Saúde

João Francisco Lima: “Só falo sobre saúde mental enquanto sentir que acrescento algo”

O filho do ator Pedro Lima mantém uma relação muito próxima com o tema. Agora, conta à NiT que decidiu fazer uma pausa
João Francisco Lima tem 25 anos.

Apesar de viver em Dubai, João Francisco Lima é cada vez mais conhecido entre os portugueses, sobretudo desde o suicídio do pai, o ator Pedro Lima, em 2020, aos 49 anos. A partir daquele momento, o jovem começou a consumir tudo o que tivesse a ver com saúde mental. Primeiro, para que pudesse resolver os próprios temas pessoais. Depois, para ajudar os outros a superarem as dificuldades. 

Passado pouco tempo, já estava a dar palestras e envolvido em vários projetos relacionados com o tema. Agora, João Francisco Lima, de 25 anos, explica à NiT que decidiu fazer uma pausa consciente no seu percurso — mas que continua disponível para ajudar todos aqueles que o procuram.

Como é que começou esta sua jornada de interesse pela saúde mental?
A caminhada começou logo após a morte do meu pai, em 2020. Faz mais ou menos três anos e meio que comecei a falar sobre o tema, porque foi algo que me começou a tocar a mim próprio.

Antes do acidente ter acontecido, já existia interesse neste assunto, da sua parte?
Não havia tanto interesse, o que não quer dizer que não existisse curiosidade. Não era algo com que tivesse grande afinidade, mas depois do que aconteceu ficou claro para mim que havia muita falta de informação em Portugal. Comecei a fazer terapia, faço até hoje e honestamente é algo que acredito que vou fazer para sempre. É um momento que me obriga a estar em convivência comigo próprio, e isso faz-me bem.

Na altura, como foi a sua aproximação ao tema? Começou a procurar informação, recorreu a especialistas, livros, páginas direcionadas ao assunto?
A verdade é que há muitas coisas que se podem fazer, quando nos queremos relacionar com a saúde mental. Honestamente, sou muito cético em relação às páginas do Instagram, porque a meu ver muitas vezes acabam por ser sensacionalistas. As pessoas falam sem conhecimento para o fazer, não existe nenhum tipo de critério ou filtragem e isso pode acabar por induzir muita gente em erro. Quando procuramos ajuda temos de ter a certeza de que a pessoa que está do outro lado é capaz, ou seja, que está dentro do tema e não apenas que tem muitos seguidores nas redes sociais e que por isso eu posso confiar nela. É uma das coisas que promovo muito, procurem sempre ajuda de alguém que esteja dentro da temática da saúde mental e do bem-estar, acima de tudo que seja uma voz ativa. Eu próprio nunca abordo nenhum pormenor técnico sem antes ter sido feita uma revisão por parte de um psiquiatra meu amigo. É importante saber travar a fundo, quando estamos expostos a tantos estímulos, mas a verdade é que há vários sítios onde nos podemos informar de forma segura.

O que significa para si ser embaixador da saúde mental?
Não sendo um profissional de saúde, acaba por ser uma maneira até de eu próprio me obrigar a ter boas práticas, de partilhar a minha experiência e de tornar o assunto mais fácil. Baseio-me muito no que me aconteceu, no meu próprio caso, e isso acaba por gerar muita identificação, por parte do público. O que eu faço é estar disponível para ouvir quem me procura e tento direcionar e partilhar o meu ponto de vista, sem qualquer tipo de julgamentos, porque na saúde mental não há espaço para isso. Temos sempre de ser um espaço seguro para os outros, porque se eles sentem que há alguma coisa que não os deixa completamente à vontade, podem acabar por contar apenas uma parte de aquilo que os está a atormentar — e às vezes é aquilo que ficou por dizer que mata.

Como é que todo este caminho evoluiu para as palestras que dá sobre o tema?
A verdade é que foi algo muito fácil e natural, comecei a participar em alguns podcasts, algumas entrevistas e depois acabou por surgir o primeiro convite. Até acredito que muitas das conversas que tive na altura da pandemia tivessem tido publico, se as condições tivessem sido outras. Isto para dizer que não foi algo estratégico, só fui aceitando e fi-lo com todo o gosto. Hoje em dia já fiz muitas coisas positivas, uma Tedx no Porto (2 de abril de 2022) e já trabalhei com várias marcas, a promover o assunto, como foi o caso da Sportzone, da EDP e do Leroy Merlin. Além disso, tornei-me o primeiro embaixador oficial português do Movember, um projeto internacional no qual estou envolvido [no qual os homens deixam crescer o bigode ao longo do mês de novembro para alertar para a prevenção de doenças masculinas]. Nas minhas iniciativas ao longo dos últimos dois anos conseguimos angariar quase 20 mil euros.

Que temas costuma abordar nas suas palestras?
Não falo sempre do mesmo, tento sempre adaptar consoante aquele que vai ser o meu público. É diferente falar para uma escola de miúdos, para uma universidade ou para uma empresa. Depois, claro, o discurso também muda, bem como o tom, mas a mensagem que quero passar é a mesma.

Fala sempre no acidente do seu pai?
Tenho de falar porque tenho de dar o contexto de quem sou e porque é que estou ali. Se a plateia já me conhecer isso não é necessário, mas caso isso não aconteça, é aquilo que falava há pouco, temos sempre de conferir credibilidade a quem estamos a ouvir. Não o faço para que as pessoas gostem de mim, quero apenas que percebam a minha história e que através dela consigam levar ferramentas para a sua vida. Ainda assim, cada vez mais me vou distanciando, porque a verdade é que apesar disso ser a minha base eu já evolui muito e tenho-me focado muito na minha própria educação literária e, portanto, acredito que vá ser um processo gradual.

Há alguma palestra que destaque, daquelas que já fez?
Se for pela dimensão, é claro que a que mais me orgulho é de dizer que tenho uma ted no site oficial com o meu nome, mas isto é um pouco questão de ego, que não é o objetivo. Tenho outras que me marcaram muito por outros motivos, por exemplo, a que fiz com a Bondi, numa Praia da Caparica, aí senti que foi uma coisa muito impactante. Também gostei muito de participar no “Somos Todos Malucos”, o podcast do António Raminhos. Foi um momento muito divertido e as pessoas relacionaram-se muito com a interação que tivemos os dois. Outro dos projetos que não posso deixar de mencionar é o “DAM”, o podcast que fiz juntamente com a Ticas Graciosa.

Tem alguma palestra marcada, daqui para a frente?
A verdade é que eu estava a viver na Irlanda, agora estou no Dubai, eu próprio estou numa fase de adaptação e esta não é a minha ocupação principal. Estando mais longe é mais difícil, porque antes rapidamente dava um saltinho a Lisboa e voltava. Agora estou numa fase em que estou a repensar o meu papel. Só vou falar deste assunto enquanto sentir que tenho algo a acrescentar e neste momento isso tem sido difícil. Estou mais focado agora em voltar a educar-me e depois voltar a partilhar o meu conhecimento, com isto quero dizer que tenho feito um afastamento muito consciente. Fazer tudo ao mesmo tempo estava a deixar de ser saudável e estava a ser difícil. Comecei a reconhecer traços em mim que me davam sinais de cansaço e de exaustão. O meu humor estava pior, tinha menos disposição para fazer as coisas, e por isso percebi que tinha de me resguardar um pouco, mas não é uma retirada, é só um momento de repouso.

O seu livro, “Já Não Sou o Que Era Agora Mesmo”, esteve nomeado para o prémio de Livro do Ano, da Bertrand. O que é que isso significou para si?
Não ganhei, mas fiquei super feliz por fazer parte de um grupo tão restrito de pessoas e que estava cheio de talento. Na altura, a partilha dos meus textos fez todo o sentido e foi muito importante porque ajudou muitas pessoas a tomar decisões importantes. Quando digo decisões importantes, falo em pessoas que escolheram viver, e é claro que isso me preenche. Sentir que posso fazer alguma coisa para ajudar alguém que está perdido e não vê solução à frente é muito gratificante.

Pensa publicar mais algum livro?
Eu não parei de escrever, tenho escrito alguns artigos para jornais e escrevo muito para mim. Tenho pensado de que forma é que posso vir a partilhar estas histórias com os outros, porque é de apreciação comum que aquilo que escrevo merece ser partilhado. Acho que é bom perpetuar as coisas no tempo, de forma duradoura e, portanto, escrever um livro propriamente, não sei, mas estou a tentar descobrir o que fará mais sentido. Talvez até criar uma página satélite nas redes sociais, vamos ver.

Era atleta de râguebi, ainda pratica desporto? Como é que sente que isso o ajuda a trabalhar a sua saúde mental?
Atualmente jogo padel recreativo, duas a três vezes por semana, com amigos. Ajuda-me muito sim, não consigo passar o dia sem fazer algum tipo de atividade física. O corpo sente e precisa disso, nem que seja uma caminhada, é mesmo importante estimularmo-nos porque está mais que provado que os benefícios não são só para o corpo, são para a cabeça também. E a verdade é que sempre fui um apaixonado por tudo o que é desporto de alta competição, sou sportinguista, mas não gosto apenas de ver o Sporting a jogar. Gosto de me sentar, ligar a televisão e ver qualquer tipo de jogo em que haja competição à séria.

Qual é a importância de falar sobre a saúde mental?
É muita, nunca podemos esquecer ou deixá-la de lado. Quando dermos por nós podemos já nem a ter e, portanto, temos de reconhecer características em nós próprios. Queria deixar aqui a porta aberta a todos aqueles que precisem de alguém para falar. Podem enviar-me uma mensagem, eu leio sempre tudo. Há vezes em que não respondo e vou explicar o porquê: tenho sempre muito cuidado em tudo o que digo, e quando sinto que não estou preparado ou não vou ser capaz de ajudar aquela pessoa, prefiro não interagir, porque não quero ser responsável sobre algo a que não consigo corresponder. De qualquer forma, estou cada vez mais apto e capacitado para falar sobre o assunto, fiz agora um curso de coatching, durante oito meses, e foi para entender se realmente tinha capacidades para aprofundar e intervir de forma mais assertiva. Cada vez começo a sentir mais segurança.

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