Saúde

Ana deixou as urgências e hoje é enfermeira a bordo de um cruzeiro

Começou em 2021 e hoje é enfermeira chefe. É cada vez mais uma alternativa para os enfermeiros que deixam Portugal.
Tem esta profissão desde 2022.

Foi durante um dos muitos cansativos turnos da noite que Ana Barbosa começou a ponderar mudar de vida. “Eu e as minhas colegas falávamos do estado atual do SNS, de como as coisas estavam muito difíceis em Portugal e pensei que não podia ficar nesta situação de aperto para sempre, alguma coisa tinha de mudar, portanto, foi uma necessidade”, recorda a enfermeira de 28 anos à NiT. Assim fez.

Para trás ficou uma casa alugada em Lisboa com uma renda incomportável. A reviravolta foi total. “Sou natural de Tondela, tirei o curso de enfermagem na Guarda e em 2018 acabei por vir para a capital. Trabalhava com uma equipa que era como uma família, mas soube que existia uma vaga em aberto para ser enfermeira num cruzeiro, tinha visto uma publicação e foi naquela hora que decidi que me ia candidatar.”

No final de 2021 enviou a carta e esperou. Nunca teve grande esperança numa resposta positiva, mas a verdade é que ela chegou e, a cada fase de recrutamento, foi passando até ser a escolhida. “Meti a minha vida inteira em duas malas e fui com um sentimento de tristeza por estar a deixar o meu País. Ainda assim, sempre fui muito aventureira e por isso também ia expectante.”

Em 2021 fez o seu primeiro cruzeiro e em março deste ano estreou-se como enfermeira chefe nos Alasca Seasons, cruzeiros de sete dias, sempre com o mesmo itinerário. Já é o quinto contrato que faz para, sendo que conta passagens por países como o México e outras zonas dos EUA.

“O dia a dia é muito semelhante ao de uma urgência normal, nós temos de responder a qualquer situação que apareça. No total o cruzeiro tem praticamente 4000 pessoas, portanto há sempre alguma coisa a acontecer. Apesar de os passageiros virem para estar de férias, é normal acabarem por adoecer, isso pode acontecer em qualquer lugar. Além disso, todos os tripulantes também precisam de manutenção, por isso há sempre trabalho.”

 

Atualmente a sua equipa conta com sete pessoas: dois médicos (um deles chefe), três enfermeiros e uma assistente operacional, que tem uma função um pouco diferente daquela que é reconhecida em Portugal. “A pessoa que desempenha este cargo tem de fazer duas coisas distintas: ter a capacidade de fazer a triagem inicial e, ao mesmo tempo, uma parte administrativa e de receção.”

As viagens são de quatro meses, sem quaisquer dias de folga. Trabalham em turnos rotativos de 12 horas, uma vez que o serviço médico está disponível 24 horas, e num dia bom em que param em destinos, conseguem sair do barco cerca de três horas. Já chegou a estar 12 dias em alto-mar, numa viagem até à Polinésia Francesa.

“Hoje em dia já não saio tanto, ao início tinha mais essa necessidade, agora também com o novo cargo tenho de tratar de mais burocracias e este roteiro também já o conheço bem. São alturas intensas, mas depois nos dois meses de descanso podemos desligar completamente de tudo o que se passa e viver a nossa vida social”, explica.

Ao fim de tantos dias sem folgas, chega o merecido descanso. Por cada dia de trabalho, tem direito a meio-dia de férias. Quando não estão embarcados, ou seja, no período de pausa entre contratos, não recebem salários. Outra das dificuldades da profissão, na perspetiva de Ana, é o facto de trabalhar e morar praticamente no mesmo sítio. “As habitações são na parte de trás da clínica e por isso sempre que acontece alguma coisa damos conta disso e acabamos por ir sempre ajudar. É difícil desligar o chip.”

“Nós aqui somos capazes de fazer o que qualquer urgência faz. O material que temos está limitado pelo espaço, que não é muito, mas mesmo assim conseguimos ter ventiladores, raio-x, eletrocardiogramas e fazer análises, por exemplo. É um serviço completo e o que temos de pensar é que os acidentes também podem acontecer em terra”, explica. “A nossa função aqui é estabilizar o doente, obviamente há coisas que não conseguimos ser nós a fazer. Há pouco tempo tive um doente que teve de sair de helicóptero porque precisava de uma tomografia craniana, que nós aqui não temos a capacidade de fazer. Então coordenamos com a outra parte da equipa que está fora e que também faz parte do centro de operações medicas de empresa, e encaminhamos o paciente, que dependendo do sítio onde estamos também pode ir de ambulância.”

Os problemas mais comuns são as infeções respiratórias, isto porque as viagens que faz atualmente percorrem zonas de muito frio. Também surgem muitas doenças cardíacas, quedas que resultam em feridas e fraturas. “Também temos a capacidade de ser nós a colocar o gesso, por exemplo. Ultimamente têm surgido mais enfartes, mas é uma situação que controlamos facilmente porque temos medicação para dissolver o coagulo e enquanto são feitas as analises já está a ser feita a comunicação com os médicos fora do barco.”

O ambiente dos cruzeiros propicia também o consumo de álcool, que resulta invariavelmente em visitas ao consultório de Ana. “Há situações muito caricatas, dão grandes quedas e depois quando estão connosco dizem que somos os heróis deles, dão nos imensos elogios e dizem que lhes salvámos as férias.”

 

Para entrar nesta carreira, Ana aponta para os três anos obrigatórios de experiência em serviços intensivos, ser fluente em inglês, ter formação em suporte avançado de vida e uma capacidade emocional muito forte para estar longe de casa e da família. Além de Ana, há mais dois enfermeiros portugueses a bordo. “Acaba por ser reconfortante tê-los comigo, é como se um bocadinho do País tivesse vindo também.”

Ana refere que apesar de o salário ser superior ao de um enfermeiro em Portugal (apesar de por questões contratuais não poder revelar de quanto é), está muito relacionado com a carga horaria que têm. De qualquer forma, nota que mesmo que a recompensa monetária fosse semelhante, teria apostado na nova carreira, porque “permite conhecer outros cantos do mundo e realidades”. “É enriquecedor não apenas pelo dinheiro”, conclui.

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