Saúde

Instagram foi acusado de censurar fotos de modelo negra — seguiu-se o caos

A situação deu mais força aos protestos anti-racismo e até foi criada uma hashtag nas redes sociais.
A modelo tem 28 anos.

Não foram precisos mais do que 15 minutos. Nesse período, Nyome Nicholas-Williams deu imagens perfeitas à fotógrafa Alexandra Cameron. A modelo negra de 28 anos, que mora em Londres, no Reino Unido, embora tenha origens dominicana e jamaicana, partilhou o resultado final nas suas redes sociais e aconteceu o que nunca esperou: o Instagram eliminou as fotografias.

Numa delas era possível ver a modelo com uma incrível luz natural, de olhos fechados e com os braços a cobrir o peito. Os comentários dos seus mais de 38 mil seguidores rapidamente multiplicaram-se: “Deslumbrante”, “lindo” e “isso devia estar numa exposição”. A imagem estava a ter imenso sucesso até a rede social decidir apagá-la e enviar uma mensagem a ameaçar cancelar a conta de Nyome.

“Milhões de fotos de mulheres brancas e nuas e magras podem ser vistas no Instagram todos os dias”, disse Nicholas-Williams, citada pelo jornal britânico “The Guardian” a 9 de agosto. “Mas uma negra gorda celebrar o seu corpo é proibido? Foi chocante para mim. Sinto que estou a ser silenciada.”

Os seus seguidores também não ficaram contentes e decidiram partilhar em massa a tal fotografia da modelo, juntamente com a hashtag #IWantToSeeNyome (em português, #EuQueroVerANyome). Porém, o tratamento era o mesmo: a imagem era eliminada e chegava a ameaça de eliminar a conta desses utilizadores.

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It took me a long time to be comfortable and confident in my frame. I will not be policed my body will not be censored as there is not a single thing wrong with it. Okay great Instagram has put @alex_cameron and I’s picture back up as they knew they made a mistake but I am getting so many messages from my followers letting me know that they still cannot post up the images in support with the hashtag #iwanttoseenyome I very much believe that an apology has to be as loud as the disrespect. It’s all well and good putting my image back up but why do you continually take them down from everyone else’s stories and grid when support wants to be given so that CHANGE can be implemented? I spoke with Instagram earlier and I was apologised to about my images being wrongly taken down, but it’s not loud enough and I am still not seeing change. I won’t stop speaking about this, a change has to be actively made or my mouth will keep running…tbh when changes are made my mouth will continue to run as there is always work to do and things can always be better.

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A modelo, que é agenciada pela Contact, desabafou nas redes sociais: “Levei muito tempo para me sentir confortável e confiante no meu corpo. Não serei perseguida, o meu corpo não será censurado, pois não há nada de errado com ele”, escreveu.

Nas horas seguintes, a plataforma, que tem centenas de milhões de utilizadores, foi repetidamente acusada de discriminar pessoas negras, reacendendo os protestos anti-racismo.

Alexandra Cameron, fotógrafa há mais de uma década, e que conta com milhares de fotos na sua conta, ficou furiosa com a aparente discrepância entre o que o Instagram diz e o que realmente faz.

“Eu publiquei muito mais fotos de mulheres — mulheres brancas — que usavam [menos] roupas do que a Nyome e que nunca foram denunciadas ou apagadas. Esta foi a primeira vez que algo assim me aconteceu, e continuou a acontecer porque fui republicando as fotos e elas continuavam a ser excluídas”, escreveu na sua conta de Instagram.

“O que há no corpo de uma mulher negra plus size que é tão ofensivo e tão sexualizado? O feed da ‘Playboy’ está cheio de modelos brancas nuas e é tudo voltado para o olhar masculino, que é o oposto do que eu faço, e elas podem ficar”, continuou.

Segundo as diretrizes da comunidade da plataforma, a nudez ou atividade sexual é restrita, mas é analisada caso a caso. Os mamilos femininos, ao contrário dos masculinos, foram proibidos há muito tempo e os fotógrafos usaram forma para de os cobrir, usando desde folhas a emojis, blocos de censura pretos e, muitas vezes, como no caso de Cameron, os braços da modelo ou um ramo de alfazema.

“Ironicamente, era para ser uma sessão de fotos de confiança”, disse a fotógrafa, descrevendo o estilo de fotos que ela faz especificamente para aumentar a autoestima feminina. “Onde está o nível de confiança de Nyome agora?”, questionou.

Muitas tentativas depois, no dia 31 de julho, o Instagram permitiu que a fotografia ficasse no Instagram de Cameron — já os seguidores que tentaram fazê-lo com a hashtag de apoio não conseguiram, denunciou a modelo.

Embora tudo isto se tenha passado no final de julho, o pedido de desculpas do Instagram só chegou mais de uma semana depois. “Não devia ser precisa uma tempestade nas redes sociais para que as imagens permaneçam online ou para o Instagram me pedir desculpas. As minhas imagens e o meu corpo devem ser respeitados o suficiente para ficar numa plataforma que é para ‘TODAS’ as pessoas”, desabafou a modelo numa publicação feita a 9 de agosto.

Nyome Nicholas-Williams, que já fez campanhas para a Adidas e para a Dove, por exemplo, explicou que a plataforma pediu desculpas por ter removido as imagens por engano. No entanto, na sua opinião, o pedido não foi “suficientemente alto” e continua à espera de uma mudança.

A modelo já contou aos seus seguidores que lutou contra um distúrbio alimentar quando era adolescente e trabalhou muito para amar o seu próprio corpo. “É um processo, mas agora não tenho remorsos e quero promover o amor-próprio e a inclusão porque é assim que me sinto e que quero que outras mulheres como eu se sintam”, disse.

“Faz diferença ser uma mulher negra gorda e ter orgulho. Mais mulheres negras têm entrado em contato comigo para dizer que aconteceu o mesmo com elas. Por isso, eu sei que não estou sozinha”, desabafou.

Apesar do pedido de desculpas, com a publicação do “The Guardian” as menções à hashtag aumentaram e os seguidores do Instagram pedem um esclarecimento público por parte da rede social.

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