Saúde

Médico alerta: “Há cada vez mais doentes não controlados ou com diagnósticos tardios”

Nuno Amândio, médico de Medicina Geral e Familiar, alerta para o risco crescente de adiar a resposta a uma doença aguda.
Não desvalorize sintomas.

A pandemia colocou o mundo inteiro perante toda uma nova emergência. Foi preciso reforçar serviços de saúde, apostar mais teleconsultas e, na pior fase em Portugal, assistimos a alguns hospitais a passar por situações limite para dar resposta a tantos doentes.

A Covid-19 colocou uma pressão nova sobre hospitais e profissionais de saúde. Mas está também a ter consequências na resposta que é preciso dar a outras doenças — e que não pode ser adiada. É isso mesmo que dá conta à NiT Nuno Amândio, médico de Medicina Geral e Familiar no Hospital CUF Porto. E este é um desafio que se nota cada vez mais em consultório.

“As doenças estão a agravar-se durante a pandemia”, alerta. “Na minha prática clínica, avalio cada vez mais doentes com problemas de saúde crónicos não controlados ou com diagnósticos tardios”.

Em questões de saúde, o tempo é essencial. Um diagnóstico tardio pode muitas vezes fazer a diferença entre um problema tratável, e que podia até ser fácil de evitar, e um problema mais grave de saúde.

“Uma grande percentagem de doentes corre riscos significativos por ignorarem os seus sintomas. Para a maioria das situações clínicas, o diagnóstico correto e atempado é o elemento essencial na diminuição do risco de morbidade e mortalidade relacionado com a maioria das condições de saúde crónicas e agudas tratáveis e evitáveis”, destaca.

Nuno Amândio já sentiu isto mesmo na sua prática clínica. “Avalio cada vez mais doentes diabéticos não controlados ou com diagnósticos tardios desnecessariamente. Recordo o caso de um doente que ignorou os seus sintomas durante um ano. Quando foi realizado o diagnóstico percebemos que teria de iniciar insulina. Se tivesse procurado ajuda médica atempada poderia ter controlado a doença apenas com medicação oral”, salienta.

Esta situação faz-se sentir tanto na forma como pessoas adiam o devido atendimento médico quando já sentem sintomas como nos casos em que se adiam consultas de rotina, que poderiam ter feito a diferença num diagnóstico atempado.

“Os internamentos hospitalares e a procura de atendimentos permanentes por enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e crise hiperglicémica diminuíram desde o início da pandemia. Nos EUA, por exemplo, de acordo com o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças, a 30 de junho de 2020, cerca de 41 por cento dos adultos atrasaram ou evitaram o atendimento médico, incluindo o atendimento em urgência ou emergência (12 por cento) e o atendimento de rotina (32 por cento). Em Portugal a realidade é semelhante”, alerta.

O esforço coletivo em tempos de confinamento, por importante que possa ser no combate à propagação da doença, não se deve sobrepor à atenção que é preciso manter sobre outros potenciais problemas de saúde. “A negação é uma das manifestações mais frequentes do medo: ‘estou bem, isto não é nada, não tenho tempo, o que é que me vão dizer que já não sei’”, exemplifica Nuno Amândio. Mas não pode nem deve ser assim.

“Se os cuidados de rotina continuarem a ser evitados, as pessoas podem perder oportunidades cruciais para manterem as suas condições crónicas controladas, ou para detetarem precocemente novas doenças.”. E o médico dá outro exemplo: “avaliei recentemente uma doente com insuficiência cardíaca descompensada grave”. A razão? Tinha interrompido a “medicação habitual por vontade própria e a negação das queixas”.

“Quando procurou ajuda médica”, prossegue, “o seu estado clínico já merecia um prognóstico reservado. Ignorar os sintomas de uma doença com uma alta taxa de mortalidade é um fenómeno surpreendentemente comum e que pode trazer consequências graves para a saúde”.

A Covid-19 não pode ser por isso razão para adiar a consulta médica. “Mesmo durante a pandemia, os doentes devem procurar ajuda médica sem demora e sem receio, pois os hospitais reforçaram medidas e circuitos para garantir a segurança de doentes e profissionais”, destaca, lembrando que é importante confiar na capacidade de hospitais e profissionais de saúde para atenderem as pessoas, independentemente dos constrangimentos que a pandemia tem causado, não só na saúde mas na economia e sociedade.

A que sinais deve estar atento?

O médico Nuno Amândio reforça que muitos problemas podem ser prevenidos ou revertidos se tratados precocemente. Vale, por isso, a pena prestar atenção a alguns sintomas que não devem ser ignorados.

“A falta de ar, a febre persistente ou o desconforto, pressão, peso ou dor no peito, braço ou abaixo do esterno, alteração na fala, deglutição, mobilidade dos membros ou simetria facial, alteração do estado consciência, síncope ou cefaleia intensa súbita assim como alterações súbitas da visão, dor ou fadiga que possa impedir de realizar atividades normais e, ainda, alteração não justificada no peso ou no apetite”, exemplifica.

O especialista realça que ainda que as pessoas devem também prestar atenção aos fatores de risco não controlados para doenças cardíacas, como a pressão alta, o colesterol alto, a diabetes e a obesidade. Acima de tudo: não desvalorize nem adie. Isso pode ser o fator que faz a diferença na hora de responder da melhor maneira a um problema de saúde.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT