Saúde

Luto parental: “A morte de um filho é demasiado dolorosa, seja qual for a sua idade”

A psicóloga Rute Agulhas explica como lidar com a perda de um filho. "Não existe uma receita para se lidar com esta situação".
Não se torna mais fácil.

Cristiano Ronaldo e Georgina Rodríguez anunciaram na passada segunda-feira que perderam um dos gémeos que estavam à espera. O craque português comunicou através das redes sociais o falecimento de um dos bebés durante o parto. Ainda não foram divulgados pormenores sobre o que poderá ter levado a este desfecho trágico. Entretanto, Ronaldo foi visto a sair do treino de quarta-feira, visivelmente abatido. 

“É a maior dor que quaisquer pais podem sentir”, escreveu o craque português nas redes sociais. A perda de alguém muito significativo é uma situação fortemente indutora de stress e sofrimento. Porém, a morte de um filho é especialmente dolorosa — seja qual for a sua idade — com um impacto muito negativo no bem estar da família e, em particular, dos pais. A psicóloga Rute Agulhas sublinha que “a dor de cada um dos pais não deve ser comparada — é algo incomparável e os pais podem vivenciar e expressá-la de modo diferente.”

Os sentimentos envolvidos num processo de luto são universais e, ao mesmo tempo, únicos a cada pessoa. “Não existe uma receita para se lidar com esta situação”, indica a especialista. “É importante que os pais consigam compreender e possam expressar o que sentem, aceitando que podem sentir emoções tão diversas como raiva, culpa, tristeza ou revolta”, salienta. É um processo demorado, sem duração determinada à partida. “Os pais devem permitir-se viver as várias fases desse processo sem pressa e sem comparações com outras pessoas”, frisa Rute Agulhas.

“É especialmente importante ativar a rede de suporte social, que pode ajudar os pais a sentirem-se acompanhados e apoiados. A elaboração da perda é conseguida quando se aceita o que aconteceu, começando a surgir maior confiança e esperança no futuro, a par de um progressivo reenvolvimento nas atividades do dia a dia”, explica a especialista em psciologia. 

O craque português já retomou os treinos, embora com um semblante visivelmente carregado. No entanto, quando o regresso às atividades do dia a dia depois de um longo período de luto não acontece, isso pode ser um sinal de que é necessário acompanhamento clínico. Atualmente o período de luto para pais que perdem um filho, em Portugal, é de 20 dias.

Sinais de que os pais precisam de ajudam

Alguns comportamentos denunciam que os familiares enlutados necessitam de ajuda profissional e especializada para tentar ultrapassar o momento dramático. “Tristeza intensa e dor emocional persistentes, dificuldade em aceitar a morte e culpar-se pela mesma” são alguns sinais de alerta. Quando nos apercebemos que alguém que está a numa situação de luto e “se sente anestesiado, ou desligado das pessoas que lhe são mais próximas, ou que se mostra relutante em procurar interesses ou em planear o futuro é altura de procurar apoio”, alerta a clínica.

O que não se deve dizer 

Segundo Rute Agulhas, é importante evitar dizer “tudo o que possa traduzir negação, minimização, invalidação ou incompreensão pelo sucedido”.

Frases como “tenta não pensar nisso”; “não tens motivos para estar assim”; “pensa nos outros filhos que tens”; “estás a demorar muito tempo a ultrapassar isto” não devem ser ditas nestas situações.

A psicóloga explica que “dizer para deixar de estar triste, pode aumentar os sentimentos de culpa”. Por outro lado, “mudar de assunto ou tentar distrair os pais quando estes falam sobre o tema pode potenciar sentimentos de rejeição e de incompreensão”.

Nestas alturas muito difíceis o melhor é tentar “estabelecer uma relação empática e validar aquilo que estão a sentir. Dar-lhes espaço para a expressão emocional e oferecer o apoio que necessitarem”. Rute Agulhas salienta ainda que as pessoas mais próximas “devem estar especialmente atentos a eventuais sinais de alerta para uma reação mais patológica (nos pais, outras crianças ou outros familiares)”. 

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