Saúde

Michel Desmurget: “Ler por prazer é o melhor antídoto contra os cretinos digitais”

O novo livro do neurocientista francês chegou a Portugal esta quinta-feira, 20 de junho. É um alerta para todos os pais.
Foi publicado originalmente em 2023.

“Os nativos digitais são os primeiros filhos a terem um QI inferior ao dos pais.” Esta foi uma apenas uma das frases que Michel Desmurget escreveu no livro “A Fábrica de Cretinos Digitais”, lançado em 2019, que gerou polémica. Entre defensores e detratores que o acusavam de fazer “uma constatação sem fornecer soluções”, o que é certo é que as palavras do autor continuam a ecoar por todo o mundo.

Agora, o neurocientista francês acabou de lançar um novo livro que responde à inquietação dos críticos. “Pesquisei a literatura científica em todas as direções e não encontrei melhor antídoto para o embrutecimento dos espíritos que a leitura”, afirma Desmurget nas primeiras páginas de “Ponham-nos a Ler! A leitura como antídoto para os cretinos digitais”.

Originalmente lançado em França, a 22 de setembro do ano passado, a obra chegou esta quinta-feira, 20 de junho, a Portugal. “Esta segunda parte não foi planeada, não sabia que a ia escrever inicialmente, mas depois do primeiro livro as pessoas perguntavam-me o que podemos fazer para resolver o problema de que falava”, começa por contar à NiT Michel Desmurget.

“Há várias coisas que têm um impacto positivo no desenvolvimento do cérebro, como o desporto e a música, por exemplo, mas não encontrei nada com um impacto tão profundo e universal como ler. É capaz de mudar todas as regiões cérebro, porque está relacionado com tudo.”

O problema é que o tempo é um bem limitado, afirma Desmurget. “Milagroso seria se a leitura tivesse saído ilesa da máquina de lavar digital que, nos últimos trinta anos, tem vindo a drenar uma parte cada vez maior da vida dos nossos filhos”, refere no novo livro.

Contudo, vale a pena investir na leitura porque é a base que permite desenvolver os três pilares da sua essência humana: aptidões intelectuais, competências emocionais e habilidades sociais, considera o autor de 59 anos. É por isso que “o inexorável movimento de declínio do livro no seio das novas gerações” tem consequências diretas no desempenho académico.

Os miúdos que começam a ler por volta dos seis anos vão ter melhores resultados escolares, porque a leitura tem um grande impacto no QI e permite desenvolver uma maior capacidade de concentração. 

Michel Desmurget defende que este hábito é também nos permite compreender melhor o mundo. Nesta lógica, quanto mais lemos, maior será o conhecimento geral que vamos adquirir e, portanto, o facto de os mais novos não se informarem através da leitura pode vir a ser um problema para a democracia.

Ler desempenha também um papel fundamental no desenvolvimento da linguagem. “A gramática num livro é mais complicada que a falada, é como se fossemos bilingues. Portanto, também é uma forma de estimular o cérebro. Ainda assim, é muito importante para o desenvolvimento da inteligência emocional porque os miúdos, ao criarem empatia com as histórias e emoções das personagens, desenvolvem também a habilidade de perceber o próximo, interagir com ele e compreenderem-se a si próprios. Não podemos negligenciar esse lado.”

É lançado esta quinta-feira, em Portugal.

Segundo Michel Desmurget, os jovens não só leem cada vez menos, como leem cada vez pior. Mais do que decifrar o alfabeto e juntar letras e sílabas, é preciso que compreendam e interpretem o que está escrito. Mas como podem aprender a fazer isso?

“O papel dos pais é fundamental neste aspeto. Cabe-lhes estimularem nos filhos o gosto pela leitura. Deixem que sejam os miúdos a escolher os livros (coisas simples, para não ficarem frustrados) e leiam com eles, para que lhes possam explicar as palavras que ainda não percebem.”

Desmurget sublinha que é essencial começar a fazê-lo desde cedo. “No primeiro ano devem começar logo a introduzi-los à leitura. É claro que ainda não percebem, mas vai ajudá-los a desenvolverem o cérebro. Durante esta fase é muito importante continuar a tentar mesmo que seja chato para os pais. Lembro-me de dizer à minha filha, no início: ‘Se não perceberes alguma coisa, diz’”.

A solução é a mesma se estivermos a falar de adolescentes. “Temos de ler com eles. Há livros com vários graus de dificuldade, também é importante escolher obras adequadas para a idade, com os tópicos certos.”

Atualmente, a filha do escritor está na universidade. Contudo, teve uma infância e adolescência pouco habituais —não teve telefone, computador ou televisão até aos 18 anos. Entretanto, já comprou um telemóvel, mas isso não preocupa Michel Desmurget, porque sabe que o seu cérebro se desenvolveu até ali sem ecrãs.

“As pessoas não têm mesmo noção da importância de ler: tem um poder incrível. Podemos comparar o efeito dos ecrãs no cérebro, ao efeito do álcool num miúdo. Os dois são semelhantes, porque o cérebro não está preparado para nenhum deles.”

“Ponham-nos a Ler! A leitura como antídoto para os cretinos digitais”, da editora Contraponto, tem 416 páginas. Custa 15,93€ e já está disponível nas livrarias físicas e online

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