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Saúde

Jovens portugueses têm pior saúde mental que pessoas com mais de 55 anos. Porquê?

As redes sociais são apenas um dos fatores que contribuem para os números preocupantes.

Os números não enganam. A 26 de fevereiro, o relatório anual Global Mind Health 2025 mostrou que, apesar de haver fortes laços familiares e bons hábitos alimentares, os jovens portugueses, com idades entre os 18 e os 34 anos, têm uma pior saúde mental do que a faixa etária acima dos 55 anos. Esta tendência estende-se aos 84 países analisados.

O estudo, organizado pela Sapien Labs, que se foca na ciência neurológica, recolheu dados de aproximadamente um milhão de pessoas com acesso à Internet. O nosso País surge no 46.º lugar dos territórios com melhor saúde mental, com uma pontuação de 40 numa escala entre -100 e 200.

Segundo o que a psicóloga Patrícia Câmara conta à NiT, “é difícil dar uma resposta única” sobre a razão deste fenómeno. Para a especialista, o que está em causa não se resume à tristeza ou à depressão clássica, mas sim ao mal-estar mais estrutural, que reflete “uma atmosfera que não está muito respirável”. Há, sobretudo, uma sensação de pressão constante, de incerteza e de perda de perspectiva para o futuro.

Estes fatores resultam, principalmente, da fragilização do sentido de comunidade e do reforço de dinâmicas mais individualizadas. A psicóloga sublinha que, nos últimos tempos, houve um movimento centrado nas necessidades individuais, em detrimento das coletivas, o que acabou por gerar mais solidão. “A saúde mental nunca será a ausência de laços sociais com a comunidade”, realça.

O impacto dos telemóveis e das redes sociais é outro dos fatores frequentemente apontados. “Não há a possibilidade de digerir o que nelas se passa”, lamenta. O problema não reside, então, apenas nas plataformas digitais, mas na forma como estas se inserem num contexto de hiperestimulação permanente.

Isto porque, atualmente, os jovens portugueses vivem num ambiente “muito intoxicado de informação que nos rouba capacidade de organização mental e de contemplação”, o que não dá a hipótese de refletirem sobre aquilo que estão a vez e, por vezes, a sentir. Esta aceleração constante dificuldade algo essencial: a capacidade de estarem a sós consigo próprios.

“Isto tem-se vindo a acentuar pelo sofrimento psicológico que não passa tanto pela tristeza, mas sim pela perda de sentido”, explica. A tensão mundial é outro problema incontornável. As guerras contribuem, afinal, para uma maior sensação de ameaça global.

Os conflitos internacionais acabam por impactar diretamente o sentido de futuro dos jovens, que sentem as suas expectativas ameaçadas. “A sensação de futuro e entusiasmo ficam cortados pelo que parece ser a diminuição de algumas possibilidade que tínhamos há 15 anos.” Apesar de haver, em muitos casos, laços familiares mais fortes, Patrícia Câmara alerta que isso não é suficiente para travar o sofrimento.

Para a psicóloga, assiste-se também a uma diminuição do pensamento em profundidade sobre a própria existência. O que é que isto significa? Não temos tempo (e espaço) para refletirmos. “A nossa capacidade de digerir tudo o que acontece é difícil, especialmente para quem cresceu com a Internet e redes sociais.”

A consequência é um ambiente de hipervigilância e autoproteção entre os jovens portugueses, quase como “se nos fechássemos ao mundo”. “Quando formamos paredes à nossa volta, empobrecemos a nossa vida”, lamenta.

Patrícia Câmara também deixa alguns conselhos para contornar esta tendência. Antes de mais, deve parar para pensar sobre tudo e, também, um “questionamento sobre o que se vai passando nas redes sociais”.

A psicóloga sugere também a criação de mais formas de estar com os outros, reforçando vínculos reais e experiências partilhadas. “Vamos aprender coisas sobre os outros quando vivemos e isso vai trazer-nos respostas interessantes para lidarmos com as nossas questões”, afirma.

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