ROCKWATTLET'S ROCK

Saúde

Médicos confirmam: uso excessivo de sprays nasais traz problemas para a saúde

Esta rotina nunca pode durar mais do que cinco dias consecutivos. O vício pode mesmo provocar perda de olfato.

Quando chega o inverno, os sprays nasais tornam-se quase um acessório indispensável para milhares de portugueses. São a resposta mais rápida para respirarem melhor ou deixarem de pingar do nariz. Apesar de serem medicamentos de venda livre e amplamente utilizados, a verdade é que o uso prolongado pode transformar um sintoma temporário num problema crónico.

Existem, essencialmente, dois grandes tipos de remédios. Por um lado, os descongestionantes nasais, usados em situações de corrimento nasal intenso ou constipações comuns. Por outro, os que têm ação anti-inflamatória, geralmente à base de corticoides, mais indicados para quadros alérgicos ou inflamações persistentes da mucosa nasal.

Segundo o médico de clínica geral António Hipólito de Aguiar, os descongestionantes atuam diretamente nos vasos sanguíneos do nariz. “Sempre que há uma inflamação, um dos mecanismos naturais de defesa do organismo é aumentar o fluxo de sangue naquela zona, o que leva à produção de mais muco”, explica à NiT.

Esse muco funciona como uma barreira protetora, retendo vírus, bactérias e outras partículas inaladas. Quando estamos constipados ou com uma infeção viral, o organismo aumenta deliberadamente essa produção para evitar que mais agentes patogénicos entrem no sistema.

O problema surge quando se tenta contrariar repetidamente este mecanismo natural. Os descongestionantes provocam vasoconstrição, ou seja, reduzem o aporte de sangue à mucosa nasal, diminuindo temporariamente o corrimento. “Ao usarmos um descongestionante, estamos a dizer ao organismo que aquela zona precisa de menos sangue, quando, na realidade, precisa de mais para se defender”, afirma.

Esta interferência pode levar ao chamado efeito rebound. Após longa utilização contínua, normalmente a partir do terceiro dia, o nariz começa a reagir de forma contrária ao esperado. “A célula deixa de receber a informação de forma fidedigna e acaba por vasodilatar ainda mais, porque sabe que aquela zona esteve privada de oxigénio durante muito tempo.” O resultado é um nariz ainda mais entupido, levando muitas pessoas a aumentar a dose e a frequência do spray, entrando num ciclo de dependência.

A recomendação médica é clara: os sprays descongestionantes não devem ser usados por mais de cinco dias consecutivos. O uso prolongado pode provocar secura excessiva da mucosa nasal, tornando-a mais sensível e frágil.

“O risco é haver hemorragias nasais e perda da função normal do nariz”, alerta o clínico, recorrendo a uma metáfora simples: “É como aspirar tanto uma alcatifa que ela fica sem pelo. Deixa de reter o pó e tudo começa a andar no ar”. Quando a mucosa perde essa “carpete protetora”, o nariz deixa de filtrar eficazmente os contaminantes do ar.

Entre as consequências menos conhecidas está também a alteração do olfato. A degradação da integridade da mucosa nasal pode comprometer a capacidade de cheirar, uma vez que os recetores olfativos dependem de um ambiente saudável para funcionarem corretamente.

Já os sprays nasais à base de corticoides têm uma função diferente. Não servem para aliviar rapidamente o nariz entupido, mas sim para tratar a inflamação subjacente, sobretudo em casos de rinite alérgica. São indicados quando há espirros constantes, vermelhidão nasal e sensação persistente de congestão ou dificuldade respiratória.

“Não provocam o efeito rebound como os descongestionantes, porque atuam reduzindo a inflamação ao longo do tempo”, explica António Hipólito de Aguiar. Ainda assim, devem ser usados sob orientação médica, uma vez que contêm cortisona e requerem uma utilização correta e continuada para serem eficazes.

Para quem já desenvolveu dependência dos sprays descongestionantes, o médico aconselha uma redução gradual. “Em vez de usar três vezes por dia, deve passar a usar duas e substituir a terceira por soro fisiológico”, recomenda. A lavagem nasal com soro ajuda a hidratar a mucosa, fluidificar as secreções e aliviar a congestão de forma natural. Progressivamente, o objetivo é conseguir descongestionar o nariz apenas com soro fisiológico, permitindo que a mucosa recupere a sua função normal.

ARTIGOS RECOMENDADOS