses dados”. 

Para a presidente da associação: “A forma como a informação foi veiculada pelas autoridades de saúde e pelos meios de comunicação acaba por reforçar lógicas de estigma às quais a população LGBTI continua, infelizmente, a ser sujeita e que acabam por ser visíveis nos comentários das redes sociais e de fóruns”.

E acrescenta: “Não nos podemos esquecer de que até há poucos anos as vivências das pessoas desta comunidade foram associadas à doença e ao crime e esse registo continua instalado na nossa comunidade. É por isso que estas notícias resultam em muitos passos atrás nos avanços que temos dado ao longo dos últimos anos”. 

A representante da ILGA sublinha que “neste momento é importante esclarecer toda a população sobre esta doença da forma mais detalhada e de forma não estigmatizante”. E diz à NiT: “Já estamos em contactos com a Direção-Geral da Saúde e as restantes associações para garantir que isto seja revertido, porque infelizmente não é a primeira vez que acontece”. O objetivo é “criar caminhos para que todas as pessoas sejam esclarecidas e que não coloquem as pessoas LGBTI neste contexto de estigma”.

O médico Gustavo Tato Borges, presidente em exercício da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), explica à NiT: “Ainda não se conseguiu encontrar uma justificação para o facto de serem só homens infetados com o vírus. Não há nada na doença que indique que só afeta homens, pode ser apenas uma coincidência. Enquanto não se encontrar a ligação entre os infetados é difícil tirar alguma conclusão”.  

Segundo o especialista em saúde pública, estes pacientes podem ter sido infetados “numa viagem ou através de contacto próximo com alguém que visitou um destino em que este vírus circula com mais facilidade e ativamente, como é o caso de alguns países africanos”.

Gustavo Tato Borges acrescenta que “podem ter contraído o vírus em algum desses países e depois terem regressado, já infetados, a Portugal”. Ainda assim, sublinha que as investigações ainda decorrem e não sabem se “este cinco casos viajaram juntos, se trabalham juntos, ou se têm efetivamente alguma relação, por isso, ainda se torna difícil enquadrar em que condições se deu o contágio”.

varíola dos macacos, como é conhecida, é uma patologia viral, geralmente transmitida pelo toque ou mordida de animais selvagens portadores do vírus Monkeypox, como macacos e roedores na África Ocidental e Central. O período de incubação da varíola dos macacos é geralmente de 6 a 13 dias, mas pode variar entre 5 e 21 dias.

Esta doença é em muitos aspetos semelhante à varíola, erradicada em 1979 — mas menos transmissível e menos mortífera. Por isso, o risco para a saúde pública é considerado baixo, mas, em alguns casos, a doença pode evoluir para sintomas mais graves. Saiba como neste artigo da NiT.

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